Cine PE 2026: Taís Araujo e Marat Descartes exibem Doutor Monstro, de Marcos Jorge, na abertura da 30ª edição

por: Cinevitor
Taís Araujo e Marat Descartes na coletiva de imprensa 

A 30ª edição do Cine PE – Festival do Audiovisual começou nesta segunda-feira, 01/06, no Cinema do Teatro do Parque, em cerimônia apresentada pela atriz pernambucana Nínive Caldas. A noite de abertura reuniu realizadores, artistas, produtores, autoridades e amantes do cinema para celebrar três décadas de um dos mais importantes festivais audiovisuais do país.

Para abrir a competição de longas-metragens, foi exibido Doutor Monstro, novo trabalho do cineasta paranaense Marcos Jorge, de Estômago. Inspirado em um dos mais emblemáticos tribunais do júri da crônica criminal brasileira, que envolveu o médico Farah Jorge Farah, o filme traz a atriz Taís Araujo como uma obstinada promotora de justiça, que tem pela frente a missão de colocar na cadeia um respeitado cirurgião plástico, vivido por Marat Descartes, que confessou ter assassinado e esquartejado uma ex-paciente. O que seria um caso simples se transforma em um dos mais difíceis e perturbadores trabalhos de sua carreira.

Antes da exibição, a equipe do filme se reuniu com a imprensa no Novotel Recife Marina. No bate-papo, Taís Araujo falou de sua personagem: “Eu já fiz tanta advogada nessa vida… fiz em Aruanas, que foram duas temporadas, fiz em Amor de Mãe e agora a Cláudia. Eu não sei nada de Direito, nada. Mas eu confio plenamente nos pesquisadores e no diretor que dizem como funciona. Eu questiono porque não sei nada. Mas eu sei interpretar, que é o que eu faço há trinta anos. É o meu trabalho”. E completou: “É muito lindo ela ser essa promotora que pega esse caso para ser o caso da vida dela. Ela não é uma personagem da história verídica porque era um promotor, né? Eu acho lindo essa escolha por ser uma mulher que busca, quase obsessivamente, fazer justiça para outra mulher. Em uma época do Brasil que não se falava em feminicídio. É uma personagem incrível e complexa. Ela tem uma personalidade que tem também muita humanidade”.

A atriz, que marcou presença no festival para a primeira exibição do filme no país, também refletiu sobre sua carreira: “No ano passado eu fiz 30 anos de televisão. Mas, de teatro eu tenho um pouquinho mais. Nossa, nem eu acredito! Mas é que passou tão rápido mesmo. E trinta anos de uma carreira que eu sou tão orgulhosa dela. Eu acho uma carreira bonita, com escolhas bonitas e muito leais ao que eu acredito artisticamente. E aí quando eu fiz 30 anos, eu fiquei pensando: ‘E agora?’. E é tão legal ter 47 anos, ter essa carreira que eu tenho e ter ainda tanta coisa para explorar; você ter o privilégio de escolher o que você quer fazer artisticamente. O que te preenche artisticamente? Que tipo de histórias você quer contar? Quais as narrativas que você pode investir seu tempo, seu desejo artístico e levar para o mundo? É tão bom já ter 30 anos de carreira, ter tantos anos pela frente e poder ter o privilégio de escolher o que vai fazer, a forma, com quem, como… isso é o que me deixa mais enérgica. E esse filme faz parte disso porque quando o Marcos [Jorge, diretor] me chamou, o que mais me interessou foi ser um filme de tribunal”.

