
A Mostra Internacional de Cinema em São Paulo anunciou os primeiros títulos confirmados e novidades de sua 49ª edição, que acontecerá entre os dias 16 e 30 de outubro e contará com 18 salas em seu circuito exibidor.
Neste ano, o longa-metragem Sirât, de Oliver Laxe, vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes, vai abrir a 49ª edição. A cerimônia de abertura acontecerá na Sala São Paulo, na Praça Júlio Prestes, com apresentação de Renata de Almeida e Serginho Groisman. O evento contará com a presença de profissionais do setor audiovisual, autoridades e patrocinadores. As atrizes Stefania Gadda e Jade Oukid, que atuam no filme, também estarão presentes na sessão especial.
A produção, distribuída no Brasil pela Retrato Filmes, acompanha um pai e um filho que chegam a uma rave nas montanhas do Marrocos. Ambos estão em busca de Mar, filha e irmã, que desapareceu meses antes em uma dessas festas intermináveis. Cercados por música eletrônica e por uma sensação crua e desconhecida de liberdade, eles saem distribuindo a foto da jovem. A esperança vai se apagando, mas os dois persistem e seguem um grupo de frequentadores rumo a uma última festa no deserto. À medida que avançam por um cenário escaldante, a jornada os obriga a confrontar os próprios limites.
Vale destacar que Sirât foi escolhido pela Espanha para disputar uma vaga no Oscar 2026 na categoria de melhor filme internacional. O diretor Oliver Laxe nasceu na França em 1982 em uma família de imigrantes espanhóis. Os longas anteriores do cineasta foram exibidos na Mostra: Todos são Capitães (2010), na 34ª edição; Mimosas (2016), na 40ª edição; e O que Arde (2019), na 43ª edição. Além da sessão de abertura, Sirât terá exibições comerciais durante o festival.
Outro destaque internacional da programação é Bugonia, do diretor grego Yorgos Lanthimos. Distribuída no Brasil pela Universal Pictures, a obra estreou mundialmente na competição do Festival de Veneza e acompanha dois jovens obcecados por teorias da conspiração que sequestram a poderosa CEO de uma grande empresa, convencidos de que ela é uma alienígena prestes a destruir o planeta Terra. No elenco estão Emma Stone, Jesse Plemons, Aidan Delbis, Stavros Halkias e Alicia Silverstone.
A 49ª Mostra de São Paulo amplia sua programação com a exibição dos novos trabalhos de dois realizadores contemporâneos fundamentais, reforçando o papel do evento como ponto de encontro de diferentes cinematografias e olhares artísticos: Richard Linklater e Radu Jude.
Em Nouvelle Vague, exibido nos festivais de Cannes e San Sebastián, Linklater homenageia Jean-Luc Godard e o movimento cinematográfico francês, recriando o processo de filmagem de Acossado (1960) no mesmo espírito inventivo que revolucionou o cinema. O longa será distribuído no Brasil pela Mares Filmes em parceria com a Alpha Filmes. Já em Blue Moon, Linklater retorna ao cinema de personagens em crise existencial, construindo um retrato do compositor Lorenz Hart (Ethan Hawke), da dupla Rodgers & Hart, em uma noite de 1943 marcada pelo contraste entre a glória de Richard Rodgers (Andrew Scott) e a derrocada pessoal de seu antigo parceiro artístico. Pela interpretação, Scott venceu o prêmio de melhor ator coadjuvante do Festival de Berlim; a Sony é a distribuidora do filme no Brasil.
Jesse Plemons em Bugonia, de Yorgos Lanthimos
A Mostra também apresentará Dracula, do romeno Radu Jude, considerado um dos realizadores mais instigantes do cinema europeu atual. Dono de uma obra que articula experimentação estética e crítica social, ele coleciona prêmios em festivais internacionais. No longa, que estreou no Festival de Locarno, com produção da brasileira RT Features e da Saga Film, o cineasta revisita o mito do Drácula em uma colagem radical, que combina caça a vampiros, zumbis, ficção científica e histórias kitsch geradas por inteligência artificial. Ao mesclar gêneros e linguagens, Jude transforma uma das figuras mais icônicas do imaginário popular em ponto de partida para refletir sobre política, cultura e a própria história do cinema.
