Marcélia Cartaxo, Bruno Gagliasso, Joana Henning e Sérgio Machado nos bastidores
O Estúdio Escarlate celebra seus dez anos de trajetória com o início das filmagens de Eternamente Sua, novo longa-metragem escrito e dirigido por Sérgio Machado, que também assina a produção, ao lado de Joana Henning e Bruno Gagliasso. O filme começou a ser rodado no Rio de Janeiro e segue para Cabaceiras, na Paraíba, na próxima etapa das filmagens.
O projeto reúne um dos elencos mais expressivos do cinema brasileiro contemporâneo, com Bruno Gagliasso e Marcélia Cartaxo nos papéis centrais, acompanhados por Romulo Estrela, Débora Nascimento, Lara Tremouroux, Shirley Cruz, Karine Teles, Suzy Lopes, Bruno Goya, Luiz Bertazzo e Fernando Eiras.
Bruno Gagliasso comentou a parceria com o diretor: “Este filme representa dois momentos muito especiais para mim. É a primeira vez que trabalho com o Sérgio Machado como protagonista de um longa, algo que eu desejava há muito tempo pela admiração que tenho pelo olhar dele como diretor. E também é o meu primeiro projeto ao lado de Joana e do Estudio Escarlate como produtor, participando do processo criativo desde o início. Poder viver essas duas experiências ao mesmo tempo, ao lado dessa atriz gigante que é Marcélia e cercado por um elenco e uma equipe tão talentosos, torna Eternamente Sua ainda mais significativo e auspicioso”, afirma o ator.
O longa é um thriller psicológico, livremente inspirado num conto de Stefan Zweig, que acompanha o encontro de personagens de universos completamente distintos explorando temas como poder, desejo, fama e desigualdade social. O suspense é conduzido de forma gradual em uma narrativa marcada pela tensão e pelo olhar humanista característico da filmografia do diretor.
A produção celebra dez anos do Estúdio Escarlate
“Eternamente Sua é um projeto que acalento há décadas desde que li pela primeira vez o conto Leporella, de Stefan Zweig. Sempre fui apaixonado pelo cinema de gênero, pelo suspense e, especialmente, pela obra de Alfred Hitchcock. O filme nasce desse diálogo com o thriller psicológico, mas parte de uma ferida muito brasileira: a desigualdade brutal de classes, a invisibilidade social e as formas silenciosas de opressão que ainda estruturam as relações entre ricos e pobres no país”, destaca Sérgio Machado, de Cidade Baixa, A Luta do Século, O Rio do Desejo, Arca de Noé, 3 Obás de Xangô, entre outros.
A produção celebra dez anos do Estúdio Escarlate inaugurando uma nova fase da produtora; será o primeiro longa-metragem do núcleo de desenvolvimento de propriedades intelectuais, fruto da parceria entre Henning e Machado. O projeto deslancha uma sequência de obras autorais desenvolvidas pela dupla ao lado do produtor associado Bruno Gagliasso, inspiradas no método de criação de Machado e em um modelo de produção que privilegia o fazer cinematográfico artesanal.
“Este é um projeto concebido de forma muito cuidadosa, desde o roteiro até a formação da equipe. Reunimos profissionais que compartilham uma visão de cinema baseada na colaboração, na escuta e na busca por excelência artística. Iniciar as filmagens é celebrar esse encontro e dar o primeiro passo de uma jornada que acreditamos ser muito especial”, comenta Joana Henning, produtora e CEO do Estúdio Escarlate.
A equipe reúne alguns dos principais profissionais do audiovisual brasileiro. A direção de fotografia é de Adrian Teijido, a direção de arte de Frederico Pinto, os figurinos de Kika Lopes e Rosangela Nascimento, a caracterização de Martin Trujillo, a montagem de Marcio Hashimoto e a trilha sonora de Beto Villares.
Lucas Antunes: premiado pelo filme Sumidouro Livre
Foram anunciados neste sábado, 04/07, no Cine Teatro X de Novembro, em São Francisco do Sul, norte de Santa Catarina, os vencedores da quinta edição do FALA São Chico, Festival Audiovisual Latino-Americano de São Francisco do Sul, que exibiu 15 filmes, de cinco países, divididos em três programas temáticos: Territórios Livres, Corpos de Permanência e Lugar no Mundo.
A cerimônia de premiação, realizada no Centro Histórico do território mais antigo do Brasil, foi palco do reconhecimento ao audiovisual. O prêmio de melhor filme da Mostra Curtas Catarinenses e Latino-Americanos, escolhido pelo Júri Oficial, foi para Madres de Nacimiento, de Gloria Isabel Gómez Ceballos, uma coprodução entre Colômbia e França. O grande vencedor da noite revela que do esquecimento e da escuridão ressurgem imagens e sons que controlam os corpos das mulheres latino-americanas, que desde crianças são consideradas mães por natureza. Mas, nesses arquivos, surge uma interferência proveniente do passado para evocar uma mensagem de luta, memória e liberdade.
A justificativa dos jurados foi pela narrativa sensível e perturbadora sobre a maternidade infantil, uma questão estrutural que atravessa o tempo e coloca em xeque o direito das mulheres desde a infância: “O primor da construção narrativa, conduzida exclusivamente por materiais de arquivo, evidencia o valor histórico do tema e a urgência contemporânea desse debate”. A obra também foi contemplada pelo Prêmio Apoiador de cinco empresas especializadas no setor audiovisual: DOT, Mistika, Naymovie, Pluraltec e Media Mundus; as parceiras da Panvision concederam ao filme vencedor prêmios totalizando R$ 30 mil em serviços e oportunidades de formação.
Os jurados concederam também um Prêmio Especial para o documentário Nhemongarai, de Hopi Chapman e Jorge Morinico, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. O filme aborda o ritual guarani Nhemongarai realizado em duas etapas: em setembro, acontece a purificação de sementes, plantas e alimentos; já em janeiro, ocorre a nomeação das crianças a partir de um ano de idade. A produção acompanhou Maria, Sérgio, Arnildo e Maria Eugênia em suas rotinas, revelando o desafio diário de manter vivos os saberes, práticas e tradições de seu povo. Como justificativa, eles destacaram: “Monumental relevância cultural, pela sensibilidade com que registra e valoriza os saberes ancestrais, e pela importância de sua contribuição para a preservação da memória, da identidade e das tradições dos povos originários. Pela força com que preserva e compartilha saberes tradicionais, concedemos o Prêmio Especial a este filme”.
Os filmes premiados no FALA São Chico 2026 foram escolhidos por um corpo de jurados formado pelo jornalista Celso Sabadin, a produtora Érica de Freitas, que esteve no FALA do ano passado como tutora do Projeto Rally, e a realizadora Narriman Kauane, vencedora oficial do FALA São Chico 2025.
O Júri Popular escolheu o documentário catarinense Sumidouro Livre, de Lucas Antunes, de São Francisco do Sul, para receber a premiação de melhor filme da Mostra Curtas Catarinenses e Latino-Americanos. A obra trata da história sobre a luta de muitos anos e de milhares de pessoas. A área do Sumidouro, localizada entre as praias do Forte e do Capri, em São Francisco do Sul, em Santa Catarina, sofre ameaças constantes. Com o apoio de moradores, associações, entidades, institutos e organizações, este documentário surge como uma ferramenta de educação e conscientização, contribuindo para que essa área continue preservada e livre.
Os realizadores receberam uma premiação extra da Panvision: todos ganharam um passaporte como ouvinte para o 10º Encontro de Coprodução do Mercosul que será realizado durante o 30º Festival Internacional de Cinema Florianópolis Audiovisual Mercosul, FAM 2026, entre os dias 3 e 9 de setembro.
No palco, foi também entregue o Troféu Amigo do FALA São Chico para Benedito Juviniano, homenagem dedicada a pessoas e instituições que contribuem para fortalecer e viabilizar a realização do festival. Presente em muitas das ações da Panvision, esteve em quatro edições do FALA São Chico. Benê, como é conhecido na equipe, trabalha há 22 anos como projecionista e disse que é o melhor emprego que já teve.
Tiago Santos, diretor-presidente da Associação Cultural Panvision, realizadora do festival, destacou que o 5º FALA São Chico foi realizado com muitas adversidades e agradeceu ao público, às escolas e professores e demais instituições que estiveram presentes nas sessões: “Esse festival é feito por e para vocês, o público. Tivemos pouquíssimos recursos, equipe bem reduzida, mas decidimos manter nosso compromisso de realizar o FALA São Chico porque está no nosso DNA sermos consistentes e permanentes. Isso também se deu graças aos apoiadores que conquistamos e o engajamento de muita gente comprometida com a cultura e o audiovisual latino-americano”.
