Mostra Cinema Conquista 2026: Pola Ribeiro fala sobre a Bahia Filmes e futuro do audiovisual baiano

por: Cinevitor
Pola Ribeiro: diretor-presidente da Bahia Filmes

Além das exibições dos filmes, a 17ª edição da Mostra Cinema Conquista oferece uma programação formativa que estende-se à comunidade, a partir de oficinas que reúnem temas destinados tanto à capacitação e aperfeiçoamento profissional de iniciantes no setor audiovisual quanto de agentes já em atividade, além das mesas, conferências e encontros de cinema que promovem o acesso a discussões atuais e imprescindíveis para a compreensão do audiovisual e políticas públicas atuais, na relação direta com as demandas e urgências do território.

Na terça-feira, 08/09, a programação no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, em Vitória da Conquista, na Bahia, começou com a conferência Bahia Filmes, uma política pública para além da baía, com a presença de Pola Ribeiro, diretor-presidente da Bahia Filmes; a conversa foi mediada pela Profa. Dra. Milene Gusmão, do curso de Cinema e Audiovisual da UESB, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.

A ementa diz: a conferência possibilita discutir os desafios e as possibilidades de construção de uma política audiovisual que ultrapasse os limites da capital e alcance, de forma efetiva e descentralizada, os diferentes territórios da Bahia. Como pensar políticas de fomento, formação, produção, circulação e difusão que reconheçam a diversidade das experiências audiovisuais existentes no estado? De que maneira a Bahia Filmes pode contribuir para a criação de oportunidades em outros territórios?

A Bahia Filmes abre, como parte da política audiovisual para o estado da Bahia, uma série de oportunidades para o desenvolvimento do setor. São políticas e investimentos diretos em toda a cadeia criativa e produtiva do audiovisual. Foi inaugurada oficialmente no dia 28 de junho de 2026, em Salvador, como a primeira empresa pública estadual dedicada ao setor audiovisual no Brasil.

Confira os melhores momentos da conversa com Pola Ribeiro:

CRIAÇÃO DA BAHIA FILMES

“Tem um pouco do pensamento de quando Gil assumiu o Ministério da Cultura, que ele falava que o Ministério da Cultura não era para atender os artistas, assim como o Ministério da Saúde não era para atender os médicos. É com médico que a gente vai fazer a saúde, mas o Ministério está para atender o país. Então, o que nós vendemos ao governo foi que a capacidade estava nas produtoras que existiam na Bahia, nas 700 empresas que são cadastradas na ANCINE [Agência Nacional do Cinema]”. 

“Durante os oito anos que a gente pesquisou o mercado audiovisual para constituir o projeto, essas empresas tinham trazido para a Bahia, por iniciativa própria, 180 milhões de reais nesses oito anos. E esses 180 milhões de reais tinham vindo de uma única fonte, que era o Fundo Setorial do Audiovisual, que é uma fonte muito óbvia, digamos assim, uma fonte do próprio audiovisual. Por mil motivos, que a gente vem tentando esclarecer no projeto e hoje tentando entender mais, outras fontes possíveis não eram tocadas. Por falta de previsibilidade, por falta de estrutura das empresas: ‘vamos montar uma empresa de cinema, tem uma câmera, tem uma ilha de edição, monta a empresa’. Só que para conquistar outros espaços, a gente precisa de empresas mais estruturadas, que tenham contabilidade, que tenham jurídico, que tenham gestão, que tenham planejamento, que tenham outras estruturas, que tenham comunicação”.

CRESCIMENTO SUSTENTÁVEL

“A gente não usa muito a palavra lucro porque essa é uma ideia ainda muito distante. Quando a gente pensa em empresa, empresa tem que dar lucro. Mas o lucro está muito distante. Então, nós estamos, inclusive, discutindo essa questão junto à Procuradoria Geral do Estado: o que é a nossa perspectiva de lucro? Ou seja, primeiro passar por uma sustentabilidade da empresa. O projeto da empresa, que foi apresentado ao governo, era um projeto para ser sustentável em oito anos, o que nem a gente acreditava que seria. A Secretaria da Fazenda cortou para quatro anos e a gente não acredita mesmo que em quatro anos a gente seja sustentável. Mas você vai andando, né? Aí você assina e vai sabendo que em quatro anos nós não seremos sustentáveis. Mas o que é que nós sabemos para não ser um ato irresponsável simplesmente? A RioFilme não é sustentável. A Spcine também não é sustentável”.

