
Considerada uma das artistas mais consagradas do audiovisual brasileiro, Cláudia Abreu foi a grande homenageada da 30ª edição do Cine PE – Festival do Audiovisual na noite de sábado, 06/06, no Cinema do Teatro do Parque. A atriz recebeu a tradicional Calunga Dourada, principal honraria do festival, das mãos da diretora Sandra Bertini.
Emocionada, Sandra destacou que a escolha da homenageada desta edição histórica foi construída com muito carinho por ela e Alfredo Bertini, realizador do evento: “Cláudia, tu estás recebendo essa Calunga com o coração tão agradecido pela tua presença. Você não tem ideia da alegria que Bertini e eu tivemos quando você aceitou esse convite”. A diretora contou também que o troféu foi repaginado para celebrar os 30 anos do festival: “Essa Calunga está com uma roupagem nova com as cores da bandeira de Pernambuco para comemorar essa trigésima edição. E hoje ela chega às mãos de uma artista escolhida com muito carinho para fazer parte desta história”.
Ao receber a Calunga Dourada, Cláudia dedicou esse momento especial ao casal responsável pela construção do festival: “Só estou aqui recebendo essa homenagem por causa da Sandra e do Bertini. Então, eu queria dedicar essa homenagem a eles pela perseverança de fazer 30 edições desse Cine PE”. A atriz também aproveitou para homenagear Alfredo Bertini, idealizador do festival, que faleceu na última quinta-feira, 04/06, aos 65 anos, durante o festival: “Lembro até hoje de ouvir o áudio do Bertini, um áudio longo, entusiasmado, carinhoso, caloroso. Ele me falou sobre tudo, inclusive também sobre essa questão que estava acontecendo. Eu só estou aqui por ele. Queria agradecer demais e dizer que esse festival, simbolicamente, vai honrar a vida e o legado dele, que vai permanecer por todos esses anos através do cinema e dos afetos. Obrigada!”.
Ovacionada pelo público, seguiu seu discurso: “Eu pisei nesse palco há dois anos quando eu vim fazer um monólogo que escrevi sobre Virginia Woolf. Pisei sozinha aqui e achei esse teatro tão bonito… eu não poderia imaginar que dois anos depois eu voltaria para receber essa homenagem. É claro que receber uma homenagem pela trajetória da vida, da carreira, não é a mesma coisa que receber por um trabalho específico. É natural que você faça um inventário sobre todas as escolhas que determinam muito a cara de uma carreira, os erros, acertos, os encontros. E eu pensei, especificamente, sobre o cinema”.
Cláudia Abreu e Sandra Bertini no palco do festival
E continuou o discurso relembrando o início de sua trajetória e como tudo se desenrolou em seu ofício: “Eu sou parte de uma geração que pegou o Collor pela frente. Eu tinha 19 anos quando ele foi eleito e eu não tive a oportunidade de fazer cinema porque ele acabou com a Embrafilme. Fiz parte de Anos Rebeldes [minissérie da Rede Globo exibida em 1992], dois anos depois, que espelhou o Brasil durante o processo de impeachment. E houve, de fato, um impeachment. Então, eu tomei uma primeira grande decisão na minha vida, que foi não renovar um contrato longo com a televisão porque eu tive uma intuição muito forte: se ele tinha sido tirado do poder, poderia ser uma hipótese muito provável que o cinema também pudesse voltar. E voltou. Uns dois anos depois, o Cacá Diegues me chamou para fazer Tieta. Eu fiquei muito feliz de ter feito essa escolha, de estar disponível para participar ativamente da retomada do cinema brasileiro pós era Collor. Fiz Tieta, Ed Mort, O que é Isso, Companheiro?, Guerra de Canudos, O Xangô de Baker Street, O Homem do Ano, O Caminho das Nuvens, Os Desafinados”.
E seguiu sobre suas realizações profissionais e escolhas: “Eu fui fazendo um filme atrás do outro e posso dizer que coloquei um pé no cinema brasileiro e coloquei na minha carreira uma decisão de não ser uma atriz só de um lugar, mas de permanecer no teatro de onde eu tinha começado. Permanecer na televisão, sim, porque eu adoro fazer televisão sem desmerecer. E tinha um sonho de ser uma atriz de cinema também e poder fazer cinema no meu país. Esse sonho se realizou com uma decisão, com uma atitude, com tomar as rédeas da minha carreira naquele momento e ter essa intuição de que eu precisava estar livre para ser uma atriz de cinema. E cá estou eu, trinta anos depois, recebendo uma homenagem pela minha carreira, mas principalmente por ser um festival de cinema, é significativo que eu seja uma atriz de cinema”.
Ao final do discurso, Cacau agradeceu: “Mais uma vez eu dedico esse prêmio ao Bertini, Sandra e todas as pessoas que cruzaram comigo nessa trajetória: atores, diretores, técnicos, escritores. Todo mundo que me fez ser uma atriz melhor nessa troca. Queria também dedicar para minha mãe porque muito do que eu sou é por causa dela; e aos meus quatro filhos que não estão aqui, mas certamente verão esse momento. Muito obrigada!”.
Cláudia Abreu: carreira consagrada
Antes da homenagem no palco do Teatro do Parque, Cláudia Abreu participou de uma coletiva de imprensa, que foi mediada pelo curador Diego Edu Fernandes. Em certo momento, relembrou personagens marcantes e foi questionada sobre revivê-las em um novo projeto: “Quem sabe, né? Eu acho que a gente sempre tem saudades dos personagens. Se fosse uma boa oportunidade, acho que poderia ser divertido. É claro que tem sempre o desafio de não ser a mesma coisa, de não ser tão bom quanto a primeira vez, mas a gente só vai saber fazendo”.
A atriz também respondeu uma pergunta sobre suas vilãs icônicas, Laura Prudente da Costa, da novela Celebridade, e Chayene, da novela Cheias de Charme: “Eu pude fazer coisas muito diferentes e vilã é sempre mais livre. As duas tinham muito senso de humor. A Laura tinha algo mais vingativo, perverso. E a Chayene era competitiva diante de tanta insegurança; não queria perder o lugar e sabotava. Era má por isso também, que fazia mal aos outros. O nosso país adora gostar das vilãs porque elas são mais divertidas, são mais livres, elas podem tudo. Mas acho que seria muito bom também que os bons exemplos, sem ser de uma maneira careta ou irreal, fossem admirados. Uma heroína de verdade, com erros e acertos. Seria tão bom se a gente também torcesse pela heroína. Adoraria que a heroína tivesse o humor de uma vilã para rir de si mesma. Acho que isso ajudaria muito na identificação”.
Além da homenagem, a programação da noite do Cine PE 2026 contou com mais uma rodada das mostras competitivas do festival. O público acompanhou o documentário A Física dos Invisíveis, dirigido por Camilo Soares, representando a mostra competitiva de curtas-metragens pernambucanos. Na competitiva de curtas nacionais foram exibidos João-de-Barro, de Daniel Jaber e Lu Damasceno, e Punhal, com direção de Clementino Júnior. Encerrando a noite, o longa-metragem Onde Estamos Seguros, dirigido por Thais Scabio e Gilberto Caetano, integrou a mostra competitiva de longas-metragens e levou ao público reflexões sobre pertencimento, relações humanas e os desafios do mundo contemporâneo.
*Clique aqui e assista ao vídeo especial e entrevista com Cláudia Abreu sobre a homenagem
Fotos: Felipe Souto Maior.