A produtora é a primeira mulher a assumir a presidência da entidade.
A produtora carioca Renata Almeida Magalhães assume a presidência da Academia Brasileira de Cinema e Artes Audiovisuais no próximo dia 1º de julho. Eleita pelo Conselho Deliberativo para o biênio 2022-2024, ela ocupa o cargo que, desde 2018, era do produtor Jorge Peregrino, tornando-se a primeira mulher à frente da mais importante entidade do setor audiovisual do país.
A nova diretoria será composta por Paulo Mendonça (vice-presidente), Bárbara Paz (diretora secretária) e três novos membros: Jeferson De (diretor de comunicação), Ariadne Mazzetti (diretora financeira) e Allan Deberton (diretor social).
Jorge Peregrino, que continua no conselho, decidiu deixar a presidência após quatro anos. Sua gestão teve início em 2018, depois do falecimento do então presidente Roberto Farias. Nesse período, promoveu grandes avanços, com destaque para a conquista da independência na escolha do filme que representa o Brasil no Oscar. Em 2020, a Academia Brasileira de Cinema e Artes Audiovisuais foi reconhecida oficialmente pela AMPAS, Academy of Motion Picture Arts and Sciences, como a única entidade credenciada para indicar o longa que representa o Brasil na categoria de melhor filme internacional. Antes, a seleção era feita pelo governo federal, através do extinto Ministério da Cultura.
Outra importante conquista na gestão de Jorge Peregrino foi o reconhecimento da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Espanha, que este ano designou à Academia Brasileira a responsabilidade de escolher o longa brasileiro que disputa uma vaga no Prêmio Goya na categoria melhor filme ibero-americano.
A Academia Brasileira de Cinema e Artes Audiovisuais também conseguiu realizar ininterruptamente o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, apesar das dificuldades impostas pela pandemia de Covid-19 nos últimos dois anos. Em 2022, a principal premiação do setor audiovisual voltará ao formato presencial, já sob gestão de Renata Almeida Magalhães, com cerimônia marcada para o dia 10 de agosto, na Cidade das Artes, Rio de Janeiro.
Renata Almeida Magalhães é uma das produtoras mais atuantes do setor audiovisual brasileiro. Graduada em Direito e especializada em legislação de incentivo fiscal para cultura, estreou no cinema aos 17 anos como diretora do curta-metragem Vitória, realizado em 1979. Em seguida foi assistente de direção no longa Menino do Rio (1981), de Antônio Calmon. Mas, depois de acompanhar as filmagens de Quilombo (1983), de Carlos Diegues, e de transformar a experiência em um documentário, passou a focar sua carreira na produção de longas e, posteriormente, comerciais e videoclipes musicais.
Produziu diversos filmes de Cacá Diegues, como Um Trem para as Estrelas, Dias Melhores Virão, Tieta do Agreste, O Melhor Amor do Mundo, Orfeu e O Grande Circo Místico. Produziu sozinha e colaborou no roteiro de Deus é Brasileiro, filme que levou mais de 1,6 milhão de espectadores ao cinema. Assinou a produção da série documental Favela Gay: Periferias LGBTQI+, de Rodrigo Felha, para o Canal Brasil, e do longa Aumenta que é Rock and Roll, de Tomás Portela, que está em finalização e será lançado em breve nos cinemas. Renata foi também coprodutora de Cinema Falado, de Caetano Veloso, e produtora executiva de Dedé Mamata, de Rodolfo Brandão.
Em breve nas telonas: a trajetória da maior dupla de funk melody do país.
Depois de seis semanas de filmagens, Nosso Sonho, dirigido por Eduardo Albergaria e produzido por Leonardo Edde, acaba de ser rodado no Rio de Janeiro. A trajetória da maior dupla de funk melody do país, formada pelos amigos Claudinho e Buchecha, que conquistaram o Brasil com hits como Só Love e Fico Assim Sem Você, ganhará as telas de cinema.
Sob o ponto de vista de Buchecha, a trama revelará o nascimento dessa amizade, quando ainda eram crianças em uma comunidade de Niterói, e a força de superação dessa dupla diante dos dramas e tragédias. Tudo isso embalado pelo ritmo contagiante e a poesia da periferia que conquistou gerações e nem a morte trágica do Claudinho foi capaz de interromper.
Juan Paiva, de M8 – Quando a Morte Socorre a Vida, interpreta Buchecha, e Lucas Penteado, de Espero Tua (Re)volta, faz sua estreia em longa-metragem de ficção como Claudinho. Os dois já trabalharam juntos em Malhação: Viva a Diferença. Na fase da infância, os papéis principais ficaram a cargo de Vinicius Boca de 09 e Gustavo Coelho, como Claudinho e Buchecha respectivamente.
No elenco também se destacam Tatiana Tiburcio e Nando Cunha, que interpretam Dona Etelma e Souza, os pais do Buchecha; Lellê Landim e Clara Moneke são Rosana e Vanessa, as namoradas dos músicos; e participações especiais de Antonio Pitanga como Seu Américo, Isabela Garcia como Dona Judite, e FP do Trem Bala e Gabriel do Borel como a dupla Cidinho & Doca.
Ritmo contagiante e a poesia da periferia.
“Queremos colocar o cinema para dançar. São muitas cenas de baile funk e muita música. Por isso era tão importante ter dois atores que, além de atuar muito bem, também tivessem a música no coração. Juan e Lucas já eram amigos e estão ainda mais próximos agora nas filmagens. São a dupla perfeita para contar essa história de dois meninos de periferia que ganharam o coração do país com suas canções”, disse o diretor Eduardo Albergaria, de Happy Hour.
O cantor Buchecha e a agência Atabaque assinam a produção musical do longa. Além da trilha sonora, a Urca Filmes está desenvolvendo junto com esta agência uma série de lançamentos musicais associados ao filme, reunindo diferentes gerações de funkeiros.
Com roteiro de Eduardo Albergaria, Daniel Dias, Mauricio Lissovsky e Fernando Velasco, o longa é uma produção da Urca Filmes, em coprodução com a Riofilme, Telecine e Warner Bros Distributing. Com investimentos do Fundo Setorial do Audiovisual e BBDTVM, a distribuição nos cinemas será realizada pela Manequim Filmes.
Mariah Teixeira em A Vida São Dois Dias, de Leonardo Mouramateus.
O FIDMarseille, Festival Internacional de Cinema de Marselha, é reconhecido como uma fonte de novos cinemas, com uma programação plural que apresenta, em destaque, documentários, mas também filmes de ficção.
