
Foram anunciados neste sábado, 18/04, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, os vencedores da 31ª edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, principal evento dedicado ao audiovisual não ficcional na América Latina, fundado e dirigido por Amir Labaki.
Neste ano, Sagrado, dirigido por Alice Riff, que mergulha na rotina de professores e funcionários de uma escola pública em Diadema, na Grande São Paulo, foi eleito o vencedor da Competição Brasileira de longas ou médias-metragens e recebeu como prêmio R$ 20.000,00 e o Troféu É Tudo Verdade, criado por Carlito Carvalhosa. A justificativa do júri, formado por Carol Benjamin, Eryk Rocha e Helena Tassara, diz: “Por afirmar, com rara precisão, um cinema em que a política se inscreve na forma, no gesto e nas relações do cotidiano. Sem recorrer a artifícios, o filme sustenta, do título ao último plano, uma direção segura, rigorosa e profundamente consciente de seus meios. Ao escolher uma estratégia narrativa fundada na escuta, na observação e no respeito radical aos seus personagens, constrói uma experiência em que o invisível se torna presença sensível. A partir de um material de arquivo que prescinde de explicação, o filme se organiza em espiral até alcançar um plano-sequência final de grande potência, conduzido pelas vozes das crianças. Nesse gesto, simples apenas na aparência, o filme se afirma como uma obra de rara integridade, em que elaboração estética e potência política são indissociáveis. E afirma, com delicadeza e rigor, um cinema onde invenção, poesia e luta se tornam indissociáveis”.
Apopcalipse Segundo Baby, o retrato de Baby do Brasil dirigido por Rafael Saar, recebeu uma Menção Honrosa na mesma categoria: “Por articular, de forma visceral e autêntica, a personalidade da protagonista e sua persona performática, incorporando à própria forma do filme sua força, energia e pulsação. Ao evocar a memória da música popular brasileira, o filme constrói um retrato fiel e vibrante, que preserva a originalidade da personagem e revela um trabalho rigoroso de pesquisa e elaboração. No uso dos materiais de arquivo, evidencia-se o rigor, o cuidado e o profundo respeito do realizador”, diz a justificativa do júri.
O filme pernambucano Os Arcos Dourados de Olinda, dirigido por Douglas Henrique, sobre o embate em torno da instalação de uma unidade da rede McDonald’s, foi escolhido o melhor curta-metragem brasileiro, com um prêmio de R$ 6.000. A justificativa do júri diz: “Pela irreverência e pelo humor na construção de uma narrativa lúdica que surpreende ao reinventar o uso do material de arquivo. Ao transfigurá-lo com liberdade e invenção, o filme constrói uma crítica ao imperialismo ao mesmo tempo afiada e desarmada, que assume sem receio o popular, o clichê e as contradições da própria identidade”. O filme ainda foi consagrado com outros três prêmios, entre eles, o Prêmio Canal Brasil de Curtas no valor de 15 mil reais.
Ainda nessa categoria, o júri concedeu Menção Honrosa a dois filmes: Filme-Copacabana, de Sofia Leão, “pela ousadia da proposta e pelo uso inventivo do som como eixo de montagem, articulando afetos e corpos na construção de um retrato sensível de um território múltiplo”; e Divino: Sua Alma, Sua Lente, dirigido por Clea Torres e Gilson Costta, “pela força singular de Divino em cena e pela maneira como transforma o gesto de filmar em um ato de memória e permanência. Ao incorporar o próprio processo à narrativa, o filme revela uma reflexão viva sobre imagem, tempo e continuidade”.
Em um comunicado oficial, o júri escreveu um texto ao revelar os premiados: “O júri brasileiro destaca a força e a vitalidade dos filmes em competição na seleção de 2026, tanto nos longas quanto nos curtas. O conjunto das obras desenha um panorama pulsante do documentário brasileiro contemporâneo, em que formas e narrativas se reinventam com rigor, liberdade e risco. São filmes atravessados por gestos autorais contundentes, que afirmam, na pluralidade de perspectivas, a potência criadora de um cinema em permanente transformação. Desse campo de tensões emerge um cinema múltiplo, indisciplinado e profundamente comprometido com seu tempo”.
Os Arcos Dourados de Olinda, de Douglas Henrique: destaque na premiação
O grande vencedor da Competição Internacional de longas ou médias-metragens foi Um Filme de Medo (Espanha/Portugal), do diretor brasileiro sediado na Espanha Sergio Oksman, que se hospedou com o filho de doze anos em um hotel em Lisboa parecido com aquele abandonado do clássico O Iluminado, de Stanley Kubrick; o título recebe um prêmio de R$ 12.000. A justificativa do júri diz: “Em um filme de terror, não há monstros, apenas a distância entre dois mundos, pai e filho. O pai tem medo de herdar os fantasmas do passado, e o filho caminha leve, quase sem sombra”.