O outro título do diretor na Mostra, Kontinental ’25, também produzido pela RT e pela Saga, ganhou o Urso de Prata de melhor roteiro no Festival de Berlim. O filme acompanha Orsolya, oficial de justiça em Cluj, principal cidade da Transilvânia, que precisa desalojar um homem em situação de rua. Um acontecimento inesperado desencadeia um dilema moral que orienta o desenvolvimento da trama.
Outra novidade anunciada na Mostra SP: o cartaz conta com arte criada pelo escritor português Valter Hugo Mãe, autor de títulos célebres da literatura contemporânea como A Máquina de Fazer Espanhóis, O Filho de Mil Homens, A Desumanização e Homens Imprudentemente Poéticos (clique aqui e confira). Também artista plástico, Valter tem um trabalho visual que dialoga com o que escreve: é detalhista, cheio de repetições gráficas, obsessões e gestos quase caligráficos que lembram a sua cadência textual. Em desenhos e pinturas, ele explora linhas sinuosas, padrões acumulativos e imagens que evocam tanto o orgânico (plantas, corpos, cabelos, ondas) quanto o imaginário (criaturas, olhos, símbolos).
Renata de Almeida, diretora da Mostra, conta que ao ver o pôster pela primeira vez, de cara, pensou no processo curatorial: “Pensei no trabalho de curadoria como um mar de filmes com algumas pérolas. Porque é justamente esse o trabalho de curadoria que um festival como a Mostra faz”.
A 49ª edição da Mostra também vai exibir De Lugar Nenhum, realizado por Miguel Gonçalves Mendes (conhecido por filmes documentais como José e Pilar, de 2010, e O Sentido da Vida, de 2022), documentário que faz um retrato delicado de Valter Hugo Mãe. O longa-metragem foi filmado durante sete anos e acompanha os processos criativo e de escrita do livro A Desumanização, cuja história se passa na Islândia; Macau, Brasil e Portugal também são cenários da obra, que conta com participações especiais como Dona Antónia, mãe de Valter, e a cartunista Laerte.
Para celebrar Valter Hugo Mãe, a 49ª Mostra ainda vai exibir o longa-metragem O Filho de Mil Homens, da Netflix. Com direção de Daniel Rezende, de Bingo: O Rei das Manhãs e Turma da Mônica: Laços, e protagonizado por Rodrigo Santoro, o filme é uma adaptação do best-seller homônimo do português lançado em 2011 e a primeira obra do autor a ser adaptada para o cinema. A história acompanha Crisóstomo (Santoro), um pescador solitário que sonha em ter um filho. A vida desse homem muda quando ele encontra Camilo (Miguel Martines), um menino órfão que decide acolher. Em uma tentativa de fugir da própria dor, Isaura (Rebeca Jamir) cruza o caminho dos dois, e, em seguida, Antonino (Johnny Massaro), um jovem incompreendido, também se conecta a eles. Juntos, os quatro aprendem o significado de família e o propósito de compartilhar a vida.
A programação da 49ª Mostra segue com filmes inéditos no Brasil, muitos deles premiados nos principais festivais cinematográficos internacionais. Entre as obras já confirmadas para esta edição estão: Sound of Falling, de Mascha Schilinski, vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes e selecionado pela Alemanha para disputar uma indicação ao Oscar de melhor filme internacional; Living the Land, de Meng Huo, que venceu o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim; Urchin, ganhador do prêmio de melhor ator para Frank Dillane da mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes, além do Prêmio da Crítica (a produção marca a estreia na direção do ator Harris Dickinson, de Babygirl e Triângulo da Tristeza); Eddington, dirigido por Ari Aster, que foi exibido na Competição Oficial de Cannes e conta com Joaquin Phoenix, Pedro Pascal e Emma Stone no elenco; e La Petite Dernière, de Hafsia Herzi, que levou o prêmio de melhor atriz para Nadia Melliti no Festival de Cannes, além da Palma Queer.