Conheça os vencedores do 5º FALA São Chico:
MOSTRA CURTAS CATARINENSES E LATINOS
Melhor Filme | Júri Oficial: Madres de Nacimiento, de Gloria Isabel Gómez Ceballos (Colômbia/França) Melhor Filme | Júri Popular: Sumidouro Livre, de Lucas Antunes (SC) Prêmio Especial do Júri: Nhemongarai, de Hopi Chapman e Jorge Morinico (RS)
TROFÉU AMIGO FALA SÃO CHICO Benedito Juviniano (Benê), projetista
Guilherme Cabral, Hermila Guedes e Emílio de Mello em cena
Dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, o longa Precisamos Falar conta o drama de dois casais divididos entre proteger os filhos ou entregá-los à Justiça. Protagonizado por Marjorie Estiano, Alexandre Nero, Hermila Guedes e Emílio de Mello, o filme chega aos cinemas brasileiros no dia 24 de setembro.
Produzido pela Conspiração, em coprodução com a Globo Filmes e distribuição da Sony Pictures e Conspiração, o elenco conta também com Thiago Voltolini, Cauê Campos, Guilherme Cabral e Julia Svacinna.
O thriller psicológico, apontado pela Variety como um dos títulos promissores na corrida pelas premiações internacionais de 2026, é uma adaptação do best-seller internacional O Jantar, do autor holandês Herman Koch.
O longa, que teve sessões no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo, além de representar o Brasil no Festival de Biarritz (França), Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano (Cuba, que recebeu o Prêmio de Contribuição Artística), Festival de Huelva de Cinema Ibero-Americano (Espanha) e Festival de Guadalajara (México), tem roteiro assinado por Sérgio Goldenberg, com supervisão de George Moura. A produção é de Andrucha Waddington e Leonardo M. Barros, com produção executiva de Renata Brandão, Tania Pacheco e Mariana Vianna; Guel Arraes assina como produtor associado.
A trama acompanha dois casais de classe média alta, Sandra (Marjorie Estiano) e Paulo (Alexandre Nero), e Celso (Emílio de Mello) e Anna (Hermila Guedes), que se surpreendem com um crime cruel: os filhos adolescentes, na volta de uma festa, causam a morte de uma mulher que dormia em um caixa eletrônico. Sentimentos semelhantes e reações opostas tomam conta das duas famílias. As imagens da câmera de segurança do banco não permitem a identificação dos assassinos, mas o caso tem enorme repercussão e os pais acabam descobrindo que seus filhos são os culpados. Nem todos os adultos estão dispostos a revelar à polícia o que aconteceu. A partir daí, surge a grande questão: até onde os pais podem ir para proteger aqueles que amam?
A direção de fotografia é assinada por Lula Cerri, a montagem é de Sergio Mekler e a direção de arte de Camila Moussallem; Roberta Tozato assina o figurino e a caracterização é de Damián Brissio. A música original é de Antonio Pinto, com som direto de Victor Tigronez e desenho de som e mixagem de Alessandro Laroca e Eduardo Virmond Lima. Claudio Peralta é o responsável pela supervisão de efeitos visuais e Sergio Pasqualino é o colorista sênior; Manuela Duque assina como produtora delegada e os produtores de elenco são Cibele Santa Cruz e Junior Prado.
Alceu Valença na turnê 80 Girassóis: show confirmado
O anúncio do Aruanda Praia II, que faz parte da programação do Festival Aruanda do Audiovisual Internacional da Paraíba, aconteceu na manhã desta sexta-feira, 03/07. A transmissão, realizada pelo YouTube, reuniu o diretor do festival, Lúcio Vilar, e teve participações especiais do governador da Paraíba, Lucas Ribeiro, e do secretário de Estado da Cultura, Pedro Santos, que celebraram a expansão da programação e o fortalecimento das ações culturais do evento neste ano.
As novidades da 21ª edição, que acontecerá entre os dias 2 e 10 de dezembro, em João Pessoa, foram apresentadas, assim como as atrações que compõem a programação do Aruanda Praia II 2026, que este ano ganha um dia extra de atividades nas areias de Tambaú, ampliando a experiência cinematográfica e musical que marcou o sucesso da edição anterior.
Como de costume, o festival terá sua abertura oficial no dia 2 de dezembro, no Cinépolis Manaíra Shopping, com o início da programação no circuito de salas de cinema, reunindo convidados, realizadores e público para celebrar mais uma edição do festival mais tradicional da Paraíba. No dia seguinte, será a abertura do Aruanda Praia II com a exibição do longa Jackson, na Batida do Pandeiro, de Marcus Vilar e Cacá Teixeira.
Depois do filme, acontecerá o Tributo a Jackson do Pandeiro, no qual artistas paraibanos interpretam clássicos do mestre do ritmo, celebrando sua obra e sua contribuição para a identidade musical do estado e do país. Em seguida, Alceu Valença sobe ao palco com o show da turnê 80 Girassóis; um dos maiores nomes da música brasileira celebra 80 anos em 2026 e traz ao palco um espetáculo que revisita sua carreira, misturando poesia, regionalidade e sucessos que atravessam gerações.
Cena do documentário Clara Estrela, de Susanna Lira
No dia 4 de dezembro, a programação do Aruanda Praia realizará o Tributo: Renato Russo – 30 Anos Depois, que começará com o filme Rock Brasília: Era de Ouro, de Vladimir Carvalho, que retrata o surgimento da cena rock brasiliense nos anos 1980, com foco em bandas como Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude; a obra é um registro histórico da efervescência cultural que marcou o país. Na sequência, Dado Villa-Lobos subirá ao palco com sua banda; ex-guitarrista da Legião Urbana, Dado apresenta um repertório dedicado aos grandes sucessos da banda, celebrando a memória e a força da música que marcou gerações desde os anos oitenta.
No terceiro dia do Aruanda Praia, a programação começará com atividades circenses e exibição de um filme infantojuvenil. Depois, no Tributo: Clara Nunes, será exibido o documentário Clara Estrela, dirigido por Susanna Lira, que revisita a vida e a carreira de Clara Nunes, uma das maiores vozes da música brasileira, destacando sua força artística e sua relação com a cultura afro-brasileira. A noite seguirá com cantoras da Paraíba interpretando clássicos de Clara Nunes, celebrando sua potência vocal e legado cultural, e depois com um show especial de uma atração surpresa que será revelada em breve.
Lúcio Vilar, diretor do Fest Aruanda, disse: “Estamos convictos de que o Aruanda Praia, em 2025, inaugurou uma nova janela de conexão entre cinema e música, promovendo uma experiência cultural única. Essa simbiose revelou uma sintonia e uma química extraordinárias com o público paraibano e com os turistas que visitam João Pessoa nesse período, consolidando um formato de forte impacto. Por isso, temos a alegria de anunciar que vamos realizar uma nova edição este ano. Será uma honra abrir oficialmente o verão pessoense 2026, democratizando o acesso da população a uma programação artística de excelência, gratuita e voltada para toda a família”.
Lucas Ribeiro, governador da Paraíba, também comentou: “Teremos mais uma edição do Fest Aruanda. De 2 a 10 de dezembro, o evento está garantido e vai acontecer. O Governo está apoiando esse grande festival. Estamos juntos e encontramos vocês lá!”. Pedro Santos, secretário de Cultura, completou: “Estamos muito felizes porque, por mais um ano, o Governo da Paraíba, por meio da Secretaria da Cultura, está parcerizando com o Fest Aruanda na sua 21ª edição e também na segunda edição do Aruanda Praia. Já antecipamos que o Governo da Paraíba, mais uma vez, estará junto, celebrando aquele que é o mais longevo, maior e mais importante festival de cinema da Paraíba. Vida longa ao Fest Aruanda”.
Wagner Moura em O Agente Secreto: exibido no ano passado
A 36ª edição do Cine Ceará – Festival Ibero-americano de Cinema, que acontecerá entre os dias 7 e 13 de novembro, em Fortaleza, está com inscrições abertas para as mostras competitivas. Neste ano, o evento celebra Fortaleza, 300 anos de luz e cinema.
