
Exibido na mostra Panorama do Festival de Berlim e consagrado como melhor filme no Festival de Brasília, Se Eu Fosse Vivo… Vivia, de André Novais Oliveira, aprofunda uma investigação pessoal e cinematográfica sobre o luto, a passagem do tempo e os mistérios da ausência articulando elementos autobiográficos, fantasia e observação do cotidiano.
Ambientado entre o Brasil dos anos 1970 e os dias atuais, o filme acompanha a história de Gilberto e Jacira, um casal que atravessa cinco décadas de vida em comum. Quando Jacira é subitamente internada, Gilberto passa a vivenciar acontecimentos perturbadores, numa espiral que atravessa o tempo e o espaço, e que o conduzem a uma experiência profunda de memória e amor. O longa transita entre o drama íntimo, a comédia de costumes e elementos inesperados da ficção científica, mantendo o olhar sensível para o cotidiano, característica da obra do diretor.
Um dos destaques da seleção da 50ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o longa foi exibido neste domingo, 18/10, no Espaço Petrobras de Cinema, e contou com a presença do diretor: “Essa é a primeira exibição em São Paulo. Estou muito curioso para saber o que vocês vão achar do filme”, disse em seu discurso na apresentação da sessão.
A obra marca a estreia da lendária escritora Conceição Evaristo no cinema, em uma atuação de forte presença e delicadeza, ao lado de Norberto Novais Oliveira, pai do diretor e protagonista de diversos filmes recentes do cinema brasileiro. O elenco conta ainda com Jean Paulo Campos e Tainá Evaristo, que interpretam o casal em sua juventude, além de participações de Wilson Rabelo, Aisha Brunno, Demétrio Nascimento, Suellen Sampaio e Zora Santos.
Produzido pela Filmes de Plástico, em coprodução com o Canal Brasil, e distribuído no Brasil pela Malute, o filme foi rodado em cidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte, como Contagem e Belo Horizonte, além de Itaúna, Matozinhos e Pedro Leopoldo. Na equipe, estão a diretora de fotografia Leonor Teles, vencedora do Urso de Ouro em Berlim pelo curta Balada de um Batráquio; o diretor de arte Diogo Hayashi; a figurinista Diana Moreira; o premiado desenhista de som Pablo Lamar; e a trilha sonora original assinada pelo grupo Metá Metá. A montagem é dividida entre Gabriel Martins e o próprio André Novais Oliveira.
Conceição Evaristo e Norberto Novais Oliveira em Se Eu Fosse Vivo… Vivia
Depois da primeira exibição na Mostra de São Paulo, André Novais Oliveira participou de um bate-papo com o público e debateu sobre o longa: “A estrutura desse roteiro é bem específica e foi construída aos poucos. O início da ideia parte do luto do falecimento da minha mãe, em 2018. Em 2019, comecei a esboçar algumas ideias entre muitas conversas com o Thiago [Macêdo Correia], que é produtor do filme. Foram muitas trocas. Algumas coisas foram surgindo a partir dessas conversas, como a questão da ficção científica. A ideia se aproxima muito do que eu já fiz. Essa questão do realismo fantástico, por exemplo, se aproxima um pouco do Quintal [curta-metragem dirigido por André em 2015]. Fui misturando tudo e pensando na estrutura em si”.
Na conversa, o cineasta também falou do trabalho com a diretora de fotografia Leonor Teles: “Foi bem legal trabalhar com ela. Eu já acompanhava seu trabalho, como o curta Balada de um Batráquio, que é todo em 16 mm. Desde o início, a intenção era filmar o prólogo do filme em 16 mm. Só que tinha a questão financeira e achamos que não daria. Mas deu certo e com essa experiencia da Leonor foi tudo muito prazeroso. Pensamos muito juntos. Vimos muitas coisas brasileiras dos anos 1960 e 1970 realizadas em 16 mm. Conversamos também sobre a câmera na mão, pois eu sempre fui mais da decupagem com planos mais fixos. Mas, a visão dela foi muito legal. Ela tem essa visão de diretora porque além da fotografia, também dirige filmes. Foi ótimo conhecer o processo que ela trabalha e a visão dela de mundo. Foi uma experiencia muito boa”.
O diretor também falou de suas escolhas artísticas: “O meu curta Quintal, que está no YouTube, tem a presença do realismo fantástico. Sempre achei interessante quando acontecem coisas fantásticas dentro de uma narrativa cotidiana, naturalista às vezes… e de repente dar um choque nisso. E muitas vezes isso se torna cômico. Fiquei pensando em coisas de realismo fantástico que seguem a narrativa e causam estranheza, um choque. A ficção científica entra como uma forma de falar do luto, mesmo sendo algo tão natural. Pra mim, passar por um luto vira algo irreal e, por isso, no filme, cabem muitas coisas irreais. Uma espécie de metáfora para falar da morte com esses códigos”.
Para finalizar, falou da escolha da música As Dores do Mundo, do cantor e compositor Hyldon, na trilha sonora: “A música foi usada basicamente por causa da cena da dança no baile e a letra também tem um pouco a ver com isso. E sempre foi uma música que eu gostei de escutar e meu pai também”.
Além do Candango de melhor filme na 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, Se Eu Fosse Vivo… Vivia também levou os prêmios de melhor roteiro e melhor figurino. O longa terá mais uma exibição na programação da Mostra de São Paulo: dia 27/10, às 13h45, no Espaço Petrobras de Cinema.
Fotos: Mario Miranda Filho/Agência Foto/Janine Moraes.