O bate-papo aconteceu antes do filme porque Taís Araujo viajaria ainda na madrugada e não conseguiria participar da coletiva de imprensa oficial na manhã seguinte. Por conta disso, aproveitou o momento para refletir sobre sua trajetória: “Eu sou uma mulher que vai fazer 50 anos daqui a pouco. Eu comecei a trabalhar com 13 anos. Então, eu sou uma artista que vive a contemporaneidade. Para mim, artisticamente, faz todo sentido provocar reflexão, pensamentos e fazer do meu trabalho, da minha arte, esse tipo de provocação”. E continuou: “Em uma sociedade como o Brasil, que é forjada por todos esses pilares terríveis de racismo, machismo, misoginia, homofobia… são assuntos que me interessam transformar em arte para debater. Porque não tem nada mais poderoso do que o audiovisual para discutir esses assuntos, sabe? A arte é muito poderosa. Todo mundo que está aqui trabalha com isso, todo mundo sabe o poder que tem. É um poder de comunicação muito grande. Para mim, não faz sentido ser uma artista que não trate desses assuntos, que não provoque essas reflexões e que não queira ampliar debates nesse sentido”.

Equipe do longa Doutor Monstro no palco

Taís também falou da sua experiência nos palcos e das escolhas profissionais: “Eu, por exemplo, vou estrear minha peça [Mudando de Pele] agora em São Paulo. É um texto que eu tava procurando já… uma pesquisa de muitos anos sobre pessoas pretas, mas que a dor não seja a protagonista absoluta, sabe? E sim as subjetividades, as outras questões, o caos que tem dentro de todos nós. Isso também vem numa pesquisa de reduzir nossa população ao sofrimento e à dor para ampliar os olhares de tudo. Então, eu decidi que agora eu vou ter repertório de teatro. Tem essa peça, daqui a pouco vou fazer outra. O que vou fazer com as histórias que me interessam contar artisticamente? Eu posso fazer isso com as histórias que estão sob a minha curadoria. As que não estão, eu não tenho esse poder. Mas a questão que eu posso escolher, já é muito interessante, instigante e prazeroso”.

Além disso, a atriz desabafou sobre os obstáculos que enfrenta em seu cotidiano: “Seria lindo se a gente pudesse viver plenamente, mas, a gente não vive. Estamos sempre em estado de alerta, o tempo inteiro. Se você é mulher, então… E se você é mulher negra tudo vai se potencializando e os perigos vão aumentando. Não é porque sou conhecida, trabalho há 30 anos e tô nas campanhas publicitárias que estou salva disso. Não, não estou. E eu sei que não estou. E é por isso que também faz muito sentido continuar falando sobre o que tem que ser dito e não fingir que está tudo bem. Se você ascende socialmente, óbvio que as coisas melhoram em alguns aspectos, mas eu não estou salva disso. E, mesmo que melhorasse, a minha obrigação moral e artística era de continuar falando sobre os assuntos”.

O ator Marat Descartes também participou do bate-papo e falou sobre seu personagem e seu processo de criação: “Eu fui atrás de alguns desses outros casos para tentar entender se havia alguma semelhança porque como intérprete desse tipo de criatura, a gente não pode julgar, né? Temos que simplesmente tentar entender qual é o mecanismo psíquico que leva um ser a cometer uma atrocidade dessas. Na minha pesquisa, fui vendo outros casos parecidos com o dele. Foi uma pesquisa para tentar entender o que passa pela cabeça e também mergulhar um pouco na história particular desses médicos. Esse caso tem coisas bem particulares. Ele não é exatamente um serial killer. Então, o que o levou a cometer esse crime?”.

Já no palco do Teatro do Parque e ao lado de sua equipe, o diretor Marcos Jorge discursou: “Que bom estar aqui com esse povo vibrante, nessa cidade vibrante que todos nós agora aprendemos internacionalmente a apreciar. É um grande privilégio ser o filme de abertura desse lindo festival, que estive alguns anos atrás. Quando eu vi pela primeira vez a história do Farah Jorge Farah, eu não acreditei. Eu achei que aquilo não podia ser verdade. Mas era uma terrível verdade. E achei que ali tinha um filme muito interessante. Recentemente eu fui numa palestra de um diretor americano chamado Spike Jonze, que me ajudou a entender um pouco do filme que a gente acabou fazendo. Ele disse: ‘Os tempos surreais em que vivemos pedem filmes ainda mais surreais. A realidade é absurda’. Sim, a realidade é absurda e os filmes que nós fazemos, que nós assistimos, talvez seja uma das poucas maneiras que temos para lidar com elas”.