Os interessados em participar da seleção podem se inscrever gratuitamente até o dia 15 de agosto de 2026. No site oficial (clique aqui) estão disponíveis o formulário de inscrições e o regulamento. Além das mostras competitivas ibero-americana de longa-metragem, brasileira de curta-metragem e Olhar do Ceará, o festival conta também com exibições especiais, mostras sociais, debates, homenagens, cursos, entre outras atividades. Grande parte de sua programação é realizada em um dos principais equipamentos culturais públicos do estado, o Cineteatro São Luiz, da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult/CE), gerido pelo Instituto Dragão do Mar (IDM). Toda a programação tem acesso gratuito.
As inscrições para a mostra competitiva ibero-americana de longa-metragem do Cine Ceará 2026 estão abertas para filmes realizados por produtores e/ou diretores brasileiros e ibero-americanos (América Latina, Caribe, Portugal e Espanha), nos gêneros de animação, ficção, documentário ou híbrido. Os longas inscritos devem ter sido concluídos a partir de 2025, com duração mínima de 60 minutos.
A competitiva brasileira de curta-metragem é destinada a filmes dos gêneros de ficção, documentário, animação ou híbrido, realizados por produtores e/ou diretores brasileiros ou radicados no país há mais de três anos, com duração máxima de 25 minutos, concluídos a partir de janeiro de 2025, que não tenham participado do processo seletivo de outras edições do Cine Ceará.
A Mostra Olhar do Ceará é direcionada a produtoras ou diretores cearenses, residentes ou não no estado. Podem ser inscritos filmes de curta-metragem, de até 25 minutos, e longa-metragem com duração mínima de 60 minutos, concluídos a partir de janeiro de 2025, nos gêneros de ficção, documentário, animação ou híbrido, que não tenham participado do processo seletivo de outras edições deste festival.
No processo seletivo, a curadoria das mostras competitivas prioriza trabalhos inéditos e se identifica com ações de inclusão social, com isso reservará no mínimo 30% de participação para mulheres diretoras no conjunto das mostras competitivas. Todos os filmes selecionados deverão apresentar legenda descritiva para surdos e ensurdecidos, em idioma português, conforme determina o Ministério da Cultura.
Dentre os participantes da mostra competitiva ibero-americana de longa-metragem do 36º Cine Ceará, serão agraciados com o Troféu Mucuripe os vencedores nas categorias: melhor longa-metragem, direção, atuação principal, atuação coadjuvante, roteiro, fotografia, montagem, trilha sonora original, som, direção de arte e Prêmio da Crítica. O melhor longa, eleito pelo Júri Oficial da competitiva ibero-americana, receberá um prêmio no valor de R$ 40 mil.
Na mostra competitiva brasileira de curta-metragem, o Troféu Mucuripe será concedido aos vencedores nas seguintes categorias: melhor curta-metragem, direção, roteiro e Prêmio da Crítica. Já na Mostra Olhar do Ceará, o Júri Oficial elegerá o melhor curta-metragem e o melhor longa-metragem, que receberão o Troféu Mucuripe.
Luiza Lindner: premiada pelo filme Irritante Prodígio
A cerimônia de encerramento da 21ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, apresentada por David Maurity, aconteceu nesta terça-feira, 30/06, na Praça Tiradentes, na cidade mineira de Ouro Preto, Patrimônio Histórico da Humanidade.
O longa-metragem Irritante Prodígio, dirigido por Luiza Lindner, foi o vencedor do Troféu Vila Rica da mostra competitiva chamada Arquivos em Questão. Dedicada a filmes que exploram criativamente imagens de arquivo, o recorte da programação reúne produções que investigam as múltiplas possibilidades de diálogo entre memória, documentação e criação audiovisual.
A escolha de Irritante Prodígio foi feita pelo Júri Oficial composto pela documentarista e professora Anita Leandro, pela professora e pesquisadora Gabriela Lima Gomes e pelo professor e pesquisador João Luiz Vieira. A justificativa diz: “O filme se destaca pela adequação da forma com conteúdo e se enriquece trazendo o próprio corpo como arquivo”.
Produção de Santa Catarina e São Paulo, o filme investiga os limites entre autobiografia, performance e memória ao revisitar a infância da diretora, marcada por longos períodos de internação hospitalar e psiquiátrica. A partir da articulação entre registros pessoais, imagens de arquivo e encenações, ela constrói uma narrativa sobre lembranças individuais e formas de representação audiovisual.
Noite de premiação na CineOP 2026
A diretora Luiza Lindner agradeceu, emocionada: “Gente, que loucura! Eu zero imaginava mesmo. Para mim, era uma honra só estar participando. Queria falar que agradeço muito ao júri e todo o pessoal aqui do festival. Tô muito honrada de estar aqui e muito realizada. Realmente o cinema, a produção artística e a expressão são tudo para mim. E esse filme representa exatamente isso. Eu acho que nada seria mais forte do que ser a nossa razão para existir e eu acho que a memória é muito simbólica nesse sentido. Então, de fato, é o momento que eu vou lembrar para sempre. Eu fico muito feliz mesmo. Me ajudem na existência desse filme também. Estou começando a minha carreira no cinema e espero que esse prêmio ajude o filme a existir ainda mais”.
A mostra Arquivos em Questão é a seção competitiva da programação da CineOP e reúne obras que fazem do arquivo fonte documental e matéria-prima para novas experiências cinematográficas. Nesta edição, a seleção apresentou longas e curtas-metragens brasileiros e internacionais que exploram diferentes formas de reutilização de imagens, registros históricos e acervos audiovisuais.
Depois da premiação, o público acompanhou o cine-concertoCanção para o Novo Mundo, que contou com Titane, Túlio Mourão, Yuri Vellasco e o videoartista Eder Santos. Inspirado no universo do Clube da Esquina, o espetáculo combina música ao vivo e projeções audiovisuais em uma experiência sensorial que propõe renovar o desejo de viver e refletir sobre o tempo presente. A apresentação encerrou a 21ª CineOP em sintonia com o tema desta edição, reafirmando o cinema como espaço de memória, criação e encontro.
*O CINEVITOR está em Ouro Preto e você acompanha a cobertura do evento por aqui, pelo canal do YouTube e pelas redes sociais: Twitter, Facebook e Instagram.
A 21ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto reafirmou, mais uma vez, seu papel como principal evento brasileiro dedicado à preservação, à história e à educação audiovisual. O evento beneficiou mais de 20 mil pessoas em seis dias de atividades gratuitas, reunindo profissionais do audiovisual, pesquisadores, educadores, estudantes, gestores públicos e público em geral em uma programação que integrou exibições, atividades formativas, debates, encontros profissionais e atrações artísticas.
Neste ano, foram exibidos 135 filmes (33 longas-metragens, quatro médias e 98 curtas) distribuídos em 42 sessões. A programação reuniu produções de 18 estados brasileiros e de seis países, entre pré-estreias mundiais e nacionais, mostras temáticas e competitiva, ampliando o diálogo entre diferentes cinematografias e gerações de realizadores.
Ao longo de mais de duas décadas, a CineOP consolidou um modelo único de festival no país, no qual exibição, formação, preservação e formulação de políticas públicas caminham de forma integrada. A 21ª edição encerra sua programação mantendo Ouro Preto como principal espaço brasileiro de reflexão sobre preservação audiovisual, história do cinema e educação, reunindo profissionais, instituições e público em torno da memória e do futuro do audiovisual brasileiro.
Antes do encerramento, na terça-feira, 30/06, Raquel Hallak, CEO da Universo Produção e coordenadora geral da Mostra, conversou com a imprensa no Centro de Artes e Convenções da UFOP e, como de costume, fez um balanço geral da edição: “É uma alegria estar aqui com esse sentimento de missão cumprida. De chegar ao final de tudo como a gente planejou, ver acontecendo, tomando forma, ocupando os espaços dessa cidade tão querida como Ouro Preto, que nos inspirou desde sempre a pensar o cinema como patrimônio. E o cinema merece tombamento”.
No bate-papo, Hallak falou da essência do evento: “A CineOP foi pensada exatamente para ser o espaço de apresentação desses filmes que estão chegando com a restauração ou com a digitalização. Na quarta edição, por exemplo, exibimos Xica da Silva, no Cine Vila Rica, sem estar restaurado, com a presença do Cacá Diegues, e homenageamos a Zezé Motta. Eu nunca imaginei que fosse ver o filme na sua janela original para uma nova plateia. O espírito é exatamente isso. Quem fez cinema antigamente, e ainda segue fazendo, não tem essa consciência de que os filmes permanecem vivos e que sempre terão pessoas querendo conhecer esses títulos. Esses filmes contam o tempo histórico em que foram realizados”.