Josh O’Connor e Paul Mescal em A História do Som
Também integram a programação: No Other Choice (Eojjeol suga eopda), de Park Chan-wook, premiado no Festival de Toronto; A História do Som (The History of Sound), de Oliver Hermanus, com Paul Mescal e Josh O’Connor, que disputou a Palma de Ouro em Cannes; Mirrors No. 3, novo trabalho do cineasta alemão Christian Petzold, exibido na Quinzena de Cineastas; Dead Souls, de Alex Cox; Eleanor the Great, exibido na mostra Un Certain Regard em Cannes, que marca a estreia da atriz Scarlett Johansson na direção, e conta com June Squibb como protagonista; Atropia, de Hailey Gates, vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance; Dry Leaf, de Aleksandre Koberidze, vencedor do Prêmio FIPRESCI no Festival de Locarno; It Would Be Night in Caracas, de Mariana Rondón e Marité Ugas, exibido no Festival de Veneza na mostra Venezia Spotlight e no Festival de Toronto; Palestine 36, de Annemarie Jacir, com Jeremy Irons no elenco; The President’s Cake (Mamlaket al-qasab), de Hasan Hadi, vencedor do prêmio Caméra d’Or em Cannes; e o romance White Snail, de Elsa Kremser e Levin Peter, premiado nos festivais de Berlim, Locarno e Sarajevo.
Como era de se esperar, a seleção da Mostra também inclui a preservação de grandes obras do cinema por meio de restaurações. Com o apoio de novas tecnologias, o evento preserva a longevidade desses filmes e mantém inúmeras memórias vivas. As obras são: Queen Kelly, de Erich von Stroheim, com Gloria Swanson no elenco; Aniki Bóbó, de Manoel de Oliveira; Crônica dos Anos de Fogo, de Mohammed Lakhdar-Hamina; Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes; Garota de Ipanema, de Leon Hirszman; Lua Cambará: Nas Escadarias do Palácio, de Rosemberg Cariry; Sholay, de Ramesh Sippy; Tônica Dominante, de Lina Chamie; e Um Céu de Estrelas, de Tata Amaral.
A programação documental da 49ª Mostra de São Paulo começa a ganhar forma com os primeiros títulos anunciados, entre eles: Ancestral Visions of the Future, de Lemohang Jeremiah Mosese, exibido na Berlinale; Back Home, de Tsai Ming-liang, que passou pelo Festival de Veneza; Director’s Diary (Zapisnaya knizhka rezhissera), de Aleksandr Sokurov, também exibido em Veneza; Fiume o morte!, de Igor Bezinovic, grande vencedor do Tiger Award e do Prêmio FIPRESCI no Festival de Roterdã e exibido em San Sebastián; Seeds, de Brittany Shyne, vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance e exibido no Festival de Guadalajara; e Sotto le nuvole, de Gianfranco Rosi, vencedor do Prêmio Especial do Júri em Veneza.
Além disso, a Mostra de São Paulo 2025 celebra a trajetória de Charlie Kaufman, roteirista de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, que será homenageado com o Prêmio Leon Cakoff. E mais: a exibição de seu novo curta-metragem, How to Shoot a Ghost, protagonizado por Jessie Buckley e Josef Akiki, está confirmada na programação e Kaufman participará de uma masterclass durante o festival.
A 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo também anunciou a segunda edição da Mostrinha, programa dedicado à infância e à juventude com o objetivo de aproximar crianças e adolescentes do cinema, formando uma nova geração de espectadores. A produção brasileira inédita O Diário de Pilar na Amazônia, de Eduardo Vaisman e Rodrigo Van Der Put, abre a seção voltada ao público infantojuvenil, com uma exibição especial na Sala São Paulo no dia 16 de outubro. Inspirado na série de livros de Flávia Lins e Silva, o filme acompanha Pilar em uma viagem com Breno e o gato Samba pela floresta amazônica, onde eles fazem novos amigos, Maiara e Bira, e vivem várias aventuras. Lina Flor, Miguel Soares, Sophia Ataíde e Thúlio Naab dão vida às crianças. No elenco adulto estão Nanda Costa, Marcelo Adnet, Emílio Dantas e Babu Santana.