“Mas nenhum governo, nem de Tarcísio [de Freitas, governador do Estado de São Paulo], nem do evangélico da RioFilme, acabaram com essas empresas porque elas têm uma capacidade muito grande de atrair e mobilizar a economia local. Então, a RioFilme mobiliza demais a economia do Rio de Janeiro a partir do audiovisual. A pessoa olha e diz: ‘Não, a gente tá botando esse dinheiro lá, mas esse dinheiro tá se transformando em muito mais economia, não tem porquê acabar. Vamos continuar mantendo o investimento e o custeio da empresa’. Nós temos certeza absoluta que a operação da Bahia Filmes feita de uma forma dinâmica como a gente imagina, usando a ferramenta no extremo das suas possibilidades, será bem avaliada dentro do governo, que continuará mantendo. Nenhum governo pode criar uma empresa dependente do Estado. Você tem que criar uma empresa não dependente”.

Milene Gusmão e Pola Ribeiro na conferência 

CINEMA NEGOCIAL

“A nossa busca é diminuir o custeio a cada ano que passe e que a gente possa cumprir esse papel de ter um espaço, uma plataforma negocial para o cinema brasileiro e para o cinema baiano. No texto aqui fala para além da baía, Bahia sem H, né? [refere-se ao nome da conferência intitulada Bahia Filmes, uma política pública para além da baía]. Porque justamente tem uma uma perspectiva de interior, né? Justamente para além da Baía de Todos os Santos. Tem um amigo poeta que fala: ‘Interior é interior, capital é capital’. E quando a gente pensa, mesmo na capital, o cinema não é negocial. O cinema não gera lucro. E a gente vai continuar assinando documentos para filmes e para eventos que devem gerar lucro, mesmo a gente sabendo que não gera lucro. Então, estamos negociando outras formas de retorno que não são exatamente o financeiro, mas que são as marcas, as presenças, as ações de cidadania, as ações sociais, as ações que interfiram realmente em um retorno para o nosso sócio majoritário, que é o Estado da Bahia”.

VOCÊ TEM FOME DE QUÊ?

“A gente tem no Brasil uma coisa muito louca: a gente ama os artistas que são sucesso, mas a gente não suporta o sucesso próximo da gente. Todos os atores que a gente gosta são os que estão bombando, todos os filmes que a gente gosta são os que extrapolaram as fronteiras de seus países, que chegaram aqui ou os nossos mesmos que extrapolaram, mas a gente tem uma certa dificuldade com o sucesso. E talvez seja pela própria compreensão do que é esse meio, né? Eu tava falando ali fora, conversando com o pessoal, que eu tive numa mesa promovida pelo SESI, que juntou algumas linguagens da cultura e a pergunta era: ‘Você tem fome de quê? O setor tem fome do quê?’. E aí me perguntaram: ‘O audiovisual tem fome do quê?’. Eu falei: ‘Tem fome de público’. E aí perguntaram também para o Ricardo Castro, que é conquistense, criador da NEOJIBA [Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia], e ele respondeu: ‘Tem fome de silêncio’. Eu pedi a palavra de volta pra esclarecer que são coisas diferentes. A música foi criada para falar com os deuses. São os artistas para falar poesias”.

“O cinema não é isso, não. O cinema, às vezes… tem colega meu que não gosta quando eu falo isso, mas nós somos uma coisa mais vagabunda. Nós somos uma coisa que vem da ciência, que vem da química, da física, que usa muito dinheiro para fazer. E dinheiro que sempre nunca é nosso, né? Ou ele é um dinheiro privado que tá buscando um retorno, ou ele é um dinheiro público que também está buscando algum retorno. Então, eu vejo muito o cinema como comunicação. Processo de comunicação que envolve muitos processos artísticos e que às vezes é arte. E quando é arte, arrebata, a gente não esquece, fica na cabeça com o filme. Mas a maioria dos filmes são processos de comunicação, são narrativas que envolvem outras linguagens, como dança, música, artes visuais, teatro. E a gente constrói processos de comunicação que vão para o mercado e que precisam ter retorno”.

O CINEMA E O LUCRO

“Eu falei que custa muito, mas eu tenho uma tese de que cinema é uma coisa muito barata. Barato porque ele pega o recurso e distribui com muitas pessoas. Ele registra, ele documenta, ele trabalha com a memória, ele dá escala. Muitas pessoas podem ver um produto audiovisual. Ele tem escala no tempo: Glauber está morto e a gente continua a ver Glauber. As atrizes e atores estão mortos e a gente continua a ver eles na tela. Então, o que torna o cinema barato é o público. Quanto mais público tiver, quanto mais pessoas acessarem e verem, ele vai barateando. Ele vai barateando até que ele começa a dar lucro social, lucro cultural, lucro de memória. E chega no ponto onde eu gostaria de chegar. Para pensar numa empresa, para pensar num cinema forte e potente, a gente tem que conquistar o mercado nacional para o filme brasileiro. Então assim, não existe cinematografia forte que não tenha conquistado seu mercado nacional. E a gente não conquistou”.