A 21ª CineOP movimentou a economia, ampliou o alcance e fortaleceu a preservação audiovisual
Sobre um volume maior de filmes restaurados na programação, comentou: “São resultados de políticas públicas. Não é que abrimos seleção para mais filmes. É porque agora tivemos que escolher os filmes que antes ficávamos catando. Eram filmes pingados porque o restauro é um processo demorado. Então, quando a gente vê que tem condição de escolher, é um alívio. Sinal que esses encontros, que reafirmamos todos os anos aqui sobre preservação, formação, guarda e acesso, estão sendo notados. Alguém prestou atenção”.
E continuou: “A CineOP é o lugar dos filmes que utilizam imagens de arquivo e a gente introduziu a mostra competitiva no ano passado, que já vem com um aprimoramento que estamos estudando exatamente para dar visibilidade a esse trabalho invisível do pesquisador em primeira instância e de como esses acervos estão sendo guardados. O Ainda Estou Aqui, por exemplo, em sua essência, só foi possível com imagens de arquivo, tanto para estudar e contar essa história, como para utilizar essas imagens. Estamos numa saturação do digital, né? A gente também está em busca do novo porque queremos conhecer a nossa história. Então, existe uma curiosidade e existe a nostalgia da película, de como foi filmado. E existe a curiosidade do novo, do restaurado em 4K, de ver como essa imagem vai ficar. Com isso, temos os avanços tecnológicos: como que a IA contribui nesse processo de restauro? Eu acho que essas vertentes levam esse público para a sala também pela curiosidade de ver como que esses filmes se apresentam”.
Raquel aproveitou a conversa com a imprensa para refletir sobre a importância da exibição dessas obras que fizeram parte da programação: “Nesses 21 anos, a CineOP vem acompanhando todos os avanços do setor da preservação e sempre colocando a preservação também como indústria, como ativo econômico. É preciso ter esse espaço de estreia ou de exibição. É também um momento de valorização dessas produções, que até então estavam guardadas nas cinematecas. Então, acho que a gente colaborou pra uma quebra de paradigma. Quando eu vejo um filme estrear eu penso que o cinema brasileiro permanece vivo, independente do ano em que ele foi produzido. Mas, precisamos dar acesso. E a sala de cinema complementa o ato da preservação também porque ninguém vai preservar para manter o filme guardado. A preservação só tem sentido quando ela possibilita o acesso para você poder ver e ter a experiência desse cinema. Essa conjuntura atual mistura curiosidade, história, nova geração, avanços tecnológicos e a experiência de assistir esses filmes no cinema”.
Imprensa reunida com Raquel Hallak
Na sequência, Hallak falou da Rede Nacional de Arquivos e Acervos: “O grupo de preservação é a raiz da CineOP, assim como a criação da Rede Nacional de Arquivos. Em 2006, criamos esse evento porque não existia um banco de dados para você consultar essas cópias. Não tinha uma integração entre as instituições de guarda. Não tinha, minimamente, uma possibilidade de discussão sobre de quem são esses filmes e de como mostrar que esses filmes são do Brasil, são nossos. Com a criação da Rede Nacional de Arquivos, tivemos um avanço imenso de considerar a preservação dentro da política pública do Ministério da Cultura. Assim como foi criado o IBRAM [Instituto Brasileiro de Museus]; é através desse instituto que se consegue recursos e consegue também pensar em infraestrutura e formação. A Rede Nacional de Arquivos e Acervos é uma realidade; cabe agora ao setor e à sociedade civil torná-la pulsante porque ela existe. São esses documentos que têm sido balizadores da construção dessas políticas públicas”.
E completou: “Recebemos um prêmio da Academia Brasileira de Cinema, que foi o primeiro reconhecimento público da CineOP como fórum privilegiado de discussão da preservação. Além disso, a preservação conseguiu cadeira na Cinemateca Brasileira através da ABPA [Associação Brasileira de Preservação Audiovisual]. São conquistas, que se a gente pensar na história do cinema brasileiro, muito recentes. Mas, muito importantes para a existência da preservação dentro do ecossistema que era visto como o patinho feio. Se a gente tinha no passado só a Cinemateca do MAM e a Cinemateca Brasileira, hoje temos o Brasil sendo visto através dos museus de Imagem e Som, através das suas cinematecas representativas de seus estados, de reconhecimento público dessas instituições, da descentralização da regionalidade. Então, esse encontro na CineOP, tem sido preponderante para que esses avanços sejam conquistados por uma luta do setor. Aqui, estamos a serviço deles”.
Sobre o encontro de gerações de cineastas, Raquel comentou: “Não tem como falar de preservação sem democratização, sem acesso. Nessa edição, foi interessante ver mulheres que já possuem história e acervo, como a Tata Amaral, por exemplo, ao lado de jovens que estão chegando com possibilidades de espaço. Eu lembro quando eu falava pela primeira vez da CineOP para algum cineasta ou produtor e me respondiam que não tinham como contribuir com a preservação. E eu questionava: ‘Como não? Quem faz seus filmes? Quem são os donos dos seus filmes? Como é que eles vão estar no futuro? Como é que vai ser esse acesso? Como é que vai essa guarda?’. Então, isso mudou muito. E acho que vai mudar principalmente a partir desses jovens, que estão vindo com mais consciência. É um diferencial na produção contemporânea agora. A Mostra é democrática em todos os sentidos. Da possibilidade de você escrever, de você exibir, de olhar para o ponto de vista curatorial e organizar esses filmes”.
Raquel Hallak destaca o patrimônio audiovisual brasileiro e políticas culturais
Os projetos de preservação também foram abordados por Hallak: “Uma das novidades dessa edição, além dos filmes, foram os projetos de preservação, que também abrimos inscrição. E a CineOP é o lugar para isso. É esse espaço de convergência entre preservação, história e educação; é o espaço da preservação em todos os sentidos, da discussão, da exibição, da troca de conhecimento e de possibilidades de conhecermos projetos que estão sendo feitos, como estão sendo feitos, quais foram os resultados e servir de troca de experiências para que outros surjam. E foi uma luta muito grande para ter a preservação dentro da Lei Aldir Blanc. Espero que a cada edição esses filmes estejam cada vez mais numerosos e que a gente possa cada vez mais ter espaço para eles. De um tempo para cá, conseguimos fazer um recorte para a seleção de filmes somente com imagens de arquivo. Isso não se sustentava antes. É mostrando que como a pesquisa, o acesso a esse acervo, a questão do recurso e dos direitos autorais de imagem são fundamentais para construir outras histórias, para ressignificar novas narrativas”.
Raquel falou também sobre as Cartas de Ouro Preto, documentos fundamentais que reúnem as principais urgências e reivindicações de profissionais dos setores de educação e salvaguarda do patrimônio cinematográfico nacional: “São instrumentos que a gente registra para marcar uma época. Quando olhamos para essas cartas, percebemos que serviram para alguma coisa. Talvez não de forma imediata, mas serviu. Do Fórum de Tiradentes, a mesma coisa. Quando a gente reflete sobre todo o trabalho que foi feito em uma dessas publicações percebemos o que de fato existe e questionamos: o que nós queremos? Uma política de Estado, uma política estruturante e permanente. Essa política é uma construção. E eu vejo uma construção desses avanços a partir dessas cartas. Não tem como desconectar do que é feito aqui”.
Na conversa com a imprensa, Raquel Hallak destacou a importância do audiovisual na sociedade: “Eu represento e lidero um trabalho muito coletivo. Isso não é de uma pessoa e nem de uma empresa; são as pessoas, equipes, profissionais e imprensa que acreditam que a gente precisa construir um mundo melhor através do audiovisual em conexão com as outras artes. Então, é uma política pública permanente e estruturante. É no audiovisual que a gente se expressa, que a gente tem voz, que a diversidade tem lugar. É um cinema plural em todos os sentidos: de quem faz, de quem pensa, de quem divulga, de quem projeta. Eu acho que, paulatinamente, fomos construindo esse caminho. É uma construção coletiva”.