Entre os longas-metragens internacionais estão o francês Maya, Me Dê um Título, que o cineasta Michel Gondry fez para a filha. Na obra animada, Maya e o pai, Michel, vivem em países diferentes. Para manter o contato, todas as noites o pai pede à garota: “Maya, me dê um título”. A partir da resposta, ele cria uma pequena animação em que Maya é a heroína. E também Hola Frida, de André Kadi e Karine Vezini, animação franco-canadense sobre a infância da artista plástica Frida Kahlo. A Mostrinha terá ainda um programa especial de curtas-metragens portugueses e britânicos.
Integram a programação da Mostrinha os títulos nacionais inéditos no país: D.P.A. 4: O Fantástico Reino de Ondion, de Mauro Lima, em que os aventureiros Detetives do Prédio Azul encaram mais uma grandiosa missão; e Colegas e o Herdeiro, de Marcelo Galvão, sequência do sucesso Colegas (2012) que segue um grupo de amigos com Síndrome de Down.
Cena da animação Hola Frida, de André Kadi e Karine Vezini
Os brasileiros Criaturas: Uma Aventura entre Dois Mundos, de Juarez Precioso, que acompanha Stela, uma garota que só acredita no que pode ver, ou nem nisso, e Miguel, o irmão, que acredita em tudo, principalmente no que não existe; Papaya, de Priscilla Kellen, animação sobre uma pequena semente de mamão; e Aventuras de Makunáima: Histórias Encantadas da Amazônia, de Chico Faganello, mistura de ficção com documentário sobre Makunáima, que se transforma em bicho e reencontra narrativas ancestrais vivenciadas por crianças; também serão exibidos.
A 2ª Mostrinha homenageia o quadrinista Mauricio de Sousa, que assina o pôster da edição (clique aqui e confira), com a apresentação das obras: Turma da Mônica: Laços (2019), de Daniel Rezende, e Origens (2024), de Rezende e Marina Maria Iorio; além de Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa (2025), de Fernando Fraiha e da cinebiografia inédita do criador dos moradores do bairro do Limoeiro, Mauricio de Sousa: O Filme, de Pedro Vasconcelos e Rafael Salgado. Sousa receberá da 49ª Mostra o Prêmio Leon Cakoff, que reconhece personalidades da cultura e do mercado audiovisual.
O mineiro A Família Dionti (2017), de Alan Minas, que narra as saudades e os amores do garotinho Kelton (Murilo Quirino), e a animação mexicana Viagem Gelada: O Resgate do Urso Polar (2022), de Gabriel Riva Palacio Alatriste e Rodolfo Riva Palacio Alatriste, sobre a missão de Toto, que deve devolver um filhote órfão de urso polar ao seu habitat natural, integram a programação.
Sobre o circuito exibidor desta 49ª edição: onze endereços abrigarão as sessões pagas do evento, totalizando 18 salas. Entre elas estão: Cine Segall, localizado no Museu Lasar Segall; Cinesala; a Sala Petrobras na Mostra e as duas salas da Cinemateca Brasileira; quatro salas do Espaço Petrobras de Cinema, na Rua Augusta; duas salas do Multiplex Marabá e do Reserva Cultural; CineSesc; IMS Paulista; Sato Cinema; Cine Satyros Bijou; e Cultura Artística.
A Mostra é um festival anual e, a cada ano, cinemas entram e saem da programação: “O princípio fundamental para essa parceria é a autonomia da Mostra na programação das salas. Se cada sala fizer exigências (que até prejudicam as outras salas do circuito), isso torna a realização da Mostra inviável. A liberdade curatorial é um princípio básico de qualquer festival. Afinal, um festival dura no máximo 15 dias, e o ano tem 365 dias!”, disse Renata de Almeida, diretora da Mostra.
Os locais com sessões a preços populares são: Biblioteca Roberto Santos, Centro Cultural São Paulo e Spcine Olido. Entre os espaços gratuitos estão 26 unidades dos Centros Educacionais Unificados, os CEUs, e o Centro de Formação Cultural Tiradentes, que exibirão títulos da 2ª Mostrinha. Além disso, a 49ª Mostra terá exibições especiais na Sala São Paulo e no Museu da Língua Portuguesa.
A seleção completa da 49ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo será anunciada no sábado, 04/10, em uma coletiva de imprensa.
Fotos: Divulgação/Star Original Productions.