Para esta 33ª edição, que acontecerá entre os dias 5 e 11 de julho, 2.734 filmes foram inscritos, sendo 42% dirigidos por mulheres. Ao total, 123 títulos, de 37 países, foram selecionados. As exibições acontecem em cinemas, teatros, bibliotecas, galerias de arte e anfiteatros ao ar livre em toda a cidade, localizada no sul da França.
Neste ano, o cinema brasileiro marca presença com algumas obras, entre elas, A Vida São Dois Dias, do cineasta cearense Leonardo Mouramateus, na Competição Internacional. Na trama, a pacata rotina de Rómulo, no Rio de Janeiro, muda da noite para o dia quando um acidente dá início a uma onda de eventos absurdos. Longe dali, Orlando, seu irmão gêmeo e negociante de obras raras, tenta comprar o livro de uma estudante brasileira com problemas financeiros. O elenco conta com Mauro Soares, Mariah Teixeira, Sara Hana, Nuno Lucas, Rita Azevedo Gomes, Helena Lessa e Jorge Polo.
O júri da Competição Internacional será presidido pela cineasta Mati Diop e contará também com: Ted Fendt, diretor americano; João Pedro Rodrigues, cineasta português; o crítico de cinema austríaco, Patrick Holzapfel; e Bani Khoshnoudi, diretora iraniana.
Na mostra First Film Competition, mais duas produções brasileiras ganham destaque. Em Vermelho Bruto, de Amanda Devulsky, quatro mulheres tornam-se mães durante a adolescência, na década após o início do período chamado redemocratização brasileira (1985-1995). É 2018 e, em Brasília, os seus arquivos domésticos misturam-se enquanto elas concebem novas imagens. O elenco conta com Jô Carvalho, Fabiana Matos, Eunice Oliveira e Alessa Machado.
Já em Maputo Nakuzandza, de Ariadine Zampaulo, uma coprodução entre Brasil e Moçambique, jovens saem de uma festa e nos quintais senhoras iniciam o dia. Um homem corre, uma mulher chega de viagem, um turista passeia, um trabalhador apanha o transporte público e a rádio Maputo Nakuzandza anuncia o desaparecimento de uma noiva. O elenco conta com Sabina Tembe, Fernando Macamo, Luis Napaho, Silvana Pombal, Eunice Mandlate, Malua Saveca, Paulo Zacarias, Salvado Mabjaia, Domingos Bié e Maria Clotilde Guirrugo.
Na mostra Other Gems, o Brasil aparece com o documentário Filme Particular, de Janaína Nagata. A partir de um rolo de filme comprado pela internet sem conhecimento sobre seu conteúdo, a realizadora inicia uma investigação, também on-line, que vai revelar segredos inesperados sobre as imagens presentes naquele material de arquivo familiar.
O filme de abertura desta edição será o romance francês Chronique d’une liaison passagère, de Emmanuel Mouret, com Sandrine Kiberlain e Vincent Macaigne no elenco. Além disso, o festival apresentará uma retrospectiva do cineasta catalão Albert Serra e exibirá seu novo filme, Tourment sur les îles; um programa especial dedicado ao ator e diretor francês Mathieu Amalric; e uma seleção com treze curtas-metragens, desenvolvida em colaboração com o crítico e cineasta inglês Neil Young, dirigidos por jovens realizadores ucranianos.
Depois de dois anos em formato on-line, o Festival de Cinema de Vitória realizou uma edição especial entre os dias 21 e 25 de junho; um desdobramento da primeira parte do evento, que aconteceu virtualmente em novembro do ano passado.
O 28º Festival de Cinema de Vitória: Reencontro apresentou uma seleção de 30 filmes, entre curtas e longas-metragens, premiados com o Troféu Vitória e que foram exibidos em 2021. O público conferiu produções em programas especiais preparados pela curadoria, três sessões especiais com filmes convidados, o lançamento da edição física dos cadernos das homenageadasMarcélia Cartaxo e Margarete Taqueti, além de oito oficinas com foco nas diversas etapas da produção audiovisual.
Na noite de encerramento, foi exibido o longa inédito Serial Kelly, dirigido por René Guerra. O filme acompanha a trajetória de Kelly, interpretada por Gaby Amarantos, uma artista em busca de reconhecimento, com uma intuição criativa muito aguçada, mas que sofre pela ausência de oportunidades em sua carreira. Conforme ela cumpre sua agenda de shows pelo sertão, a cantora de forró eletrônico também vai deixando um rastro de sangue pelo caminho. Quando passa a ser investigada pelos assassinatos de três homens, sua turnê mambembe também se transforma numa estratégia de fuga. De estrela ascendente ela se torna uma heroína marginal.
Com roteiro de Marcelo Caetano e René Guerra, Serial Kelly foi todo rodado em Alagoas. O elenco conta também com Paula Cohen, Thomás Aquino, Pedro Wagner, Thardelly Lima, Igor de Araújo, Roberta Gretchen, entre outros. Produzido pela Bananeira Filmes, o filme será distribuído pela Vitrine Filmes.
René Guerra estreou no cinema com o curta-metragem Os Sapatos de Aristeu, em 2008; a produção foi um dos filmes nacionais mais premiados daquele ano, com 37 prêmios nacionais e internacionais. Dirigiu também os curtas O Olho e o Zarolho e Vaca Profana; e o longa Guigo Offline, grande vencedor do 25º Festival Mix Brasil, em 2017.
A equipe do filme no festival.
Para apresentar Serial Kelly em Vitória, o diretor marcou presença no evento ao lado da atriz Paula Cohen e da produtora Elaine Azevedo e Silva, representante da Bananeira Filmes. No palco do Teatro Glória, fez um discurso emocionante: “Toda equipe de cinema deveria estar em estado de vulnerabilidade para saber o que é a função de um ator. No Vaca Profana e em todos os meus curtas que passaram aqui, sempre coloquei os atores como representantes dos filmes. Roberta Gretchen, que não tinha pudor em dizer que era uma profissional do sexo, saiu deste festival dizendo que era atriz”.
E completou: “Nós vamos sobreviver. Um país sem cultura é um país sem nada. Eu vou ficar mais radical possível no sentido artístico e o que eles não querem ver, eu vou mostrar. Agradeço todas as mulheres da equipe, que são mulheres fortes e que, inclusive, sobreviveram ao machismo estrutural dentro do set. Sem Elaine [produtora], esse filme não estaria aqui. Sem a Paula [atriz], não estaria na luminosidade. Gaby, eu sei que você está aqui. Eu te amo, te honro. Você foi foda!”.