Bate-papo: balanço geral da 21ª edição com a imprensa
E seguiu com uma reflexão sobre a trajetória da Mostra de Cinema de Ouro Preto: “Hoje pensamos com muito mais maturidade esse contexto da preservação. Quando começamos, eu não tinha a menor ideia de onde isso chegaria. Eu só pensei nesse evento porque quando a gente foi exibir alguns filmes em Tiradentes, não conseguíamos encontrar as cópias dos filmes ou quem eram os donos ou qual era a condição de exibição dessas cópias. Eu não tinha a menor ideia de como que a preservação era vista ou de como era o contexto dela dentro do ecossistema audiovisual. Acho que é exatamente por esse distanciamento, ou por essa falta de conhecimento, que eu não tive pudor para ousar. E as pessoas foram junto comigo, acreditando que a gente tinha que desbravar e abrir esses caminhos. Então, quando a gente fala das mulheres, como cineastas que abriram caminhos, eu me vejo um pouco nesse lugar; e falo com minha equipe inteira sobre pensar esses caminhos porque eles não existiam”.
E finalizou: “Minas, por exemplo, sempre foi um estado da videoarte, da crítica cinematográfica. Mas não era um estado tradicionalmente do fomento e da produção. Isso que Belo Horizonte já teve 120 salas de cinema. Então, é uma espécie de resgate daquilo que foi silenciado ou daquilo que ainda não existiu, não foi descoberto, não foi revelado. Eu acho que o Cinema sem Fronteiras representa a inquietação e a ousadia de quem quer fazer alguma coisa diferente. Mas, principalmente, para valorizar e promover o cinema brasileiro porque é nele que a gente consegue se ver”.
Além dos resultados culturais, a CineOP 2026 também movimentou a economia local. A realização do evento mobilizou uma equipe formada por 132 profissionais, contratou 230 empresas prestadoras de serviços e envolveu 22 estabelecimentos comerciais de Ouro Preto, entre hotéis, pousadas e restaurantes. A Mostra contribuiu ainda para a geração de mais de dois mil empregos diretos e indiretos, fortalecendo os setores de turismo, serviços e economia criativa da cidade.
No ambiente digital, a programação alcançou 95 mil visualizações no site oficial, com acessos provenientes de 57 países, ampliando o alcance internacional do evento. Nas redes sociais, a 21ª CineOP registrou 2,6 milhões de visualizações, enquanto a cobertura jornalística reuniu 74 jornalistas credenciados, representando cerca de 400 veículos de comunicação de diferentes regiões do Brasil.
*O CINEVITOR está em Ouro Preto e você acompanha a cobertura do evento por aqui, pelo canal do YouTube e pelas redes sociais: Twitter, Facebook e Instagram.
Propostas com foco em políticas públicas para preservação audiovisual e educação no cinema
As Cartas de Ouro Preto são documentos fundamentais que reúnem as principais urgências e reivindicações de profissionais dos setores de educação e salvaguarda do patrimônio cinematográfico nacional. Os textos de 2026 foram lançados nesta terça-feira, 30/06, durante a 21ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Produzidos a partir de intensos debates durante a Mostra, os manifestos dividem-se em dois eixos de atuação essenciais. A Carta da Educação reivindica o cinema como um componente curricular autônomo, cobra a imediata regulamentação do Programa Nacional de Cinema nas Escolas (Lei nº 13.006/2014) e alerta para os riscos da dependência de corporações estrangeiras na educação digital.
“Defendemos que ensinar cinema exige formação inicial e continuada de docentes, reconhecendo um saber próprio, tecido entre teoria, sensibilidade e prática, sem o qual sua presença nas escolas permanece incompleta. No Brasil, temos mais de 180 cursos superiores de cinema e audiovisual, e já há 3 licenciaturas em cinema e audiovisual (UFF, UERJ, UFCA). Reivindicamos que o cinema seja reconhecido como componente curricular autônomo nas ações curriculares, com tudo que isso implica no cotidiano escolar, destinação de recursos e infraestrutura, e formação docente. Quando o cinema finalmente chegar a todas as escolas, que o faça como se fosse sempre a primeira vez, preservando o espanto, a delicadeza do encontro e a potência de transformação que habita cada imagem”, destaca a Carta da Educação.
Já a Carta da Preservação celebra os avanços na formação de preservadores audiovisuais, mas exige a realização de concursos públicos para garantir estabilidade institucional, a criação de data centers públicos para assegurar a soberania dos dados nacionais e o uso ético da Inteligência Artificial.
Em um momento de uníssona convergência, ambas as cartas fazem um apelo urgente pela preservação do acervo de 40 anos do projeto Vídeo nas Aldeias, ressaltando sua importância incontornável para a memória dos povos originários e do país: “Alertamos para a urgência de se empreender esforços imediatos e concretos para a preservação do Acervo do Vídeo nas Aldeias. Sua importância é incontornável para a salvaguarda da memória dos povos originários e para a construção de uma história do audiovisual brasileiro que supere os apagamentos históricos e contemple a diversidade do nosso país”, diz a Carta da Preservação.
Como lembram os documentos, educar e preservar são direitos inalienáveis e inseparáveis. Clique aqui e leia os manifestos na íntegra para conhecer as propostas que vão pautar as lutas culturais e educacionais do Brasil nos próximos anos.
Zezé Motta em Xica da Silva: filme comemora 50 anos em 2026
Lançado em 1976, Xica da Silva, dirigido por Cacá Diegues, atraiu mais de 3,1 milhões de espectadores e conquistou os prêmios de melhor filme, direção e atriz para Zezé Motta no Festival de Brasília. Às vésperas de completar 50 anos, o filme que reposicionou o protagonismo negro e feminino no cinema brasileiro, será relançado em cópia restaurada pela Sessão Vitrine Petrobras no dia 16 de julho.
Numa época em que o Cinema Novo ainda exercia forte influência sobre o audiovisual brasileiro, Carlos Diegues procurou um caminho próprio. Sem abandonar preocupações políticas e históricas, Xica da Silva combina humor, erotismo, música, espetáculo e linguagem popular para colocar uma mulher negra no centro absoluto da narrativa. Adaptado do livro Memórias do Distrito de Diamantina da Comarca do Serro Frio, de João Felício dos Santos, o filme criou uma versão mais irreverente, sensual e subversiva da personagem histórica e foi frequentemente apontado como um comentário ousado, ainda que indireto, sobre o regime autoritário que governava o país em 1976.
Chica da Silva foi uma mulher negra escravizada que, após conquistar a alforria, rompeu os padrões de sua época ao manter por cerca de 15 anos uma relação pública com João Fernandes de Oliveira, contratador de diamantes e um dos homens mais ricos do Império Português. Com ele teve 13 filhos, criados com privilégios raramente concedidos a descendentes de uma ex-escravizada. Após a partida de João Fernandes para Portugal, Chica assumiu a administração de parte dos negócios e consolidou uma posição de destaque na sociedade local.
Além do imenso sucesso de público, Xica da Silva representou a consagração de Zezé Motta no imaginário brasileiro. A atriz, que já havia participado de filmes e produções televisivas, foi amplamente aclamada pela crítica e recebeu alguns dos principais prêmios do cinema nacional por sua atuação, entre eles o Prêmio Air France, o Coruja de Ouro, o Prêmio Governador do Estado e o já citado Candango de melhor atriz no Festival de Brasília, em 1976. Cinco décadas depois, Zezé permanece como um dos grandes nomes da dramaturgia brasileira, símbolo de resistência para a comunidade negra e figura fundamental nas discussões sobre representação racial no país.
Sala cheia: apresentação do filme na CineOP
A cópia restaurada de Xica da Silva foi exibida pela primeira vez durante a 21ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto. A exibição aconteceu no domingo, 28/06, no Cine-Teatro Petrobras no Centro de Artes e Convenções da UFOP, e contou com a presença de Renata Almeida Magalhães, presidente da Academia Brasileira de Cinema e viúva de Cacá; Débora Butruce, restauradora; Carla Domingues, gerente executiva da Vitrine Filmes; José Quental, curador da Temática Preservação; entre outros.
No palco para apresentar o longa para o público, Débora Butruce falou sobre a restauração: “É uma alegria muito grande estar aqui para apresentar essa versão restaurada desse clássico do Cacá Diegues, que está completando 50 anos. Esse filme tinha passado por um processo anterior, dentro do âmbito do programa de restauro também viabilizado pela Petrobras, há 16 anos. Então, avaliamos e percebemos que o filme já tinha sido escaneado. Para evitar o desgaste dos materiais originais em película 35 mm, partimos desses arquivos digitais brutos para realizar o processo em 4K. O processo anterior tinha sido feito em uma outra resolução”.
