
Considerado o mais importante festival de cinema da Espanha e um dos mais antigos da Europa, o Festival Internacional de Cinema de San Sebastián é também um dos mais prestigiados do mundo. Seu principal prêmio, a Concha de Ouro, é entregue ao melhor filme em competição da Seleção Oficial.
Nesta 73ª edição, que acontecerá entre os dias 19 e 27 de setembro, o cinema brasileiro marca presença com alguns títulos, entre eles, Dolores, de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes, na mostra Horizontes Latinos, que traz longas inéditos na Espanha, produzidos totalmente ou parcialmente na América Latina, dirigidos por cineastas de origem latina ou que abordem temas sobre comunidades latinas no resto do mundo. O filme parte de um roteiro deixado pelo cineasta Chico Teixeira, falecido em 2019, que tinha no longa a conclusão de sua Trilogia dos Afetos, também, composta por A Casa de Alice (2007) e Ausência (2014).
Na trama, Dolores, interpretada por Carla Ribas (protagonista de A Casa de Alice), é uma mulher que acaba de completar 65 anos e teve um sonho premonitório: abrir um cassino. O problema é que ela já foi viciada em jogos e tem uma relação tensa com a única filha, Deborah (Naruna Costa), mas é próxima da neta, Duda (Ariane Aparecida), que trabalha numa loja de armas, e sonha em se mudar para os Estados Unidos.
Marcelo e Maria Clara, dois cineastas experientes, uniram forças para materializar essa obra e realizar o sonho de Chico: “Ao longo dos anos construímos uma amizade e uma parceria que nasceu antes de mais nada da vontade de fazer cinema. De falar de pessoas, imaginar sentimentos, inventar outras saídas. Me parece que quando as duas pessoas que estão ali querem muito fazer um filme, o trabalho vira um espaço de criação, de alimento, mesmo nas diferenças, de aprendizado. Acho que antes de mais nada nós temos muito respeito um pelo outro, pelo nosso trabalho, pelo trabalho do Chico, pelo cinema”, aponta Maria Clara.
Os diretores, que assinam o roteiro final, contam que Chico, para o filme, partiu de uma profunda pesquisa da realidade para a construção das personagens: “Dolores é uma mulher que transborda encantos e contradições, que enfrenta os desafios da velhice e aposta no tudo ou nada. Apesar da dura rotina na periferia de São Paulo, Dolores se recusa a deixar de sonhar com uma vida melhor. Esse é seu ato de rebeldia”, explica Marcelo.
A direção de fotografia é assinada por Joana Luz, cujo trabalho dá o tom do longa no qual a narrativa transita entre o real e o onírico: “São dois mundos sem barreiras no inconsciente de Dolores. A periferia vira palco de vitórias magnânimas e transformações de realidades. As três gerações, no entanto, terão que ajustar seus sonhos para transformarem juntas o mundo. Não há transformação solitária. Para a gente isso era muito importante, a questão da dialética, no filme”, dizem os diretores.
O elenco também é uma homenagem a Chico, trazendo além de Carla, também Gilda Nomacce (como melhor amiga de Dolores) e Matheus Fagundes (como namorado de Duda), ambos protagonistas de Ausência. Maria Clara e Marcelo comentam que Chico ainda não tinha pensado no elenco: “Ainda estávamos no processo de construção do projeto. Tanto em termos do roteiro quanto em termos de perfil das personagens. As atenções estavam voltadas para isso. Quando o roteiro ficou pronto, decidimos pela homenagem. E foi uma decisão muito feliz”.
Uma das questões mais interessantes em Dolores, é como o filme está diretamente ligado ao presente, tratando de questões como o vício em apostas, a venda de armas de fogo e sonho da imigração para os EUA: “Queríamos muito também pensar nessa diferença geracional, os imaginários distintos entre uma mulher de 65, uma de 45 e outra de 20 e poucos. Assim, naturalmente, fomos buscar os imaginários de cada época. E, desejando que nossas mulheres fossem singulares, trouxemos aquilo que achamos que daria emoção para elas. Os universos de cada uma, de acordo com o que a própria vida entrega como possibilidade de imaginação”, concluem os diretores.
Wagner Moura em O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
A produção de Dolores é assinada por Sara Silveira, Eliane Bandeira e Maria Ionescu. O longa é uma produção da Dezenove Som e Imagens, com produção associada da Misti Filmes e coprodução da GT Produções, e será distribuído pela California Filmes. Com roteiro original de Chico Teixeira e Sabina Anzuategui, a equipe conta também com: Juliana Lobo na direção de arte; Isabela Monteiro de Castro Araujo na montagem; e Felipe Botelho na música original.