A produtora Elaine Azevedo e Silva também discursou: “Estamos muito felizes e honrados em participar do festival. É importante passar o filme pela primeira vez ao público em um festival que prestigia o acesso ao público, que ultrapassa o muro do cinema e que vai atrás do espectador de verdade”. A atriz Paula Cohen completou: “Quando eu li esse roteiro pela primeira vez, fui atravessada por um lugar muito profundo. Eu acho que esse filme vai entrar em um lugar de destruir velhos padrões. É um filme que vem com um pé na porta”.
Depois da exibição do filme, foi realizado um grande show, com entrada franca, que marcou o lançamento do festival musical Tenda Lab. No Parque da Prainha, em Vila Velha, se apresentaram: a cantora Letrux, os DJs Amigos da Onça e a Banda Malacaxeta, com participação da atriz e cantora Letícia Persiles.
*O CINEVITOR esteve em Vitória e você acompanha a cobertura por aqui, pelo canal no YouTube e pelas redes sociais: Twitter, Facebook e Instagram.
Neste ano, Manguebit, de Jura Capela, foi o grande vencedor da Competição Nacional segundo o Júri Oficial, que foi formado por André Barcinski, Andréa Alves, Beth Formaggini e Juliana Vicente. A justificativa diz: “O primeiro prêmio vai para um filme que, com um trabalho exuberante de recuperação de acervo e montagem, eterniza um movimento não apenas musical, mas cultural, que uniu os sons pernambucanos com a música do mundo e criou um estilo único: o manguebit”.
O longa, que será exibido na edição do In-Edit Barcelona, conta a história de um dos mais importantes movimentos culturais das últimas décadas, o Manguebeat, através de depoimentos de seus criadores, companheiros, herdeiros, produtores e músicos.
O júri concedeu ainda um Prêmio Especial para Cafi, de Lirio Ferreira e Natara Ney, “pela beleza de suas imagens e a liberdade narrativa desse tributo a um grande criador de imagens, muitas delas dedicadas a artistas e capas de discos icônicos da música brasileira”, e uma Menção Honrosa para o documentário Alan, de Daniel Lisboa e Diego Lisboa (Irmãos Lisboa), “pelo processo de realização e por revelar um personagem único, que usou a força de sua arte para levar beleza a seu mundo tão duro”.
Vale lembrar que todos os filmes da Competição Nacional serão exibidos no domingo, 26/06, na Cinemateca Brasileira. O vencedor ganha ainda uma sessão extra na quarta-feira, 29/06, às 18h30, no CineSesc.
Conheça os vencedores do 14º In-Edit Brasil:
MELHOR FILME Manguebit, de Jura Capela
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI Cafi, de Lirio Ferreira e Natara Ney
MENÇÃO HONROSA Alan, de Daniel Lisboa e Diego Lisboa(Irmãos Lisboa)
Leonardo Villar em A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos.
A SAC, Sociedade Amigos da Cinemateca, foi fundada em 1962 com o objetivo de articular apoio dos poderes públicos e da iniciativa privada para obter os recursos materiais necessários ao desenvolvimento dos trabalhos da Cinemateca Brasileira. No núcleo desta empreitada estavam Dante Ancona Lopez, publicitário e distribuidor de filmes, Florentino Llorente e Paulo Sá Pinto, exibidores, e Rudá de Andrade, Conservador-Adjunto da Cinemateca.
A ideia havia sido lançada em 1957 por Paulo Emílio após o primeiro incêndio na Cinemateca. Ao constatar a fragilidade da instituição e analisar as relações dela com as esferas políticas e sociais e o impacto da tragédia na opinião pública, concluiu: “Se todos se agruparem numa Sociedade de Amigos da Cinemateca Brasileira será evitado um colapso cuja consequência impediria por tempo indeterminado que o nosso país continue participando do mais importante fenômeno de aprofundamento da cultura democratizada no mundo moderno: a aproximação cultural do cinema”.
A SAC foi constituída oficialmente no dia 2 de julho de 1962. Seu primeiro presidente foi Dante Ancona Lopez, que também exerceu o cargo de diretor, juntamente com Florentino Llorente, João Guilherme de Oliveira Costa e Rui Nogueira Martins. Rudá de Andrade era responsável pela orientação técnica, Jean-Claude Bernardet coordenava as publicações, enquanto Alexandre Wollner orientava a identidade gráfica.
A proposta de Dante Ancona Lopez era oferecer filmes de arte “que geram polêmica, que possuem um valor estético e apresentam um testemunho político-social”. Daí o slogan Espetáculo Polêmica Cultura, que reforçava o perfil da sala como um espaço de estímulo mais amplo à cultura cinematográfica. A partir da inauguração do Cine Coral, Dante criou o conceito de cinema de arte em São Paulo.
Para celebrar os 60 anos da fundação da SAC, a Cinemateca Brasileira organizou uma mostra dividida em três blocos, reproduzindo a prática de programação da época. Ao longo do evento, os familiares de Dante Ancona Lopez farão a doação do acervo do empresário à instituição.
A mostra Espetáculo Polêmica Cultura, que acontecerá entre os dias 30 de junho e 10 de julho, contará com uma homenagem a Dante Ancona Lopez e a primeira exibição pública no país da cópia restaurada de Deus e o Diabo na Terra do Sol, que passou recentemente pelo Festival de Cannes.
Confira a programação:
PROGRAMAÇÃO 1: GRANDES ESTREIAS NACIONAIS
Muitos dos grandes nomes do cinema brasileiro exibiram seus filmes pela primeira vez em uma das salas administradas pela SAC. A Mostra SAC vai apresentar clássicos do nosso cinema, entre os quais, Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha; Garrincha, Alegria do Povo, de Joaquim Pedro de Andrade; e A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos.
PROGRAMAÇÃO 2: GRANDES ESTREIAS INTERNACIONAIS
Dante Ancona Lopez trouxe filmes raríssimos de diversos países para as salas da SAC, ajudando a formar o público cinéfilo de São Paulo. A mostra contará com sessões dos espetaculares Faraó, de Jerzy Kawalerowicz; O Momento da Verdade, de Francesco Rosi; dos polêmicos A Passageira, de Andrzej Munk e Witold Lesiewicz, Os Subversivos, dos irmãos Taviani; e do raro O Crime da Aldeia Velha, de Manuel Guimarães; além de Um Cão Andaluz e O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel; Mickey One, de Arthur Penn; Cinzas e Diamantes, de Andrzej Wajda; entre outros.