POLÍTICA PÚBLICA

“Estamos falando aqui de uma política que vem de muitos anos. Mas em 23 anos, desde que Lula ganhou a primeira eleição, Gilberto Gil no Ministério, Orlando Senna na Secretaria do Audiovisual, começa-se a constituir uma política muito estruturada, a mais estruturada das políticas da cultura. E aí entra Manoel Rangel com um Fundo Setorial com recursos da própria atividade do cinema… olha o grau de sustentabilidade disso! É uma política estruturada muito fortemente, com uma forte musculatura de política pública, associada a um fundo de recursos… com recursos que vem da própria atividade. Cada propaganda, cada filme que é feito paga uma taxa e essa taxa vai para um fundo, que é o Fundo Setorial do Audiovisual”.

Conversa com o público sobre a Bahia Filmes

RENOVAÇÃO E CONSTRUÇÃO

“Tem a política, tem o fundo e essa política foi estruturada e mantém o cinema brasileiro. Na Bahia, ficamos 20 anos sem fazer um longa-metragem, por exemplo, e esse ano acho que foram realizados 40 ou 45 filmes. Só que tudo envelhece. Festival de Conquista envelhece, eu envelheço, a política audiovisual que eu ajudei a construir lá atrás… hoje temos a obrigação de olhar para ela e ver aonde que ela envelheceu, aonde que ela não deu continuidade, porque não deu continuidade, aonde que ela gerou distorções. E a gente tem isso de novo para trazer para a política audiovisual, ou seja, a Bahia Filmes, com seus dois meses, traz consigo uma obrigação que é rever as políticas, rever a ANCINE, rever a RioFilme, rever a Spcine”.

“Temos que rever com a Rio Filme e com a Spcine as políticas com o Ministério da Cultura. E essa expectativa também está neles. Para vocês terem uma ideia, a gente fez dois meses agora dia 29 e os dois diretores principais da RioFilme pegaram um avião e passaram o dia em Salvador discutindo com a gente. Porque eles também estão nessa expectativa. Eles trouxeram muitas coisas que estão dando certo e que a gente vai só copiar e colar e tocar para fazer. Mas eles vieram também com o olho de o que é que vocês estão vendo? O que é que vocês de fora estão olhando? E por isso eu chamo o setor para não sentir que preparou um projeto e entregou para que o governo toque. Ou seja, o o setor construiu o projeto e o projeto continua em construção. Então, o setor precisa continuar construindo o projeto”.

TÁ BOM, MAS TÁ RUIM

“A gente tem um copo bem cheio de coisas que eu vou falar aqui e tem um copo bem vazio também de coisas que precisam ser feitas para poder fazer a ferramenta rodar. Vemos os eventos como aquele local de escuta, de discutir a política pública e aquele local de comunicação. Nós vemos tudo como um local de comunicação. A gente não tem condições, hoje, de abrir mão de nenhum espaço de comunicação porque a comunicação está muito ruim e a gente não tem nem como acusar ninguém. ‘Ah, os filmes não são vistos porque o exibidor é escroto! Os filmes não são vistos porque o sistema de distribuição não presta. Os filmes não são vistos porque o diretor não tá nem aí para isso’. Estamos chamando a responsabilidade de todo mundo para dizer: ‘Olha, os filmes não são vistos’. E filme que não é visto e que ninguém sabe que existe, não existe de fato. Então assim, tá bom, mas tá ruim, né? Tem, mas tá faltando”.

“A gente tá no tapete vermelho, a gente foi para Berlim, o cinema brasileiro foi para Veneza, foi para o Globo de Ouro, foi para o Oscar e as empresas estão no vermelho. E tem muito empresário que abriu uma empresa para fazer um filme e depois não sabe o que fazer com a empresa. Então tem muitas distorções. E o pior, o cidadão não sabe que os filmes existem”.

A Bahia Filmes atua no fortalecimento do audiovisual baiano promovendo todos os elos da cadeia criativa e produtiva, valorizando a cultura local e contribuindo para o desenvolvimento da economia criativa da Bahia e do Brasil.

*O CINEVITOR está em Vitória da Conquista e você acompanha a cobertura do evento por aqui, pelo canal do YouTube e pelas redes sociais: Twitter, Facebook e Instagram.

Fotos: Ana Júlia Ribas. 

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