
Depois de receber o Prêmio Especial do Júri na 79ª edição do Festival de Locarno e ser consagrado no Festival do Rio deste ano com cinco prêmios, entre eles, melhor filme de ficção pelo Júri Oficial, A Margem do Rio, longa pernambucano dirigido por Enock Carvalho e Matheus Farias, foi exibido na 50ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo nesta sexta-feira, 23/10, no Cinesystem Belas Artes Frei Caneca.
Rodado no Recife e estrelado por Caique Copque, premiado recentemente como melhor ator no Cine PE por Mapas, e Ítalo Martins, de O Agente Secreto e Guerreiros do Sol, também premiado no Cine PE como melhor ator coadjuvante por Resta Um, o filme marca a estreia dos diretores em um longa-metragem após uma sequência de celebrados curtas-metragens, incluindo o premiado Inabitável, exibido em diversos festivais.
Em A Margem do Rio, Izaquiel (Caique Copque) trabalha como auxiliar de serviços gerais no Recife, cidade entrecortada por rios e manguezais. À noite, ele se aventura perigosamente em busca de encontros secretos no mangue. Seu mundo vira de cabeça para baixo quando ele cruza o caminho de Jeremias (Ítalo Martins), um pescador intrigante e magnético. À medida que uma ameaça externa invade o lugar trazendo violência, Jeremias conduz Izaquiel numa jornada rumo às profundezas do coração do manguezal.
Além de Caique e Ítalo, o longa também traz em seu elenco Robério Diógenes, Carlos Francisco, Isis Broken, Renna Costa, Enio Cavalcanti, Artia Lauandah, Albert Tenório, Ana Luiza Rios, Andrea Rosa, Bruno Goya, Igor de Araújo, Mariza Moreira, Matheus Neves, Mauricéa Conceição, Merry Batista, Naywá Moura, Raphael Bernardo e Rubens Santos.
Os diretores Matheus Farias e Enock Carvalho
Para apresentar o filme na Mostra de São Paulo, os diretores marcaram presença na primeira sessão ao lado de diversos integrantes da equipe: “Esse é um filme que demorou vários anos para ser feito e ficar pronto. Ele foi sonhado por essas pessoas que estão aqui comigo e com Matheus e com uma equipe de mais de duzentas pessoas. Fazer cinema é sobre sonhar. A gente sonha novos mundos e novas histórias e acho que estamos vivendo um momento no Brasil em que sonhar é algo muito importante”, disse Enock Carvalho antes da exibição.
Matheus Farias completou: “Eu estou muito feliz de ver vocês aqui porque hoje a gente tinha uma concorrência enorme: o debate mais importante da história do Brasil está acontecendo agora [o debate da Rede Globo entre os candidatos à Presidência da República, com Lula e Flávio Bolsonaro, estava sendo exibido nesta noite]. Mas, fico muito feliz que vocês também decidiram estar em outro debate aqui assistindo a um filme brasileiro, um filme de Recife, de Pernambuco, do Nordeste do Brasil e que fala muito sobre esse momento. Então, tô muito ansioso para ver vocês reagindo ao filme e saber o que estão pensando”.
Além do Troféu Redentor de melhor filme de ficção pelo Júri Oficial do Festival do Rio, A Margem do Rio também foi consagrado nas categorias de melhor atriz coadjuvante para Renna Costa, Artia e Isis Broken, melhor fotografia para Luciana Baseggio e melhor som para Moabe Filho, Guma Farias, Daniel Turini e João Victor Coura; e também recebeu o Prêmio Felix de melhor filme brasileiro.
Depois da primeira exibição na 50ª Mostra de São Paulo, os diretores e integrantes do elenco participaram de um bate-papo com o público. Na ocasião, o protagonista Caique Copque falou da importância do longa em sua vida: “Quando eu recebi a boa notícia que estaria no filme, depois dos testes, foi uma grande maravilha. Como artista e como ator, que demanda tempo de vida para se dedicar à arte integralmente, é sempre uma grande bênção quando isso acontece. Dentro do processo foi muito rico e eu me sinto, de fato, transformado. Esse personagem me emprestou muita coragem para viver. Muita coragem para querer gozar, querer transar, fazer mais amizades e viver sem medo”.
Os atores Caique Copque e Ítalo Martins na Mostra de São Paulo
O ator Ítalo Martins também falou da sua experiência em A Margem do Rio: “É um filme que eu não me canso de assistir. É um filme muito especial… por esse elenco. Eu tenho muito orgulho desse filme! Por esse elenco, pelas meninas, por ter o Robério [Diógenes] mais uma vez na minha vida, por ter tanta gente massa trabalhando nesse filme, tanta gente que se dedicou muito. Esse filme chegou pra mim e eu não sabia, como eu nunca sei, no que vai dar… não tem como saber. Mas, eu lembro sempre das vozes dos meninos, Matheus e Enock, me falando para confiar neles”.
Renna Costa, premiada como melhor atriz coadjuvante no Festival do Rio, ao lado de Artia e Isis Broken, destacou o entrosamento do elenco: “Quando o Caique chegou na sala de ensaio do nosso núcleo, ele já tinha passado por todos os outros núcleos. E pra ele acho que foi um alívio porque era tudo muito pesado e tenso. E, realmente, esse núcleo que a gente construiu da família de Izaquiel foi muito leve. Pra mim, como atriz e travesti, estar em um trabalho assim que, embora atravesse várias questões de violência e vulnerabilidade, também foi muito gostoso de fazer e acolhedor”.
Ao final do debate com o público, o ator cearense Robério Diógenes comentou: “Eu estava fazendo O Agente Secreto e Matheus e Enock estavam nos bastidores fazendo o making of. Todo set eles estavam acompanhando. Além disso, Matheus é um dos montadores de O Agente Secreto, então ele ficou me vendo por oito meses na montagem e achou que eu tinha o perfil para fazer esse primeiro longo deles. Eu fiquei muito feliz porque exatamente um ano depois eu voltei para Recife, exatamente no mesmo período de O Agente Secreto, para rodar o filme. Morei mais dois meses no Recife e metade da equipe também passou pelo O Agente Secreto”.
A Margem do Rio é uma coprodução entre Gatopardo Filmes, Moçambique Audiovisual e Vitrine Filmes, em parceria com a Tama Filmproduktion (Alemanha). O filme foi realizado com recursos da Ancine e do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), por meio do BRDE, e do Funcultura, contando ainda com o apoio do Projeto Paradiso, do World Cinema Fund e do Hubert Bals Fund. A distribuição no Brasil é da Vitrine Filmes.
A equipe do longa pernambucano conta com: Luciana Baseggio na direção de fotografia e Maíra Mesquita na direção de arte; Gabriella Marra e Maria Eugênia Cox assinam o figurino. A caracterização é de Patricia Martinelli e o som direto de Moabe Filho e Guma Farias. O elenco é assinado por Maria Clara Escobar com preparação de Nash Laila; a montagem é de Matheus Farias com Will Domingos. A música original é assinada por IDLIBRA, o desenho de som é de Daniel Turini, que também faz a mixagem, com João Victor Coura; Samanta do Amaral é a colorista. A direção de produção é de Mariana Jacob, com coprodução de Flavia Oertwig, Silvia Cruz e Letícia Friedrich; Breno Baptista assina como primeiro assistente de direção. As filmagens ocorreram entre julho e setembro de 2025 no Recife.
Ainda na 50ª edição da Mostra de São Paulo, A Margem do Rio terá outra exibição neste sábado, 24/10, às 20h30, no Reserva Cultural.
Fotos: Gabriela de Aguiar.