PROGRAMAÇÃO 3: FILMES EXIBIDOS NAS INAUGURAÇÕES DAS SALAS
Os cinemas e auditórios programados pela SAC desde 1962 sempre foram reconhecidos como singulares centros de formação cultural. Gerações de artistas, intelectuais e cinéfilos frequentaram esses espaços e puderam conhecer e tomar gosto pelos filmes de arte e, ao mesmo tempo, reconhecer a importância da Cinemateca Brasileira e de seu acervo-repertório na formação de uma sólida cultura cinematográfica. A Mostra SAC traz todos os filmes que foram exibidos na abertura de cada uma das salas programadas pela organização. Confira:
Cine Coral Projetado pelo arquiteto Túlio Ficarelli, o cinema foi inaugurado em 1958, na Rua 7 de Abril, 381, com a exibição do filme Esses Maridos, de Luigi Comencini.
Cine Picolino Inaugurado em 1955, a sala localizada na Rua Augusta 1513 (ao lado do prédio ocupado hoje pelo Espaço Itaú de Cinema), era propriedade da empresa Rilo de Cinemas e Hoteis S.A. e também integrava o circuito da Cia. Serrador. A partir de março de 1965, a Serrador e a SAC passaram a programar as atividades do Picolino. Para a inauguração dessa nova fase, foi lançado o filme italiano Os Amantes de Florença, de Carlo Lizzani, com Marcelo Mastroianni no elenco. O evento mereceu um elogioso artigo de Glauber Rocha no Diário Carioca.
Cine Scala O Scala, localizado na rua Aurora, 720, Santa Ifigênia, foi inaugurado em 1962 com uma sessão de Ópera dos Pobres, de George W. Pabst. No ano seguinte, um incêndio destruiu suas instalações. A partir de 1965, já recuperado, passou a integrar o circuito de cinemas de arte da Cia. Serrador, acolhendo as programações da SAC, em paralelo às atividades do Cine Picolino.
Auditório do Museu de Arte de São Paulo No final de 1962, a SAC passou a promover atividades no auditório do MASP. No início de 1963, foram feitas reformas nas instalações e adequação das cabines de projeção. Em março, na solenidade que marcou o início das atividades da SAC no Museu, foi apresentado o filme Harakiri, de Masaki Kobayashi, que um mês depois seria exibido em Cannes como representante oficial do Japão.
Belas Artes Em 14 de julho de 1967, foi inaugurado o Cine Belas Artes, com a exibição da comédia Os russos estão chegando! Os russos estão chegando!, dirigido por Norman Jewison, indicado a quatro categorias do Oscar e ganhador do Globo de Ouro de melhor comédia. A pretensão inicial era exibir um filme de autor, mas a Serrador preferiu obra mais comercial para a inauguração. Além de programações comerciais e das sessões especiais transferidas do Picolino, o Belas Artes acolheu outras manifestações artísticas (apresentações musicais, peças teatrais e exposições), buscando se tornar um verdadeiro centro de cultura. O lema Espetáculo Polêmica Cultura foi incorporado à marca do novo cinema.
Sala Cinemateca Por oito anos, a Sala Cinemateca ocupou o espaço do antigo Cine Fiametta, na rua Fradique Coutinho (atual Cinesala). Em sua inauguração, foi exibida a versão restaurada de A paixão de Joana D’Arc, de Carl Theodor Dreyer, mesma obra projetada à época da inauguração da Filmoteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo (embrião da Cinemateca Brasileira). O filme integrava o ciclo inaugural da sala, intitulado Cinemateca 40 anos, composto por obras expressivas do acervo da instituição.
Os ingressos para a mostra são gratuitos e distribuídos uma hora antes de cada sessão.
Cena do documentário brasileiro Uýra – A Retomada da Floresta, de Juliana Curi.
A Outfest é uma organização LGBTQIA+ global de artes, mídia e entretenimento com programas que capacitam artistas, comunidades e cineastas que transformam o mundo com suas histórias. Com a missão de dar visibilidade aos profissionais LGBTQIA+, também abre caminhos que destacam trabalhos destes artistas.
O Outfest Los Angeles LGBTQ Film Festival é um dos eventos mais consagrados do mundo que aborda temáticas LGBTQIA+ e promove a igualdade por meio de narrativas criativas. Neste ano, acontecerá entre os dias 14 e 24 de julho, com exibições presenciais e virtuais.
Para esta 40ª edição, mais de 200 títulos, de 29 países, serão exibidos. O filme de abertura será o romance Tudo é Possível, no original Anything’s Possible, dirigido por Billy Porter, conhecido pela série Pose. Já na noite de encerramento, será exibido o suspense They/Them, de John Logan, em estreia mundial.
Neste ano, o cinema brasileiro se destaca com diversas produções, entre elas, o longa Os Primeiros Soldados, de Rodrigo de Oliveira, na mostra Narrative Features. O filme, que já está em cartaz nos cinemas, se passa no começo dos anos 1980, em Vitória, Espírito Santo, e acompanha membros da comunidade LGBTQIAP+ que buscam formas de resistir à epidemia de AIDS. O elenco conta com Johnny Massaro, Renata Carvalho, Vitor Camilo, Clara Choveaux, Alex Bonin, Higor Campagnaro, entre outros.
Ainda na mesma mostra, o brasileiro Marte Um, de Gabriel Martins, que foi exibido no Festival de Sundance deste ano, ganha destaque. O filme retrata uma família negra de classe média baixa, que vive às margens de uma grande cidade brasileira após a decepcionante posse de um presidente de extrema direita. O elenco conta com Rejane Faria, Carlos Francisco, Camilla Damião e Cícero Lucas.
Cena do curta paraibano Adão, Eva e o Fruto Proibido, de R.B. Lima.
O terceiro longa brasileiro selecionado para a mostra Narrative Features foi Três Tigres Tristes, de Gustavo Vinagre, grande vencedor do Teddy Award deste ano. A trama mostra jovens queer em São Paulo desafiando tanto o vírus quanto o fracasso político de seu governo. O elenco conta com Pedro Ribeiro, Jonata Vieira e Isabella Pereira; com participações especiais de Cida Moreira, Carlos Escher, Víctor Ivanon, Julia Katharine, Gilda Nomacce, Majeca Angelucci, Nilceia Vicente, Everaldo Pontes, Gabriel Stippe, Inês Brasil, Filipe Rossato e Lizette Negreiros.
Na mostra Short Films, o cinema brasileiro marca presença com: o curta-metragem paraibano Adão, Eva e o Fruto Proibido, de R.B. Lima, com Danny Barbosa, Lay Gonçalves, Manoa Vitorino, Margarida Santos e William Cabral; e com o premiado Uma Paciência Selvagem me Trouxe Até Aqui, de Érica Sarmet, que traz Zélia Duncan, Bruna Linzmeyer, Camila Rocha, Clarissa Ribeiro e Lorre Motta no elenco.