Além de Dolores, outro destaque brasileiro na seleção é o premiado O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, consagrado no Festival de Cannes. O filme, protagonizado por Wagner Moura, será exibido na mostra Perlak, que traz uma seleção com títulos inéditos na Espanha que se destacaram em festivais internacionais e foram aclamados pela crítica. Neste thriller ambientado no Brasil de 1977, Marcelo é um especialista em tecnologia que foge de um passado misterioso e volta ao Recife, Pernambuco, em busca de paz. Ele logo percebe que a cidade está longe de ser o refúgio que procura. O elenco conta também com Gabriel Leone, Maria Fernanda Cândido, Udo Kier, Hermila Guedes, Thomás Aquino, Alice Carvalho, entre muitos outros.
Já na mostra Made in Spain, que traz um panorama do cinema espanhol com títulos exibidos fora de competição, vale destacar a comédia ¡Caigan las rosas blancas!, de Albertina Carri, uma coprodução entre Argentina, Brasil (pela Sancho & Punta) e Espanha. Com Carolina Alamino, Maru Marcet, Rocío Zuviria, Mijal Katzowicz e Luisa Gavasa no elenco, o filme conta a história de uma diretora de um filme pornô lésbico amador de sucesso que é convidada a fazer uma versão para o grande público.
Na mostra Zabaltegi-Tabakalera não há normas nem limitações de estilo ou tempo: curtas, médias, longas, ficções, documentários, animações, séries, instalações audiovisuais, descobertas de futuro e clássicos contemporâneos inéditos na Espanha completam a lista. Aqui, o cineasta brasileiro Sergio Oksman aparece com Una película de miedo, uma coprodução entre Espanha e Portugal. A sinopse diz: durante as férias de verão, um diretor de documentário e seu filho de doze anos se hospedam em um hotel abandonado em Lisboa: um hotel vazio como o do filme O Iluminado.
O cinema brasileiro também marcou presença no XIII Prêmio Sebastiane Latino, premiação paralela que antecede o festival com a exibição de filmes com a temática LGBTQIA+. Dos 26 inscritos, foram selecionados cinco títulos, entre eles, o brasileiro Ato Noturno, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher. O vencedor desta edição foi La misteriosa mirada del flamenco, de Diego Céspedes; a entrega do prêmio acontecerá durante o Festival de San Sebastián no XI Encuentro de Festivales de Cine LGTBQIA+ Iberoamericanos.
Além dos filmes, na mostra Foro de Coproducción, projetos são apresentados em busca de potenciais parceiros para completarem seu financiamento e melhorarem seu acesso no mercado internacional. Aqui, o Brasil aparece com: Mãe do Ouro, de Madiano Marcheti, pela Multiverso Produções; e La piel del león, de Alvaro Brechner, uma coprodução entre Espanha, Uruguai e Brasil.
O festival também anunciou uma retrospectiva dedicada ao trabalho da roteirista Lillian Hellman com 16 títulos em exibição, entre eles, Estrela do Norte, de Lewis Milestone, e Pérfida, de William Wyler, que lhe renderam indicações ao Oscar. E mais: a atriz Jennifer Lawrence será homenageada nesta 73ª edição com o Prêmio Donostia e a atriz espanhola Marisa Paredes, que faleceu em dezembro do ano passado, estampa o pôster oficial do festival.