E completou: “A imagem tinha problemas como fungos, rasgos e riscos. Esse processo de restauração digital foi importante para poder mitigar, minimizar e apagar esses danos. Com o som, partimos da versão restaurada anteriormente. Então, vocês vão ver uma versão nunca antes vista, em 4K. Conseguimos também retomar as cores, o que é muito importante e muito difícil em um filme colorido. É muito complicado conseguir avaliar quanto perde de cada canal de cor. Esse trabalho é feito com os grandes parceiros da Mapa Filmes, Link Digital e toda uma equipe muito cuidadosa e atenciosa nos mínimos detalhes para conseguir chegar neste trabalho de restauro. Lembrando que esses trabalhos só são possíveis porque os materiais originais são preservados; eles estão preservados pela Cinemateca Brasileira. Vale ressaltar a relevância absoluta desse trabalho sem o qual a gente não conseguiria chegar a esse resultado de restauro”.
Renata Almeida Magalhães, produtora brasileira e que foi casada com Cacá por 43 anos, fez seu discurso emocionada: “Eu tinha 15 anos quando vi Xica da Silva pela primeira vez e fiquei louca com o filme. Quatro anos depois eu já estava casada com o Cacá. Primeiro, queria agradecer não só ao trabalho que foi feito, mas pela Vitrine Filmes ter escolhido esse filme nessa data redonda. Pouca gente sabe, mas Xica da Silva é o maior sucesso comercial do Cacá no Brasil. Não é o Bye Bye Brasil”.
Débora Butruce: coordenadora da restauração do filme
E seguiu: “Cacá adorava música e ele falava que seus filmes sempre tinham a ver com música. O Xica da Silva era o filme escola de samba. Chuvas de Verão, por exemplo, era o chorinho. O Cacá teve a ideia de fazer Xica da Silva vendo um desfile de escola de samba do Salgueiro feito pelo Fernando Pamplona. Aquilo ficou na cabeça dele e anos depois fez esse filme que a gente vai ter a alegria de ver hoje. A Zezé Motta gosta de falar que a vida dela é antes e depois de Xica da Silva”.
Renata falou da emoção do relançamento em cópia restaurada: “Sobretudo, eu fiquei muito emocionada quando vi o teste do restauro em 4K, uns quarenta dias atrás, porque pela primeira vez, depois de 50 anos, eu estava revendo Xica da Silva com a mesma sensação que eu tive quando tinha 15 anos. Eu espero que vocês tenham essa mesma alegria de ver esse filmaço do Cacá. Ele está aqui espiritualmente, com certeza, está aqui fisicamente. E tenho certeza que ele está muito feliz com o filme passando aqui”.
E finalizou seu discurso no palco: “Há uma coisa muito engraçada também que ele inventou o Xica com X porque até então era Chica da Silva com CH. E se passa, evidentemente, em Diamantina, mas depois Chica veio para Ouro Preto. Então, a cidade é o segundo passo da história de Chica da Silva. E só temos três pessoas vivas que fizeram o filme: Mair Tavares, que montou; a Zezé Motta; e o Stepan Nercessian, que é o galã. Vocês verão Xica da Silva como Chica da Silva era. E como ela ainda é. Obrigada, Ouro Preto! O cinema é soberania, arte é memória e memória é isso aqui. Boa sessão e bom filme!”.
Carla Domingues, da Vitrine Filmes, também discursou antes da exibição: “Só conseguimos restaurar esse filme graças à Petrobras. Então, obrigada, Petrobras, por permitir levar ao público que já viu e que vai entrar em contato com o filme pela primeira vez. Aproveito para dizer que o filme estreia comercialmente em todos os estados brasileiros no dia 16 de julho. Contamos com vocês para dividir essa experiência com os amigos e levar o público aos cinemas”.
Thiago Veloso Vitral, Renata Almeida Magalhães e Carla Domingues no debate
A sinopse oficial diz: na segunda metade do século XVIII, a negra escravizada Xica da Silva torna-se o centro das atenções no Distrito Diamantino, onde estão as minas mais ricas do país. João Fernandes, representante da Coroa Portuguesa, apaixona-se por Xica e a transforma na Rainha do Diamante, satisfazendo todos os seus desejos extravagantes. Alertado pelos inimigos do casal, o rei de Portugal manda um emissário a fim de impedir que cresça o poder de Xica na colônia.
Além de Zezé Motta e Stepan Nercessian, o elenco de Xica da Silva conta também com: Walmor Chagas, Altair Lima, Elke Maravilha, Rodolfo Arena, José Wilker, Marcus Vinícius, João Felício dos Santos, Dara Kocy, Adalberto Silva, Julio Mackenzie, Beto Leão, Luis Motta, Paulo Padilha, Baby Conceição, Iara Jati, Luis Felipe, Alberto Patu, Derly Barbosa, Paulão e Pompeo.
Com roteiro de Carlos Diegues e Antonio Callado, a produção é de Hélio Ferraz, José Oliosi, Airton Correa e Jarbas Barbosa. A fotografia é assinada por José Medeiros, com montagem de Mair Tavares; Luiz Carlos Ripper assina a direção de arte e o figurino, com caracterização de Carlos Prieto. A música é de Jorge Ben Jor e Roberto Menescal; o som é assinado por Vitor Raposeiro.
Além da exibição em Ouro Preto, o filme, junto com o longa Vento Norte, de Salomão Scliar, também foi tema do debate Encontro de Arquivos: Apresentação de Cases e Restauros, que aconteceu na terça-feira, 30/06, com a presença de Carla Domingues, Débora Butruce, Renata Almeida Magalhães e Daniela Mazzilli, diretora da Cinemateca Capitólio, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. A mediação foi realizada por Thiago Veloso Vitral, coordenador do Museu da Imagem e do Som de Belo Horizonte, Minas Gerais.
*O CINEVITOR está em Ouro Preto e você acompanha a cobertura do evento por aqui, pelo canal do YouTube e pelas redes sociais: Twitter, Facebook e Instagram.
Baby do Brasil na CineOP 2026: documentário destaca trajetória da artista
Depois de ser premiado no É Tudo Verdade, Apopcalipse Segundo Baby, dirigido por Rafael Saar, de Peixe Abissal e Sem Vergonha, segue sua trajetória nos festivais de cinema. O documentário mergulha na vida, na obra e no universo espiritual de Baby do Brasil, uma das figuras mais exuberantes, inventivas e transgressoras da música brasileira.
Produzido pela Dilúvio Produções em parceria com o Canal Brasil, e distribuição da Descoloniza Filmes, o longa reconstrói as memórias da artista por meio de viagens a lugares fundamentais de sua trajetória, como Salvador, Niterói e Santiago de Compostela. Os deslocamentos conduzem Baby por reflexões sobre sua infância, a fuga para a Bahia na adolescência, a vida comunitária ao lado dos Novos Baianos, a carreira solo e sua permanente busca espiritual.
Ícone da contracultura brasileira, Baby relembra a obra e o estilo de vida libertários dos Novos Baianos, grupo que marcou o início de sua trajetória artística, além de revisitar suas inúmeras reinvenções estéticas, musicais e existenciais ao longo das décadas. Muito além de uma biografia convencional, Apopcalipse Segundo Baby explora as múltiplas camadas de uma personalidade em constante transformação.
Sob a direção de Rafael Saar, que já trabalhou com Ney Matogrosso e dirigiu documentários sobre Luhli & Lucina, Maria Alcina e Luís Capucho, o filme também aposta na experimentação formal. A produção teve início em 2008 e, dezoito anos depois, chega ao público como um retrato singular de uma artista que atravessou diferentes momentos da cultura brasileira sem jamais perder sua essência inquieta e visionária.
Apopcalipse Segundo Baby foi exibido na 21ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto no sábado, 27/06, no Cine-Teatro Petrobras no Centro de Artes e Convenções da UFOP, dentro da mostra contemporânea competitiva. A sessão contou com a presença do diretor, da protagonista Baby do Brasil e mais integrantes da equipe: Luciano Caetano, diretor de arte; Isabella Raposo, assistente de direção e diretora de produção; Vinicius Medeiros, responsável pela finalização; e João Gabriel Riveres, que fez a correção de cor.
Equipe do filme no palco da 21ª CineOP
No palco, Rafael Saar discursou: “Estamos felizes e emocionados com essa sessão em Ouro Preto. Queria agradecer imensamente à Baby pela confiança. Passamos dezoito anos fazendo esse filme, filmando, pesquisando. As próprias filmagens viraram material de arquivo em tanto tempo de realização. Então, obrigado, Baby!”.