Outro destaque nacional é o documentário Uýra – A Retomada da Floresta, de Juliana Curi, uma coprodução com Estados Unidos, na mostra Documentary Features. Nesta odisseia poética e visualmente hipnótica pela floresta amazônica, o artista indígena Uýra aproveita o poder de interconexão de suas identidades nativas, queer e trans para abrir um caminho de ativismo ecológico e orgulho LGBTQ+ em grandes cidades e pequenas aldeias.
A programação conta também com estreias mundiais, entre elas: o documentário Stay on Board: The Leo Baker Story, dirigido por Nicola Marsh e Giovanni Reda; o suspense Phea, de Rocky Palladino, protagonizado por Sherika Sherard; a comédia Youtopia, dirigida por Scout Durwood; o documentário Art and Pep, de Mercedes Kane; entre outros.
Nesta edição de aniversário, o Outfest Los Angeles LGBTQ Film Festival também realizará uma exibição especial do drama Longe do Paraíso, de Todd Haynes, protagonizado por Julianne Moore, que completa 20 anos de seu lançamento.
Elenco: Michelle Yeoh, Ke Huy Quan, Stephanie Hsu, Jamie Lee Curtis, James Hong, Tallie Medel, Jenny Slate, Harry Shum Jr., Biff Wiff, Sunita Mani, Aaron Lazar, Brian Le, Andy Le, Narayana Cabral, Chelsey Goldsmith, Craig Henningsen, Anthony Molinari, Dan Brown, Anthony Nanakornpanom, Cara Marie Chooljian, Randall Archer, Efka Kvaraciejus, Peter Banifaz, Audrey Wasilewski, Li Jing, Dylan Henry Lau, Peter Boon Koh, Timothy Eulich, Daniel Scheinert, Michiko Nishiwaki, Jane Lui, Jason Hamer, Timothy Ralston, Hiroshi Yada, Elle Alexander, Emmett Ferguson, Freya Fox, Waymond Lee, Amanda MacLeod, Randy Newman, Pablo Ramos, D.Y. Sao.
Ano: 2022
Sinopse: Evelyn Wang é uma imigrante chinesa que se envolve por acaso em uma aventura multidimensional que coloca o destino de todos os universos em suas mãos; e também a faz questionar quem ela é para si mesma e sua família. As realidades estão se fundindo, e a linha entre o normal e o insano está prestes a desaparecer.
O documentário revisita a passagem de Orson Welles por Fortaleza.
Depois de passar por mais de 20 festivais em 10 países, o longa-metragem cearense A Jangada de Welles chega aos cinemas a partir desta quinta-feira, 23/06. O documentário, dirigido por Firmino Holanda e Petrus Cariry, retorna à fascinante experiência de Orson Welles no Brasil durante a gravação de It’s All True, especificamente a passagem do cineasta pela praia de Iracema e dunas do Mucuripe, em Fortaleza, em junho de 1942.
As filmagens, também lembradas pela trágica morte do jangadeiro cearense Manuel Jacaré, no Rio de Janeiro, se estenderiam pelo mês de julho na capital cearense, com imagens ainda sendo posteriormente registradas em Recife e Salvador.
Firmino Holanda, pesquisador e autor do livro Orson Welles no Ceará, afirma que Welles, antes de filmar em Fortaleza, já contava com as imagens cariocas que recriavam a chegada da jangada São Pedro ao Rio de Janeiro, tripulada por Manuel Jacaré, Jerônimo, Tatá e Manuel Preto. Este fato histórico ocorrera no ano anterior, em 15 de novembro de 1941, depois de 61 dias de travessia pelo mar Atlântico. A viagem, que chamou atenção de Welles, através da revista norte-americana Time, pela determinação dos envolvidos, os levou até o presidente Getúlio Vargas, para apresentar-lhe reivindicações trabalhistas da classe.
Vindo ao Brasil para registrar um segmento sobre carnaval carioca, Welles decidiu encontrar e filmar esses jangadeiros, criando um outro episódio para o longa It’s All True. Neste, a comunidade de pescadores, em Fortaleza, colaborou com a produção, fornecendo intérpretes principais e figurantes, engajando-se no movimento encabeçado pelo cineasta americano.
“Em 19 de maio de 1942, durante os trabalhos no Rio de Janeiro, então capital do Brasil, um acidente tirou a vida de Jacaré, que sumiu nas águas do mar. Welles, que muito o admirava, sentiu-se mais ainda obrigado a concluir seu episódio, isto quando os produtores já demonstravam desinteresse pelo projeto It’s All True, de modo geral. Isidro, irmão do desaparecido herói jangadeiro, o substituiu discretamente nas imagens feitas no Ceará, a partir de junho de 1942, atuando ao lado de Manuel Preto, Tatá e Jerônimo”, lembra Firmino.
A comunidade de pescadores, em Fortaleza, colaborou com a produção.
Holanda ainda ressalta que a equipe de Welles veio a Fortaleza bastante reduzida, formada pelo assistente Richard Wilson, sua esposa Elizabeth Wilson e a secretária Shifra Haran. Técnicos ligados à produtora carioca Cinédia, que cedeu a câmera principal utilizada, também participaram, sendo estes o diretor de fotografia George Fanto, seu assistente Reginaldo Calmon e Roberto Cavalieri, responsável pelo som guia.
“A gravação ainda contou com o apoio da Aba Film, empresa de Adhemar Bezerra Albuquerque, pioneiro do cinema cearense, que emprestou uma outra câmera para o filme, mais leve, que posteriormente se perderia no mar. Juntaram-se também ao grupo visitante o fotógrafo still Chico Albuquerque e a educadora Aída Balaio, que colaborou nos contatos no Mucuripe e na tradução, para que Welles se comunicasse com os intérpretes locais”, continua.
Essa não é a primeira vez que Holanda e Cariry se debruçam na coleta de depoimentos e de imagens de arquivo para falar sobre a jornada de Welles no Brasil. Em 2005, os dois dirigiram o média-metragem para a televisão Cidadão Jacaré, projeto do Programa de Fomento à Produção e Teledifusão do Documentário Brasileiro (DOCTV). Para Cariry, esse passo inicial foi muito importante não apenas para se conectar com os registros históricos sobre Welles no Brasil, mas também na parceria que seria construída com Holanda.