Conheça os filmes selecionados para o 73º Festival de San Sebastián:
SELEÇÃO OFICIAL
Balada de um Jogador (Ballad of a Small Player), de Edward Berger (Reino Unido)
Belén, de Dolores Fonzi (Argentina)
Couture, de Alice Winocour (França/EUA)
Deux pianos, de Arnaud Desplechin (França)
Franz (Franz Kafka), de Agnieszka Holland (República Checa/Alemanha/Polônia)
Historias del buen valle, de José Luis Guerin (Espanha/França)
Jianyu laide mama, de Qin Xiaoyu (China)
Las corrientes, de Milagros Mumenthaler (Suíça/Argentina)
Le Cri des Gardes, de Claire Denis (França)
Los domingos, de Alauda Ruiz de Azúa (Espanha/França)
Los Tigres, de Alberto Rodríguez (Espanha/França)
Maspalomas, de Jose Mari Goenaga e Aitor Arregi (Espanha)
Nuremberg, de James Vanderbilt (EUA)
SAI: Disaster, de Yutaro Seki e Kentaro Hirase (Japão)
Six jours ce printemps-là, de Joachim Lafosse (Bélgica/França/Luxemburgo)
Ungrateful Beings, de Olmo Omerzu (República Checa/Eslovênia/Polônia/Eslováquia/Croácia/França)
SELEÇÃO OFICIAL | EXIBIÇÕES ESPECIAIS
Flores para Antonio, de Elena Molina e Isaki Lacuesta (Espanha)
In-I In Motion, de Juliette Binoche (França)
Karmele, de Asier Altuna (Espanha)
La suerte, de Paco Plaza e Pablo Guerrero (Espanha)
Teppen no mukou ni anata ga iru, de Junji Sakamoto (Japão)
Zeru ahoak (Bocas de cielo), de Koldo Almandoz (Espanha)
SELEÇÃO OFICIAL | FORA DE COMPETIÇÃO
Anatomía de un instante, de Alberto Rodríguez (Espanha)
Un fantasma en la batalla, de Agustín Díaz Yanes (Espanha)
NEW DIRECTORS
Aldığımız Nefes, de Seyhmus Altun (Turquia/Dinamarca)
Aro berria, de Irati Gorostidi Agirretxe (Espanha)
Bad Apples, de Jonatan Etzler (Reino Unido)
Chhora Jastai, de Tribeny Rai (Índia/Coreia do Sul)
Chuzhie zemli, de Anton Yarush e Sergey Borovkov (Rússia)
La lucha, de José Alayón (Espanha/Colômbia)
Nan fang shi guang, de Tsao Shih-Han (Taiwan)
Ni de yan jing bi tai yang ming liang, de Zhang Zhongchen (China)
Shiro no kajitsu, de Yukari Sakamoto (Japão)
Si no ardemos, cómo iluminar la noche, de Kim Torres (Costa Rica/México/França)
The Son and the Sea, de Stroma Cairns (Reino Unido)
Vaegtloes, de Emilie Thalund (Dinamarca)
Värn, de John Skoog (Suécia/Dinamarca/Holanda/Polônia/Finlândia)
HORIZONTES LATINOS
Cobre, de Nicolás Pereda (México/Canadá)
Cuerpo celeste, de Nayra Ilic García (Chile/Itália)
Dolores, de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes (Brasil)
El mensaje, de Iván Fund (Argentina/Espanha/Uruguai)
Hiedra, de Ana Cristina Barragán (Equador/México/França/Espanha)
Hijo mayor, de Cecilia Kang (Argentina/França)
La misteriosa mirada del flamenco, de Diego Céspedes (Chile/França/Alemanha/Bélgica/Espanha)
Limpia, de Dominga Sotomayor (Chile)
Nuestra tierra, de Lucrecia Martel (Argentina/EUA/México/França/Holanda/Dinamarca)
Olmo, de Fernando Eimbcke (EUA/México)
Un cabo suelto, de Daniel Hendler (Uruguai/Argentina/Espanha)
Un poeta, de Simón Mesa Soto (Colômbia/Alemanha/Suécia)
ZABALTEGI-TABAKALERA
Bajo las banderas, el sol, de Juanjo Pereira (Paraguai/Argentina/EUA/França/Alemanha)
Bariazioak (Variaciones), de Lur Olaizola Lizarralde (Espanha)
Blue Heron, de Sophy Romvari (Canadá/Hungria)
Dieu est timide, de Jocelyn Charles (França)
Duas vezes João Liberada, de Paula Tomás Marques (Portugal)
El último arrebato, de Marta Medina e Enrique López Lavigne (Espanha)
Estrany riu (Extraño río), de Jaume Claret Muxart (Espanha/Alemanha)
Fiume o morte!, de Igor Bezinović (Croácia/Itália/Eslovênia)
Jóhanna af Örk, de Hlynur Pálmason (Islândia/Dinamarca/França)
Kota, de György Pálfi (Alemanha/Grécia/Hungria)