As articulações entre família e política propostas pela estreante Jihan em Meu Pai e Gaddafi receberam do júri uma Menção Honrosa: “A partir da busca da filha por seu pai, somos conduzidos a conhecer as tramas de poder em um país atravessado pelo conflito”. Entre os curtas internacionais, o premiado foi Sonhos de Apagão, de Gabriele Licchelli, Francesco Lorusso e Andrea Settembrini, sobre os blecautes em Cuba; o filme recebeu ainda R$ 6.000. A justificativa do júri diz: “Uma sociedade agredida através do tempo e como viver com infindáveis boicotes. A ausência de energia elétrica na ilha se transforma em um recurso expressivo e cinematográfico”.
Na mesma categoria, o júri concedeu Menção Honrosa ao francês Se Não Gosta, Não Olhe, da diretora estreante Margaux Fournier: “Na areia, sob o céu aberto, mulheres aposentadas e irreverentes se encontram com frequência, transbordando amor pela vida. Falam sem filtro – sinceras, diretas, vivas. Um cinema da intimidade onde o corpo é político”, disse a justificativa. O júri da Competição Internacional deste ano foi composto pela produtora, realizadora e diretora de fotografia Heloisa Passos, pelo documentarista e produtor Ricardo Casas e pela cineasta Vivian Ostrovsky, homenageada pela retrospectiva desta edição do festival.
O É Tudo Verdade 2026 apresentou 75 filmes, de 25 países, exibidos em sessões gratuitas em quatro salas em São Paulo e em três salas no Rio de Janeiro. Uma programação exclusiva em streaming no Itaú Cultural Play exibirá, entre 20 de abril e 5 de maio, dez destaques entre os curtas-metragens desta 31ª edição.
Reconhecido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos como um festival classificatório para o Oscar, o É Tudo Verdade qualifica automaticamente as produções vencedoras nas competições brasileira e internacional de longas ou médias-metragens e de curtas-metragens para inscrição direta visando a disputa pela estatueta dourada.
Na cerimônia, também foram anunciados alguns prêmios paralelos, entre eles, o Prêmio Mistika, de R$ 15.000 em serviços de pós-produção de imagem ou som, com validade de um ano, para o melhor documentário da Competição Brasileira de curtas-metragens. Destaque também para o Prêmio Maria Rita Galvão (ABPA, Associação Brasileira de Preservação Audiovisual; PAVIC, Pesquisadores de Audiovisual Iconografia e Conteúdo; e REPIA, Rede de Pesquisa de Imagens de Arquivo) para a melhor pesquisa da Competição Brasileira; o escolhido foi Apopcalipse Segundo Baby, com direção e pesquisa de Rafael Saar, que recebe R$ 6.000 (PAVIC/Abrolhos Filmes) e gravação em LTO (ABPA/REPIA/Museu da Pessoa).
Conheça os vencedores do É Tudo Verdade 2026:
COMPETIÇÃO BRASILEIRA | JÚRI OFICIAL
MELHOR DOCUMENTÁRIO | LONGA OU MÉDIA-METRAGEM
Sagrado, de Alice Riff
MENÇÃO HONROSA
Apopcalipse Segundo Baby, de Rafael Saar
MELHOR DOCUMENTÁRIO | CURTA-METRAGEM
Os Arcos Dourados de Olinda, de Douglas Henrique
MENÇÃO HONROSA
Divino: Sua Alma, Sua Lente, de Clea Torres e Gilson Costta
Filme-Copacabana, de Sofia Leão
COMPETIÇÃO INTERNACIONAL | JÚRI OFICIAL
MELHOR DOCUMENTÁRIO | LONGA OU MÉDIA-METRAGEM
Um Filme de Medo (Una Película de Miedo), de Sergio Oksman (Espanha/Portugal)
MENÇÃO HONROSA
Meu Pai e Gaddafi (بابا والقذافي), de Jihan (EUA/Líbia)
MELHOR DOCUMENTÁRIO | CURTA-METRAGEM
Sonhos de Apagão (Sueña Ahora), de Gabriele Licchelli, Francesco Lorusso e Andrea Settembrini (Cuba/Itália)
MENÇÃO HONROSA
Se Não Gosta, Não Olhe (Au Bain des Dames), de Margaux Fournier (França)
PREMIAÇÕES PARALELAS
PRÊMIO CANAL BRASIL DE CURTAS
Os Arcos Dourados de Olinda, de Douglas Henrique
PRÊMIO EDT (Associação de Profissionais de Edição Audiovisual)
Melhor Montagem | Longa: Apopcalipse Segundo Baby, por Claudio Tammela e Rafael Saar (assistência de montagem: Mayara Proença e Vinícius Medeiros)
Melhor Montagem | Curta: Os Arcos Dourados de Olinda, por Douglas Henrique
PRÊMIO MARIA RITA GALVÃO | ABPA | PAVIC | REPIA
Melhor Pesquisa: Apopcalipse Segundo Baby, com direção e pesquisa de Rafael Saar
PRÊMIO APACI (Associação Paulista de Cineastas)
Melhor Direção | Longas: Alice Riff, por Sagrado
Melhor Direção | Curtas: Douglas Henrique, por Os Arcos Dourados de Olinda
Fotos: Marcos Finotti.