“Desde então, passamos a trabalhar juntos em diversos projetos dirigidos por mim, tanto de curta quanto de longa-metragem, em que ele colabora e assina também como roteirista e montador de vários deles. Poder ampliar a nossa visão sobre Welles no Ceará em A Jangada de Welles foi mais um desafio para o nosso trabalho em dupla, um esforço de pesquisa imenso para tentar mergulhar nessa história com a ajuda de estudiosos, intelectuais, participantes originais das filmagens e parentes do próprio Jacaré”, finaliza Cariry.
Com distribuição da Sereia Filmes, o longa foi premiado na 24ª edição do FAM, Florianópolis Audiovisual Mercosul, e exibido em diversos países, como, Estados Unidos, Chile, Espanha, Portugal, Argentina, França, Colômbia, Reino Unido.
Cena do curta Política e Tradição-Carta Kuikuro, de Marrayury Jair Kuikuro.
A 17ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto acontecerá entre os dias 22 e 27 de junho em formato híbrido com uma seleção de 151 filmes, entre pré-estreias contemporâneas e mostras temáticas. Serão exibidos 20 longas, 14 médias e 117 curtas-metragens, vindos de 8 países e de 21 estados brasileiros, distribuídos em oito mostras: Contemporânea, Homenagem, Preservação, Histórica, Educação, Mostrinha e Cine-Escola.
A programação, ao longo de seis dias de evento, contará também com debates, seminários e atividades complementares que dialogam diretamente com a experiência dos filmes. As exibições acontecem no Centro de Artes e Convenções e na Praça Tiradentes, em Ouro Preto, e também on-line no site oficial.
O recorte da Mostra Histórica deste ano se dá a partir da proposição Cinemas Indígenas: Memórias em Transmissão. Nos últimos 20 anos, vivencia-se uma transição progressiva para a autocriação de filmes de povos indígenas, sem interferências de não-indígenas na construção da estética e da linguagem, o que traz a percepção e recepção cada vez mais amplas das singularidades formais dessa produção. A curadoria de Cleber Eduardo atentou para isso e fez seu recorte a partir dessa autêntica novidade no cenário de produção brasileiro. Houve o movimento deliberado de se evitar um recorte puramente histórico, como se convencionou em outras edições, e priorizar universos fílmicos que soassem mais urgentes e palpitantes.
“Foi como cheguei na produção indígena, ao perceber que ela sempre foi tratada um tanto na paralela do cinema brasileiro, e nunca tanto agregada ao cinema brasileiro. Então me interessava mergulhar nesses filmes e detectar mudanças de fases e traços de singularidade ou, no nosso palavrório branco-ocidental, alguma autoralidade”, comentou o curador. Da empreitada, ele recortou 35 títulos que estão na programação da CineOP, de 17 povos distintos: “O que vejo nessa programação são dois grandes grupos de filmes muito particulares: os que giram em torno da terra, do território, das demarcações, das invasões, nos quais a presença branca é sempre o inimigo, sejam atritos do passado ou do presente; e os que trabalham a resistência de certas tradições, rituais e reelaborações identitárias a partir de suas espiritualidades”.
A partir disso, Cleber elaborou títulos para as sessões: Políticas da imagem e terras em disputa, que inclui filmes como Já me Transformei em Imagem, de Zezinho Yube, e Zawxiperkwer Ka’a – Guardiões da Floresta, de Jocy Guajajara e Milson Guajajara; e Mitos, espíritos e a vida, que conta com trabalhos como Nguné Elu: O Dia em que a Lua Menstruou, de Takumã Kuikuro e Maricá Kuikuro, e Watoriki Xapiripë Yanopë: Casa dos Espíritos, de Morzaniel Iramari e Dário Kopenawa. Entre os curtas, destaque para a premiada animação Mãtãnãg, A Encantada, de Shawara Maxakali e Charles Bicalho.
A homenagem à dupla de cineastas M’bya Guarani, Kuaray (Ariel Ortega) e Pará Yxapy (Patrícia Ferreira), inclui diversos filmes realizados por eles, incluindo os títulos da abertura oficial, na noite de 23 de junho: Bicicletas de Nhanderú e o curta-metragem Nossos Espíritos Seguem Chegando – Nhe’e Kuery Jogueru Teri.
Cena do curta cearense Primos, de Daniel Pustowka.
Os filmes da Mostra Preservação se atentam aos trabalhos audiovisuais que, como definido por uma das curadoras, Fernanda Coelho, são “objetos de memória, que são estudados para educar e fazer história, que perpetuam suas reflexões”. Para Fernanda e Daniela Giovana Siqueira, também curadora, a temática Memória audiovisual no Brasil: resistência e resiliênciano tempo permitiu a elas que, a partir da questão indígena como símbolo de luta e permanência no tempo, descobrissem um universo grande e invisibilizado: “Entramos em contato com a produção de periferias, de imigrantes, de MST, que se espalharam pelas sessões e pelas mesas de debate. Uma produção que não é tão visível como os filmes mais ‘oficiais’, e sim de grupos invisibilizados”, disse Fernanda.
Serão então tratados e exibidos na CineOP filmes de núcleos ligados a povos indígenas, movimento de sem-terra, LGBTQIA, imigantes, comunidades, movimentos negros e outros: “Temos duas vertentes: trazer as pessoas que estão pensando em guardar e preservar essas produções; e a preocupação técnica de como fazer isso”, concluiu.
Na programação de filmes da Preservação, o público tomará contato com alguns trabalhos que nem mesmo a autoria se faz conhecida, por se apresentarem como formas de registro fora dos cânones, como é o caso de Viagem a Manaus (título atribuído, direção desconhecida), que integra o programa de cinco filmes silenciosos em bitola 9,5mm do acervo do Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual da Universidade Federal Fluminense, digitalizados pelo próprio Lupa-UFF, entre 2021 e 2022, a partir da constituição de uma estrutura interna para digitalização de filmes de arquivo.
Além destes, a Mostra Preservação traz à luz processos de restauração e resgate de filmes importantes, ou que tenham a memória como elemento constituinte de sua feitura, como São Paulo em Hi-Fi, de Lufe Steffen, que resgata histórias das noites gays em São Paulo nas décadas de 1960, 1970 e 1980 e a relação com a ditadura e a explosão do vírus HIV; Cine Marrocos, de Ricardo Calil, no qual tem-se a história de sem-teto, refugiados africanos e imigrantes latino-americanos que ocuparam o prédio de um antigo cinema do centro de São Paulo e o processo artístico que os transformou em estrelas de cinema; e o curta-metragem Confissões Documentais, de Lúcio Vilar, que mostra um diálogo entre os cineastas Linduarte Noronha, de Aruanda, e João Batista de Andrade, de Liberdade de Imprensa, que se encontraram pela primeira e única vez em dezembro de 2007, em João Pessoa, na Paraíba.
