
Depois de disputar o Leão de Ouro no Festival de Veneza deste ano, Retorno a Buenos Aires (Ritorno a Buenos Aires), coprodução entre Itália e Brasil, dirigida por Marco Bechis, que também assina o roteiro ao lado de Vijaya Bechis Boll, fez sua estreia brasileira na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Estrelado pelo italiano Adriano Giannini, o filme reúne ainda os brasileiros Paula Cohen e Eduardo Hoy em papéis de destaque, além das atrizes argentinas Ana Celentano, Vero Gerez e Olivia Nuss. O longa acompanha o médico italiano Mariano Guerra, que após 33 anos é chamado para retornar ao tribunal argentino para depor no julgamento dos ex-militares que o sequestraram e o torturaram durante a ditadura militar. Na obra, Paula Cohen interpreta a juíza Desideria Losada, enquanto Eduardo Hoy dá vida à versão jovem do protagonista Mariano Guerra.
No filme, Mariano Guerra é chamado a retornar à Argentina para testemunhar no julgamento dos militares que o sequestraram e torturaram durante a ditadura militar; a mesma que, em 1978, organizou a Copa do Mundo de Futebol enquanto o país vivia sob uma repressão clandestina. A história dialoga diretamente com a trajetória do próprio diretor, preso político durante a ditadura argentina, experiência que marca sua filmografia e confere ao longa um caráter testemunhal. O encerramento das filmagens coincidiu simbolicamente com os 50 anos do início da ditadura na Argentina, em março de 1976, reforçando a atualidade da reflexão proposta pelo filme sobre memória, justiça e sobrevivência
Com três meses de pré-produção e quatro semanas de filmagens no Brasil, realizadas em Porto Alegre, e mais três semanas em Turim, no norte da Itália, o projeto também consolida a atuação internacional da produtora brasiliense 34 Filmes e a parceria com André Ristum, que já colaborou em diversos projetos anteriores. O filme teve participação destacada de técnicos brasileiros, entre os quais: a direção de arte de Eduardo Antunes; a produção de elenco de Alessandra Tosi; o figurino de Coca Serpa; a produção executiva de André Ristum e Patrick de Jongh; e o line producer Beto Rodrigues. A coprodução entre Brasil e Itália reúne a 34 Filmes e as italianas Fandango, 39Films, Karta Film e Rai Cinema.
Paula Cohen: atriz brasileira no elenco de Retorno a Buenos Aires
Liderada por Patrick de Jongh, a 34 Filmes, que tem sede em Brasília, financiou o filme através do FSA, Fundo Setorial do Audiovisual, com recursos geridos pelo BRDE, por meio do edital de coprodução internacional de 2024. A coprodução é resultado de uma parceria frutífera, que já conta com vários projetos realizados, entre a Sombumbo, de André Ristum, e a 34 Filmes. A parceria brasileira conta também com a Neocórtex, de Cibele Amaral.
No Festival de Veneza, Retorno a Buenos Aires se destacou no Award Francesco Pasinetti, realizado pelo Sindacato Nazionale Giornalisti Cinematografici Italiani, e levou os prêmios de melhor filme e melhor ator para Adriano Giannini segundo os jornalistas italianos.
Na 50ª edição da Mostra de São Paulo, o filme teve sua primeira exibição na quinta-feira, 22/10, no Cultura Artística com a presença do diretor Marco Bechis e diversos integrantes da equipe. Além disso, na ocasião, o cineasta foi homenageado com o Prêmio Humanidade, entregue por Renata de Almeida, diretora da Mostra. A potente filmografia do realizador Marco Bechis constrói um cinema político muito particular, que mistura vivências pessoais, testemunhos, contextos históricos e registros documentais.
Criado entre São Paulo e Buenos Aires, Bechis viveu diretamente a violência da ditadura argentina. Em 1977, foi preso pelo regime e posteriormente deportado, seguindo para Milão. A experiência marcou sua trajetória artística. Em 1982, realizou a videoinstalação Desaparecidos, Dove Sono?, trabalho que mais tarde serviria de base para Garage Olimpo (1999), filme sobre uma jovem ativista sequestrada e torturada durante a ditadura.
Equipe de Retorno a Buenos Aires na Mostra SP
A relação do cineasta com o Brasil e com a própria Mostra atravessa sua carreira. Garage Olimpo já integrou a programação do evento, assim como Filhos e O Sorriso do Líder. Em 2008, Terra Vermelha, que acompanha indígenas brasileiros na luta pela retomada de seu território, abriu a 32ª Mostra. Bechis também foi um dos realizadores convidados para Mundo Invisível (2012), longa coletivo idealizado e produzido pela Mostra e filmado em São Paulo, e que também faz parte da programação desta 50ª edição.
No palco do Cultura Artística, Marco Bechis agradeceu: “Essa homenagem é também pela linguagem que eu tentei experimentar fazendo esses filmes. Um filme político não é um filme que fala da política. Mas, é um filme que fala politicamente com seus espectadores. Muito obrigado!”.
Na sequência, a equipe subiu ao palco para apresentar Retorno a Buenos Aires, que será distribuído no Brasil pela Paris Filmes; o produtor brasileiro André Ristum discursou: “Obrigado, Mostra, pela oportunidade de estrear o filme no Brasil nesse espaço tão privilegiado. É um filme sobre memórias, sobre dor, passado. Mas, é um filme que nos ajuda a pensar o futuro através desse olhar sobre o passado. Um filme que chega em um momento muito importante, em que não podemos esquecer dos mais de 700 mil mortos… a gente não pode esquecer dos mais de 300 mil trabalhadores do audiovisual desempregados durante anos, da perseguição de um governo ditatorial. Então, dia 25 não vamos esquecer. Vamos todos votar!”.
Ainda na programação da 50ª Mostra de São Paulo, Retorno a Buenos Aires terá mais três exibições: dia 24/10, às 16h30, no Espaço Petrobras de Cinema; dia 25/10, às 19h, no Solar Fábio Prado; e no dia 28/10, às 18h30, no Cinesystem Frei Caneca.
Para falar mais sobre Retorno a Buenos Aires, conversamos com a atriz brasileira Paula Cohen e com o diretor Marco Bechis.
Aperte o play e confira:
Fotos: Mario Miranda Filho/Agência Foto/Luiz Rodrigues.