Taís Araujo também conversou com o público presente: “É um prazer lançar nosso filme aqui no Cine PE, que completa 30 anos. É a primeira vez que o filme vai ser exibido. Ninguém aqui viu ainda, eu acho. Só o diretor. Tá todo mundo ansioso para ver. Espero que seja um filme que provoque reflexão e eu acho que essa é a função dele”. Marat Descartes completou: “É uma alegria estar aqui. Filmamos em 2023 e, por isso, estou ansioso para ver o que fizemos. Eu acho de extrema importância a reflexão que esse filme traz em um momento em que o fenômeno do feminicídio está exponencial no nosso país. Acho também que ao focar na questão do tribunal, traz luz para a questão do que é verdade, o que é fato, mentira, fake”.

Com Guilherme Weber, Marcelina Fialho, Duílio De Pol, Paulo Matos, Bárbara Passos e Uyara Torrente no elenco, Doutor Monstro é uma produção da Zencrane Filmes, com coprodução da Paramount Pictures e distribuição da Olhar Filmes. A estreia comercial nos cinemas está prevista para o início do segundo semestre deste ano.

Zenaide e Fátima: cidadãs Cine PE

Ainda na noite de abertura, antes da exibição do longa, o festival teve início com a exibição do documentário comemorativo sobre os 30 anos do Cine PE. A produção revisita momentos marcantes da trajetória do festival, resgatando imagens históricas, depoimentos e registros que ajudam a contar a construção de uma iniciativa que se tornou referência para o audiovisual brasileiro: “Foram dois meses intensos para tentar resumir 30 anos de história. Fizemos um verdadeiro garimpo de imagens, desde fitas VHS até materiais mais recentes. Foi um trabalho feito com muito amor pelo festival”, disse Eduardo Cavalcanti, responsável pela direção do filme.

Outro momento emocionante da noite foi a homenagem às irmãs Zenaide Maria de Sousa e Fátima Maria de Sousa, carinhosamente conhecidas como As Irmãs do Cine PE. Presenças confirmadas em todas as edições do festival desde sua criação, elas receberam das mãos da diretora Sandra Bertini o título de Cidadãs Cine PE, em reconhecimento ao entusiasmo e amor demonstrados ao longo dos 30 anos de história do evento.

Emocionadas, agradeceram pela homenagem e lembraram a relação afetiva construída com o festival ao longo das décadas: “Gente, boa noite! Estou muito emocionada e gratificada por essa homenagem, que eu não esperava. Estou muito feliz, de coração. Eu amo o Cine PE há muitos anos. Acompanho desde o início, praticamente. Eu amo de coração!”, disse Zenaide. E Fátima completou: “Também estou muito, muito emocionada. Todos os anos são muitas emoções. Aqui, conhecemos muita gente. É muita coisa maravilhosa. Melhor do que todos esses carnavais que passam por aqui. Uma coisa linda que sempre emociona demais. A gente se sente tão feliz, sabe? É inexplicável o sentimento”. Ao entregar a homenagem, Sandra Bertini destacou a importância do público para a existência do festival: “A gente precisava homenagear Zenaide e Fátima. Elas sempre foram as primeiras da fila. Esse amor pelo Cine PE representa exatamente o encontro que buscamos promover entre o público e o audiovisual”.

Com sessões gratuitas até o próximo dia 7 de junho, o 30º Cine PE segue com mostras competitivas de curtas e longas-metragens, homenagens, debates e encontros com realizadores, celebrando uma trajetória que ajudou a fortalecer o audiovisual nacional e a formar gerações de espectadores.

Fotos: Felipe Souto Maior.

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