Sob aplausos do público, Baby falou: “Eu que tenho que agradecer por você não ter alterado nada, não ter colocado nenhum pensamento crítico seu que pudesse confundir a loucura da verdade, a verdade da loucura. Eu fico muito feliz e honrada de saber que você foi realmente aquilo tudo que eu sonhei quando você tinha 24 anos e chegou me propondo esse filme. Eu olhei e pensei: esse cara tem a pureza que eu preciso para me enxergar. Porque para me enxergar, sem ter medo de religiosidade, de lado político, ou seja lá o que for, precisa disso. E, para mim, é importante que me traduza da maneira mais fiel possível. E você conseguiu isso. Glória Deus, aleluia!”.
A cantora continuou seu discurso: “Tem tanto material que você já tem o volume 2, 3, 4 e 5, não é verdade? Eu nunca vi uma pessoa ter tanto conteúdo e cavar tanto. Eu tinha feito filmes que eu nunca tinha visto na minha vida. E eu pensava se conseguiria assistir esses filmes… e ele achou! É um prazer muito grande estar aqui com todos vocês. É uma honra e um privilégio estar viva e ver a minha historia. Porque geralmente é assim: você foi, está no clube da glória e fazem um negócio seu. Apenas a festa começou, ok?”.
Ao final da sessão, logo depois dos créditos, o filme foi ovacionado pelo público. Ao levantar-se da poltrona, Baby agradeceu mais uma vez: “Ele foi mais ousado, né? Tinha acabado de fazer a graduação e pensou: ‘eu vou lá vou perguntar se ela topa’. Então, cara! Vai lá, bicho. Não tem idade. Em quantos anos eu faço 100 anos mesmo? Tá tudo sob controle. Prazer inenarrável estar aqui”.
Cena do documentário na telona
No mesmo dia da exibição, na parte da tarde, foi realizada uma coletiva de imprensa no Centro de Artes e Convenções da UFOP com a presença de Baby do Brasil e Rafael Saar.
No bate-papo, a cantora falou sobre sua paixão pelo cinema brasileiro: “Se a gente não for arrebatado, vamos entrar num lado maravilhoso do cinema, que é um outro tipo de lado criativo que o Brasil vai mostrar. De uma maneira mais querida, não só aquela situação política ou do que já tenha mostrado. Eu acho que a gente tem condições de fazer coisas fantásticas. Eu amo a arte brasileira, gosto de ir ao cinema, gosto de sentar naquela cadeira que deita, que levanta, que tem pipoca. Amo cinema de rua também. Pra mim, esse filme tinha que passar por uma turnê em cinemas de rua. Eu acho isso incrível. Assisti muito em Niterói, sentada no asfalto, com almofada, com todo mundo. Ai, que delícia!”.
E continuou: “Enfim, toda essa história com o cinema é maravilhosa. E o Rafael conseguiu pegar cenas de filmes que eu fiz e que nunca tinha visto. Mas enfim, o cinema é uma paixão também. Estou vivendo um momento muito agradável com o Rafa, participando de todas as as apresentações. Está sendo incrível porque tem também um lado psicanalítico forte ao ver o filme, né? É uma bênção você revisitar seus caminhos e entender se você pode fazer melhor o tempo todo. Você se conhecer vendo o que você fez. É uma delícia”.
A artista também falou da experiência de filmar ao longo de tantos anos: “Temos algo mais que inédito até para nós. Viemos juntos, os momentos acontecendo e não sabíamos que havia um roteiro mais do que Matrix acontecendo no meio de tudo isso. Aconteceu dessa maneira. Eu não sabia o que aconteceria depois de ser lançado. O Rafael escolheu o nome por conta de uma palavra que eu sempre brincava para amaciar o apocalipse. Eu não disse nada. Só fiquei olhando e morrendo de medo do que ia assistir. Mas não queria de jeito nenhum tocar em nada. Eu queria ver como é que ele estava me vendo, né? Porque isso é um privilégio, é um prazer. É perceber como as pessoas te veem; os filhos, o diretor, os amigos. É um desafio, mas é uma delícia. Depois que você tem uma certa experiência da vida, isso se torna prazeroso. E eu tenho um pouco de cuidado. Embora seja um pouco influencer, eu cuido para não influenciar tanto”.
O diretor Rafael Saar no bate-papo com a imprensa
Na conversa com críticos e jornalistas, o diretor Rafael Saar falou de suas escolhas criativas no documentário: “Meu referencial foi dentro da criação artística da Baby. Eu acho que a proposta do filme é essa. Fazer um filme como eu acho que a Baby faria se ela fosse uma cineasta, como ela contaria a própria história. Então, quando a gente criou, tanto os caminhos visuais e sonoros do filme, perseguimos esses caminhos que ela perseguiu na música, que sempre foram tão diversos. Não é um caminho único, mas é tentar ser múltiplo como é a personalidade dela”.
Em certo momento, Baby foi questionada sobre feminismo e refletiu: “Existem coisas na minha vida, na minha história, no meu jeito de cuidar, que foram muito específicas. Quando vem o lado feminista brigando, não me agrada. Eu sou embaixadora de uma ONG chamada Princesa Rivania, aqui em Minas, que cuida de mulheres que sofreram violência. Nesse sentido, nós temos que ser extremamente femininas e ter uma postura que não seja de briga. Eu acho que eu posso e ajudo muito com a minha maneira de ser. Eu fiz oito anos de psicanálise, então, eu tenho toda essa mistura de psicanálise, espiritualidade. É uma loucura! Mas é porque eu gosto dessas coisas. Eu acho que eu contribuo de uma maneira bem assim Woodstock”.
A artista também respondeu sobre racismo: “É tanto ódio, é uma coisa, uma loucura. Onde é que está o fundamento disso tudo? Tudo isso tem um fundamento muito, muito espiritual, mas não vou entrar nessa, tá? Porque isso é uma outra mentoria. Eu me lembro quando eu conheci o Gilberto Gil pela primeira vez. Foi no dia 18 de julho de 1969 e o que me impactou no Gil foi a postura dele diante da confusão que estava ainda sobre os negros. E eu até falo isso no filme: que marca de homem é essa, né? A raça negra me representa”.
Depois da coletiva, o CINEVITOR conversou com exclusividade com Baby do Brasil, que disse: “O Rafael arrasou porque ele teve uma sensibilidade tão sincera e tão sem manipulação, que você consegue ver a Baby da Baby mesmo, sabe? E muitas coisas, vocês não sabem, ficaram de fora. Eu fiquei apaixonada e ao assistir aquilo tudo, eu revisito a minha maneira de pensar, de crer e de acreditar que tudo pode ser. Deus abre porta até onde não tem parede, então vai ter que dar certo. Não tem jeito, vai ter que dar certo. Uma grata satisfação viver esse momento com o cinema que começou antes de eu cantar totalmente. O cinema andou atrás de mim o tempo todo. Eu gosto muito de cinema. Ninguém sabe, mas eu tenho um roteiro que eu tô doida para fazer. E eu gosto de final feliz, tá? Só gosto de final feliz. Final ruim nem me chama que eu não assisto. Eu saio antes, sabe? Porque eu acho que nós estamos em um momento da vida que todos nós temos que acreditar no nosso final feliz. O início pode ser ruim, mas o final tem que ser bom”.
*Clique aqui e assista ao vídeo especial sobre o filme com a entrevista completa com a cantora
*O CINEVITOR está em Ouro Preto e você acompanha a cobertura do evento por aqui, pelo canal do YouTube e pelas redes sociais: Twitter, Facebook e Instagram.
Cena do documentário premiado Universo Circular: Jocy de Oliveira, de Dácio Pinheiro
Foram anunciados neste sábado, 27/06, os vencedores da 18ª edição do In-Edit Brasil, Festival Internacional do Documentário Musical. Entre longas e curtas, nacionais e internacionais, a programação apresentou filmes com personalidades como Dona Onete, Baby do Brasil, Odair José, Fernanda Abreu, Alceu Valença, entre outros.