Por fim, há a sessão especial de História da Guerra Civil, de Dziga Vertov e Nikolai Izvolov, que recupera um dos filmes perdidos da Rússia pós-revolução e dirigido por um de seus maiores nomes. Conecta-se ainda a essa exibição o case de restauro on-line: A Guerra Civil na Rússia pela câmera de Dziga Vertov e o restauro do filme 100 Anos Depois com Nikolai Izvolov, responsável pela organização, reconstituição e restauração da obra.
Este ano acontece, na Mostra Educação, houve um movimento de aproximar o cinema ameríndio dos processos educacionais num momento de “audiovisualização da vida” por conta da pandemia, como afirma Adriana Fresquet, curadora, junto com Clarisse Alvarenga. Entre os selecionados, destaque para o curta Antígona 442 a.C. – Prólogo, de Maurício Farias, e a série La Combi del Arte: Dicionários Audiovisuais Comunitários, desenvolvido pela convidada peruana Teresa Castillo com o objetivo de revitalização das línguas indígenas: “Ela viaja produzindo, com as comunidades nativas, uma série de ações para fortalecer e revitalizar as respectivas línguas a partir do aprendizado e técnicas audiovisuais”, conta Fresquet. Parte desse trabalho de Castillo será apresentado nas sessões dos Dicionários na CineOP, assim como na masterclass da própria realizadora.
A presença do documentarista e professor boliviano Miguel Hilari inclui na CineOP alguns de seus trabalhos mais essenciais: O Curral e o Vento (2014), que se conecta à origem aymara do cineasta por meio de imagens e sons que evocam o tempo e espaço andinos; e Companhia (2019) e Bocamina (2020), de clara inspiração nas suas origens e na defesa da educação do campo. “Ele estará conosco também contando seus processos de criação e os processos de formação que realiza com jovens na Bolívia”, adianta Adriana Fresquet.
Ainda conectada a atividades extras, no caso, a masterclass da professora e realizadora argentina Aldana Loiseau sobre processos de criação envolvendo a técnica da animação, em que os elementos a serem animados estão vinculados à terra, haverá também as sessões de filmes Tierra Animada e Pacha: Somos Barro, que mostram seus trabalhos em stop motion.
Renata Carvalho no longa Os Primeiros Soldados, de Rodrigo de Oliveira.
Os filmes da Mostra Contemporânea tiveram curadoria de Camila Vieira, a partir de mais 1.000 curtas inscritos e 57 médias, dos quais estarão em Ouro Preto 28 curtas e um média, incluindo três sessões na Praça, espaço tradicional das exibições na CineOP. Numa relação com a temática geral do evento, a curadoria selecionou, em especial para a praça, documentários em torno de personagens que contam a história de um lugar ou de lutas, como Santo Rio, de Lucas de P. Oliveira e Guilherme Nascimento, que resgata São Sebastião do Soberbo, comunidade destruída para a construção da Usina Hidrelétrica Candonga, em Minas Gerais. Ou Central de Memórias, de Rayssa Coelho e Filipe Gama, sobre quatro mulheres de um bairro de Vitória da Conquista, na Bahia, e o encontro com o universo do cinema nos anos 1990.
Outros curtas que se destacam na Mostra Contemprânea são: A Ordem Reina, de Fernanda Pessoa; Vermelho Guanabara, de Andrea França; Através dos Sentidos, de Gilson Nascimento; Tecido, Sigilo, de Lucílio Jota; Armarinho Aracy, de Camila Matos; Madá, de San Marcelo; Primos, de Daniel Pustowka; Super Panc Me, de Marcus Vinícius Oliveira, entre outros.
Camila também destaca documentários que recuperam lembranças de famílias a partir de registros domésticos: “São atravessamentos que tentam restaurar relações que já se foram e são reconstruídas pela experiência dos filmes”, disse. Entre esses trabalhos, estão Sei que é Tudo Memória, de Nathália Oliveira, no qual a diretora faz um processo de luto e afirmação da vida a partir da morte dos pais; e O Lugar que Somos, de San Marcelo, em que a personagem se vê num dilema, após ser demitida, entre o sonho de ser dançarina profissional ou ficar perto da família e enfrentar os problemas diários agravados pela condição física da mãe.
“Para a programação on-line da mostra, pois parte da programação será híbrida, temos duas sessões de recorte mais conceitual”, adianta Camila Vieira. Ela se refere à sessão Preservar a História e seus Registros, composta por cinco curtas-metragens: Quem de Direito, de Ana Galizia; Ressaca, de Andrea França; Ensaio sobre Abismos ou as Imagens que Resgastei de Algum Lugar da Minha Mente, de Rafael Luan; Carta para Glauber, de Gregory Baltz; e Cinzas Digitais, de Bruno Christofoletti Barrenha.
A CineOP sempre procura valorizar em sua programação filmes realizados em outras décadas e contextos históricos do século XX no cinema brasileiro e busca enfatizar na programação contemporânea os longas-metragens com foco direto ou indireto em momentos anteriores da sociedade. A programação contemporânea desta edição é conduzida por esta perspectiva de um olhar do presente para os rastros da(s) história(s) e suas possibilidades de regeneração e persistência no tempo e na matéria.
Serão exibidos dez longas-metragens, seis deles presencialmente em Ouro Preto e quatro disponibilizados virtualmente. É um conjunto bastante heterogêneo a partir dessa premissa mais óbvia ou mais tênue de relação com outro momento histórico. São eles:
A Mãe de Todas as Lutas, de Susanna Lira Adeus, Capitão, de Vincent Carelli e Tatiana Almeida (filme de encerramento) Belchior – Apenas um Coração Selvagem, de Natália Dias e Camilo Cavalcanti Bem-Vindos de Novo, de Marcos Yoshi Glauber, Claro, de César Meneghetti Katharsys, de Roberto Moura O Bom Cinema, de Eugenio Puppo Os Primeiros Soldados, de Rodrigo de Oliveira Quem Tem Medo?, de Dellani Lima, Henrique Zanoni e Ricardo Alves Jr. Tempo Ruy, de Adilson Mendes
Novamente em parceria com a TV UFOP, a 17ª CineOP conta ainda com duas sessões de curtas brasileiros realizados em universidades, escolas de cinema ou núcleos de formação em audiovisual, apresentados na plataforma do evento e na grade da TV UFOP.
