
Depois de anunciar a seleção de longas, a 79ª edição do Festival de Cannes, que acontecerá entre os dias 12 e 23 de maio, revelou os curtas-metragens selecionados para a Competição Oficial e também para a mostra La Cinef, criada para inspirar e apoiar a próxima geração de cineastas.
Neste ano, o comitê de seleção assistiu 3.184 curtas, de 136 países; dez foram escolhidos. Os filmes disputam a Palma de Ouro, que será entregue pelo Júri Oficial, que também será responsável pelos prêmios da mostra La Cinef.
Para a 29ª edição da La Cinef, 19 filmes foram selecionados entre os 2.750 inscritos por escolas e universidades de cinema do mundo todo. Criada em 1998 por Gilles Jacob e dedicada à busca de novos talentos, a La Cinef, chamada anteriormente de Cinéfondation, proporciona uma oportunidade para que jovens realizadores vejam os melhores filmes do ano exibidos no festival e absorvam a atmosfera inspiradora na companhia de realizadores de renome.
Neste ano, o cineasta paulistano Lucas Acher marca presença na mostra La Cinef com o curta-metragem Laser-Gato, que aparece como uma produção norte-americana pela New York University. A presença na seleção coloca Acher entre uma nova geração de cineastas acompanhados de perto pela indústria internacional. Mais do que uma vitrine, a La Cinef historicamente funciona como um espaço de descoberta de autores que, nos anos seguintes, passam a ocupar o circuito global: “É estranho porque é um filme muito íntimo, feito sob constante dúvida, e de repente ele está nesse lugar gigante. Cannes sempre foi uma coisa distante, quase abstrata. Quando acontece, parece um pouco irreal”, disse o diretor brasileiro.
Laser-Gato se constrói a partir de uma deriva noturna por São Paulo, acompanhando um adolescente que se vê obrigado a atravessar os bairros do centro em uma sucessão de encontros que alteram (e ampliam) irreversivelmente sua compreensão sobre a cidade. A narrativa evita progressões clássicas e aposta em uma estrutura fragmentada, em que o percurso importa mais do que qualquer resolução. Mesmo assim, a urgência e ironia do conflito principal carregam a tensão necessária para enquadrar o filme como um suspense cômico (ou uma comédia tensa, dependendo da perspectiva).
Produzido pela Balcão Filmes e Bruto Films, o elenco conta com Gabriel Brennecke, Gilda Nomacce, Renan Vilela, Fabi Pifer, Matheus Prestes, Helena Santana, Paula Mares Ruy, Adelino Costa, Jacqueline Rocha, Bárbaro Xavier, Rafael Furtado, Bruno Bianco e Mattias Erìsson.
Filmado em São Paulo, com orçamento enxuto, o curta aposta em soluções formais precisas, em que limitações de produção se convertem em escolhas estéticas. O uso de locações reais, a valorização do tempo morto e a construção de cenas abertas contribuem para um cinema que privilegia a experiência sobre a explicação. A seleção em Cannes marca, segundo o próprio diretor, um ponto de inflexão: “Espero que seja um momento de transição, em que começo a estruturar projetos de maior escala”.
Com trânsito entre Brasil e Estados Unidos, onde se formou, Acher passa a desenvolver projetos com coprodução internacional, sem abandonar São Paulo como palco de seus filmes. Seus próximos trabalhos devem continuar ancorados em São Paulo, mas com perspectiva de circulação global: “São Paulo é onde cresci e até hoje carrega muitos mistérios pra mim. É uma cidade magnética. Meio distópica, cheia de contradições. Não é um lugar fácil de explicar pra quem não conhece. A perspectiva de mostrar para o mundo que todos os tipos de história podem se passar aqui é animadora. Mas meu foco principal é poder mostrar isso para o público brasileiro. Trazer para as telas uma identificação regional e a vontade de fantasiar. Proporcionar ao espectador brasileiro a possibilidade de ver o bairro onde mora como palco de um suspense, terror ou comédia, de imaginar situações inusitadas em uma rua qualquer que vê todos os dias no seu cotidiano. Poder fazer longas-metragens com esse recorte me anima muito”.
Conheça os curtas-metragens selecionados para o Festival de Cannes 2026:
CURTAS-METRAGENS | COMPETIÇÃO
Algumas coisas que acontecem ao lado de um rio, de Daniel Soares (Portugal)
Dernier printemps, de Mathilde Bédouet (França)
Giấc mơ là ốc sên, de Thien An Nguyen (Vietnã)
La Fin, de Niki Lindroth Von Bahr (França/Suécia/Dinamarca)
Le Bain des sirènes, de Lola Degove (França)
Niko ništa nije rekao, de Tamara Todorović (Sérvia/França/Eslovênia/Croácia)
Nouvel Hair, de Hadrien Bels (França)
Para los contrincantes, de Federico Luis (Argentina)
Peloton tonnerre, de Theo Montoya (Colômbia)
Spiritus Sanctus, de Michal Toczek (Polônia)
LA CINEF
Aldrig nok, de Julius Lagoutte Larsen (França) (La Fémis)
Always Wanted to be God, Never Wanted to do Good, de Noa Epars e Marvin Merkel (Suíça) (HEAD)
Bird Rhapsody, de Wonjung Choi (Coreia do Sul) (Hongik University)
Growing Stones, Flying Papers, de Roozbeh Gezerseh e Soraya Shamsi (Alemanha) (Filmuniversität Babelsberg Konrad Wolf)
Laser-Gato, de Lucas Acher (EUA) (NYU)
Left Behind, Still Standing, de Vida Skerk (Reino Unido) (NFTS)
Onde Nascem os Pirilampos, de Clara Vieira (Portugal) (ESTC)
Photograph of an Insane Woman to Show the Condition of Her Hair, de Arwen Aznag (Bélgica) (LUCA School of Arts Brussels)
Pickled, de Fanny Capu (Reino Unido) (NFTS)
Preko Praga, de Tara Gajović (Sérvia) (FDU)
Shadows of the Moonless Nights, de Mehar Malhotra (Índia) (FTII)
Silent Voices, de Nadine Misong Jin (EUA) (Columbia University)
Somewhere I Belong, de Youssef Handouse (Tunísia) (ISAMM)
Sunday’s Children, de Reuben Hamlyn (EUA) (NYU)
Tian tian de mi mi, de Lenti Liang (EUA) (USC Cinematic Arts)
TJ28, de Yasmin Najjar (Finlândia) (Aalto University)
Trakcje, de Jakub Krzyszpin (Polônia) (The Polish National Film School in Łódź)
Tú, yo y la vaca, de Aina Callejón (Espanha) (ESCAC)
Will It Rain Again Today, de Wong Chau-Hong (Japão) (Nihon University College of Art)
Foto: Divulgação.