O longa Universo Circular: Jocy de Oliveira, dirigido por Dácio Pinheiro, foi o grande vencedor deste ano. Pioneira da música eletrônica no Brasil, Jocy de Oliveira construiu uma trajetória única. Em 1961, realizou a primeira performance de música eletrônica no país. Em diálogo com John Cage, Karlheinz Stockhausen, Luciano Berio e Igor Stravinsky, expandiu os limites de sua prática. Ao deixar o piano, migrou para a ópera experimental, explorando a voz feminina como território poético e político. Aos 90 anos, Jocy segue inquieta, refletindo sobre o tempo e a memória.
Segundo o júri, formado pelo jornalista musical, curador e criador do site Trabalho Sujo, Alexandre Matias, pelo cineasta Joel Zito Araújo e pela produtora executiva e sócia da Casa de Cinema de Porto Alegre, Nora Goulart, o filme presta uma homenagem à altura da grandeza da pioneira compositora de música erudita e eletrônica brasileira: “A obra evidencia a amplitude de sua influência sobre a música popular, a ópera e a performance desde meados do século XX e, por meio de uma narrativa não linear, conduz o espectador por imagens marcantes e episódios que dialogam com os conceitos presentes em sua criação artística, incluindo suas conexões com mestres como Stravinsky e John Cage”.
A Menção Honrosa foi para Vivo 76, de Lírio Ferreira, que revisita um momento decisivo da trajetória de Alceu Valença ao retratar o período de gravação de seu segundo álbum. Já o Destaque Especial foi concedido ao longa Entre o Sucesso e a Lama, de Cristiano Burlan. Ambientado no Teatro de Contêiner, na região central de São Paulo, o filme acompanha um projeto musical desenvolvido com a mentoria de artistas como Gaspar, Z’África Brasil, Edi Rock e Racionais MC’s.
O filme vencedor, Universo Circular: Jocy de Oliveira, terá uma sessão especial no dia 28/06, domingo, às 20h, na Cinemateca Brasileira, e também participará da edição de 2026 do In-Edit Barcelona, com a presença do diretor Dácio Pinheiro.
Conheça os vencedores do 18º In-Edit Brasil:
MELHOR FILME Universo Circular: Jocy de Oliveira, de Dácio Pinheiro (SP)
MENÇÃO HONROSA Vivo 76, de Lírio Ferreira (PE)
DESTAQUE ESPECIAL Entre o Sucesso e a Lama, de Cristiano Burlan (SP)
Helena Solberg em Ouro Preto: homenageada na 21ª CineOP
A trajetória da cineasta Helena Solberg, uma das pioneiras incontestáveis da história do cinema brasileiro, foi celebrada na abertura da 21ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, nesta quinta-feira, 25/06, na cidade mineira que é Patrimônio Histórico da Humanidade.
Primeira mulher a integrar o movimento Cinema Novo, Solberg construiu uma carreira marcada por documentários que abordam questões sociais, políticas e femininas, tornando-se uma das principais referências do audiovisual latino-americano.
A homenagem aconteceu durante a cerimônia de abertura, no Cine-Praça, quando ela recebeu o Troféu Vila Rica, seguida da exibição dos curtas A Entrevista (1966) e Meio-Dia (1970), obras fundamentais de sua filmografia. Ao longo da Mostra, o público também acompanhará outros filmes da diretora, como Carmen Miranda: Banana is my Business, que participará de encontros dedicados à sua produção e contribuição para o cinema brasileiro.
No palco da CineOP, Helena Solberg foi ovacionada pelo público e recebeu tal honraria das mãos das cineastas Tata Amaral e Lúcia Murat: “É um privilégio incrível estar recebendo essa homenagem e esse troféu nessa cidade maravilhosa. Eu agradeço imensamente ao festival, Raquel [Hallak, coordenadora geral] e Quintino [Vargas Neto, coordenador técnico] pela oportunidade de estar novamente com vocês. Eu estive aqui em 2014 e 2018″.
Em seu discurso, relembrou sua passagem por Minas Gerais quando rodou um longa na região: “Eu filmei em Minas, em Diamantina, um filme chamado Vida de Menina [protagonizado por Ludmila Dayer]. Era sobre uma menina chamada Helena Morley, que escreveu um diário maravilhoso dos 13 aos 15 anos e que me encantou. É uma menina transgressora, julgava tudo em volta dela e foi uma experiência muito boa. A população participou muito do filme. Foi uma experiência muito forte. Nós ficamos dois meses em Diamantina. Então, é bom estar de volta!”.
Tata Amaral, Helena Solberg e Lúcia Murat no palco da CineOP
Solberg também falou dos dois curtas que foram exibidos depois da homenagem: “Esses filmes foram realizados há 60 anos, no início da minha carreira. São filmes feitos no início da ditadura militar. O meu primeiro filme, A Entrevista, é uma revisão da minha formação burguesa e seus valores. E Meio-Dia, que foi feito em 1966, é uma metáfora sobre a censura e a repressão. Eu gosto de chamar esse filme de experimental anarquista. Naquela época, a censura nos obrigava a sermos muito criativos. E acho que, enfim, é um filme com um pé na turbulência dos momentos que estávamos vivendo. Muitos anos se passaram, muitos outros filmes vieram e eu sou uma outra pessoa hoje. Vamos aos filmes e obrigada mais uma vez. Nos vemos por aí!”.
Ainda na cerimônia de abertura, em tributo à presença feminina na história do cinema brasileiro, a CineOP celebrou também gerações de realizadoras desde o cinema silencioso, citando nomes como Cleo de Verberena, Carmen Santos, Gilda de Abreu, Suzana Amaral, Tata Amaral, Anna Muylaert, Sueli Maxakali, entre muitas outras.
Raquel Hallak, coordenadora geral da Mostra e CEO da Universo Produção, também discursou: “Quando uma imagem some, não é apenas um arquivo que desaparece. É uma memória que se apaga. É uma possibilidade de reconhecimento que se interrompe. É o próprio país que se torna menos visível para si mesmo. Preservar é um gesto político, lembrar é um ato de resistência e projetar imagens é também projetar futuros”.
No dia seguinte à homenagem, Helena Solberg participou de uma coletiva de imprensa no Centro de Artes e Convenções da UFOP, que foi mediada por Mariana Tavares, professora e pesquisadora de cinema.
Helena Solberg dirigiu o primeiro filme feminista da produção moderna no país
No bate-papo com jornalistas e críticos, relembrou sua participação no Cinema Novo, movimento cinematográfico brasileiro das décadas de 1960 e 1970: “Eu fazia parte da geração do Cinema Novo. Mas os rapazes estavam na deles e eu estava na minha. Também não fiz nenhuma força para pertencer. Não tava a fim. Eu estava interessada nas minhas questões. Eu acho que o Cinema Novo tem uma característica muito forte dessa coisa do outro, do explorado. Eu estava querendo descobrir quais eram as forças que atuavam na minha educação, na minha formação e não na formação do outro. Eu acho que isso é interessante”.
Solberg também falou dos colegas de ofício: “Eu me dei muito bem com todos eles. Mário Carneiro, por exemplo, era meu irmão. Glauber Rocha era uma pessoa diferente, né? Maravilhoso… Joaquim Pedro de Andrade também. Era uma geração que se encontrava muito mais. Havia muito mais relação pessoal do que hoje. Eu não sei se hoje, por causa da questão digital, as pessoas ficam mais afastadas. Naquela época havia um contato físico muito maior entre nós”.
E continuou: “Eu fui trabalhar como jornalista no Jornal Metropolitano e o Cacá Diegues era o diretor. Tinha também o Arnaldo Jabor, que eu conheci quando entrei na PUC. O Luiz Buarque de Hollanda também. Toda uma geração em que éramos muito próximos e achávamos que mudaríamos o mundo. Havia muita esperança nessa época do Juscelino [Kubitschek], da construção de Brasília. Havia uma esperança no ar antes do golpe”.
Depois da coletiva de imprensa, Helena Solberg falou, com exclusividade, para o CINEVITOR sobre a homenagem que consagrou sua carreira: “É sempre emocionante porque, de certa forma, é confortante ter um certo reconhecimento. Porque vida de artista não é fácil, entendeu? Mas nesses momentos, vale a pena. Não é só uma homenagem que eu estou recebendo. Eu estou me encontrando com outras pessoas. Esse encontro de saber que você não está só, que existe uma comunidade. Eu não sei explicar, mas é um encontro que é muito reconfortante”.
*Clique aqui e assista ao vídeo especial com a cineasta homenageada
*O CINEVITOR está em Ouro Preto e você acompanha a cobertura do evento por aqui, pelo canal do YouTube e pelas redes sociais: Twitter, Facebook e Instagram.