Espaço de confraternização e aprendizado entre estudantes a partir do cinema, o Cine-Escola segue no objetivo de formação de novos públicos e olhares para a produção. As sessões contam com curtas adequados para cada uma das faixas etárias montadas na seleção: entre 5 e 7 anos; de 8 a 10 anos; e entre 11 e 13 anos. Entre os selecionados da mostra Cine-Escola, destacam-se os curtas: Vivências, de Everton Amorim; Aurora – A Rua que Queria Ser um Rio, de Radhi Meron; Rua Dinorá, de Natália Maia e Samuel Brasileiro; entre outros.
A sessão Mostrinha tem objetivo similar, incluindo pais e familiares que estejam em Ouro Preto para poderem acompanhar a programação com os pequenos. Esse ano o filme será Poropopó, de Luis Antonio Igreja, acompanhado de um show de mágica com a Família Kradyn.
Durante seis dias de evento, o público terá oportunidade de vivenciar um conteúdo inédito, descobrir novas tendências, assistir aos filmes, curtir atrações artísticas, trocar experiências com importantes nomes da cena cultural, do audiovisual, da preservação e da educação, participar do programa de formação e debates temáticos de forma gratuita.
Clique aquie confira a seleção completa dos filmes selecionados para a 17ª CineOP.
Elenco: Marcos Mion, Chris Evans, César Marchetti, Peter Sohn, Flora Paulita, Keke Palmer, Henrique Reis, Taika Waititi, Lúcia Helena Azevedo, Dale Soules, Adriana Pissardini, Uzo Aduba, James Brolin, Carlos Campanile, Tati Keplmair, Francisco Júnior, Dláigelles Silva, Yuri Chesman, Gauco Marques, Beatriz Singer, Mary McDonald-Lewis, Isiah Whitlock Jr., Angus MacLane, Bill Hader, Efren Ramirez, Keira Hairston.
Ano: 2022
Sinopse: A animação acompanha o lendário patrulheiro espacial Buzz Lightyear após ser abandonado no planeta hostil a 4,2 milhões de anos-luz da Terra, T’Kani Prime, ao lado de sua comandante e sua equipe. Enquanto Buzz tenta encontrar um caminho de volta para casa através do espaço e tempo, um grupo de recrutas ambiciosos e o encantador gato-robô de companhia, Sox, se juntam ao herói. Para complicar a situação, Zurg, uma presença imponente, e seu exército de robôs impiedosos chegam no planeta com um compromisso misterioso.
João Cândido no curta Condomínio Fechado, realizado pela Oficina Documentando.
A sexta edição do Cine Sítio, que acontecerá entre os dias 16 e 18 de junho, no município de Nazarezinho, alto sertão da Paraíba, celebra o retorno das atividades depois de um período de pausa. O festival itinerante apresenta o universo do audiovisual para os sítios Caiçara, Cedro do Luiz e Cedro de Cima.
O Cine Sítio nasceu da necessidade de levar a sétima arte para os confins do sertão rural, lugares improváveis e geralmente esquecidos das rotas culturais de forma geral. A iniciativa do cineasta Ramon Batista e da produtora cultural Iris Mendes é democratizar com a população rural as produções realizadas dentro e fora da Paraíba, inclusive do próprio sertão, como forma de fazer entender que é possível sonhar e realizar produções audiovisuais, mesmo morando entre serras e silêncios prolongados.
Com curadoria do professor e cineasta Bertrand Lira e produção da também professora e cineasta Veruza Guedes, o evento vai além das exibições de filmes. A programação conta com três oficinas realizadas nas escolas de Nazarezinho: Fazendo Filmes Curtíssimos, com o cineasta Marcelo Quixaba; O uso de filmes em sala de aula, ministrada por Orlando Junior; e Entendendo o cinema 3D e produzindo óculos para exibições, com Adilson Barros. A arte desta edição foi criada por Getúlio Saviano e remete à casa onde viveu o cangaceiro Chico Pereira, que é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico da Paraíba e localizada na Fazenda Jacu, em Nazarezinho; esta construção ajuda a contar a história do cangaço no estado.
O Cine Sítio, assumindo o compromisso de divulgar notáveis obras de cineastas paraibanos e não paraibanos, traz visibilidade e atua como uma importante vitrine para estes profissionais. Além disso, a democratização do acesso à cultura através da gratuidade de todas as ações promovidas pelo evento, como parte de uma iniciativa voltada para formação do público, o Cine Sítio amplia sua audiência através de parcerias formadas com escolas públicas e privadas da rede de ensino da cidade de Nazarezinho; levando alunos do ensino fundamental e médio para sessões exclusivas, de caráter lúdico e educativo, com conteúdo específico para cada faixa etária.
Além dos filmes, a programação traz também diversas atrações especiais, como: exposição fotográfica Moagem, de Ramon Batista; apresentação musical com a dupla de violeiros Ivanildo Vila Nova e Raimundo Caetano; apresentação de Iponax Vila Nova; apresentação teatral Torturas de um Coração, do Grupo Teatro Oficina; palestra Os Desafios da produção cultural no sertão: do financiamento à divulgação, com Laércio Ferreira; apresentação musical de Bichara do Acordeon e Forrozão Xote Bom; além de uma homenagem à produtora cultural Iris Mendes.
Conheça os filmes que serão exibidos no Cine Sítio 2022:
DIA 1 – 16/06 (quinta-feira) SÍTIO CEDRO DO LUIZ
Cabocolino, de João Marcelo (PE) Derradeiro de Maio, de Eduardo Consonni e Rodrigo T. Marques (SP) No Oco do Tempo, de Antonio Fargoni (PB) Nonna, de Maria Augusta V. Nunes (SC) Rasga Mortalha, de Pattrícia de Aquino (PB)
DIA 2 – 17/06 (sexta-feira) SÍTIO CEDRO DE CIMA
Cine Aurélio, de Kennel Rógis (PE) Condomínio Fechado, de Oficina Documentando (PB) Nem Todas as Manhã são Iguais, de Fabi Melo (PB) Remoinho, de Tiago A. Neves (PB) Terra Vermelha, de Allan Marcus e Leonardo Gonçalves (PB) Uma Passagem em 3 Tempos, de Rebeca Souza (PB)
DIA 3 – 18/06 (sábado) SÍTIO CAIÇARA
Cercas, de Ismael Moura (PB) Quitéria, de Tiago A. Neves (PB) Reinado Imaginário, de Hipólito Lucena (PB) Shakti, de Ricardo Peres (SP) Um Som de Resistência, de Genilson de Coxixola (PB) Uma Aventura na Caatinga, de Laércio Ferreira (PB) Uma Noite no Sítio, de Lucas Galvão (PB)