La felicidad, de Paz Encina (Paraguai)
La grève, de Gabrielle Stemmer (França)
La tour de glace, de Lucile Hadzihalilovic (França/Alemanha)
Lurker, de Alex Russell (EUA)
Miharashi sedai, de Yuiga Danzuka (Japão)
No One Knows, de Bo Hanxiong (China)
Schwesterherz (La buena hermana), de Sarah Miro Fischer (Alemanha/Espanha)
Siempre es de noche, de Luis Ortega (Argentina)
Sol menor, de André Silva Santos (Portugal)
Tabi to hibi, de Sho Miyake (Japão)
The Spectacle, de Bálint Kenyeres (Hungria/França)
Una película de miedo, de Sergio Oksman (Espanha/Portugal)
Urchin, de Harris Dickinson (Reino Unido)
PERLAK
Affeksjonverdi (Sentimental Value), de Joachim Trier (Noruega/França/Dinamarca/Alemanha)
Amélie et la métaphysique des tubes, de Maïlys Vallade e Liane-Cho Han (França)
Ástin sem eftir er, de Hlynur Pálmason (Islândia/Dinamarca/Suécia/França)
Bugonia, de Yorgos Lanthimos (Reino Unido)
Ciudad sin sueño, de Guillermo Galoe (Espanha/França)
Jay Kelly, de Noah Baumbach (EUA/Reino Unido/Itália)
L’étranger, de François Ozon (França)
La grazia, de Paolo Sorrentino (Itália)
Le mage du Kremlin, de Olivier Assayas (França)
Mamlaket al-Qasab, de Hasan Hadi (Iraque/EUA/Qatar)
Nouvelle Vague, de Richard Linklater (França)
O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho (Brasil/França/Alemanha/Holanda)
Orwell: 2+2=5, de Raoul Peck (França/EUA)
The Voice of Hind Rajab, de Kaouther Ben Hania (Tunísia/França)
Un simple accident, de Jafar Panahi (Irã/França/Luxemburgo)
Vie privée, de Rebecca Zlotowski (França)
NEST
A Solidão dos Lagartos, de Inês Nunes (Espanha/Portugal)
Ako počúvať fontány, de Eva Sajanová (Eslováquia)
Casa chica, de Lau Charles (México)
DARU/N, de Benjamin Hindrichs (Alemanha)
Habitat Hotel, de Marina Xarri (EUA/França)
Le continent somnambule, de Jules Vésigot-Wahl (França)
Ma mère dort, de Moana Son (Bélgica)
Maman danse, de Mégane Brügger (Suíça)
Ndhuk, de Hui Yin Koo (Malásia)
Only Making Out, de Marlon Weber (Alemanha)
So ist das Leben und nicht anders, de Lenia Friedrich (Alemanha)
Tem letom ja postupil, de Aleksandr Belov (Suécia)
The Old Bull Knows, Or Once Knew, de Milan Kumar (Índia)
When the Geese Flew, de Arthur Gay (Nova Zelândia)
MADE IN SPAIN
¡Caigan las rosas blancas!, de Albertina Carri (Argentina/Brasil/Espanha)
8, de Julio Medem (Espanha)
Abril, hoy no es invierno, de Mabel Lozano (Espanha)
Almudena, de Azucena Rodríguez (Espanha)
Amanece en Samaná, de Rafa Cortés (Espanha/República Dominicana)
En la alcoba del sultán, de Javier Rebollo (Espanha/França/Tunísia)
En silencio, de Sara Sálamo (Espanha)
Fragmentos, de Horacio Alcalá (Espanha)
L’edat imminent, de Col·lectiu Vigília (Espanha)
La buena letra, de Celia Rico Clavellino (Espanha)
La furia, de Gemma Blasco (Espanha)
La infiltrada, de Arantxa Echevarría (Espanha)
La Terra Negra, de Alberto Morais (Espanha/Panamá)
Las delicias del jardín, de Fernando Colomo (Espanha)
Los Tortuga, de Belén Funes (Espanha/Chile)
Mi amiga Eva, de Cesc Gay (Espanha)
Miss Carbón, de Agustina Macri (Espanha/Argentina)
Molt lluny, de Gerard Oms (Espanha/Holanda)
Nosotros, de Helena Taberna (Espanha)
Romería, de Carla Simón (Espanha)
San Simón, de Miguel Ángel Delgado (Espanha/Portugal)
Sirāt, de Oliver Laxe (Espanha/França)
Sorda, de Eva Libertad (Espanha)
The Designer Is Dead, de Gonzalo Hergueta (Espanha/EUA)
The Sleeper. El Caravaggio Perdido, de Álvaro Longoria (Espanha/Itália)
Todo lo que no sé, de Ana Lambarri Tellaeche (Espanha)
Un hombre libre, de Laura Hojman (Espanha)
Una quinta portuguesa, de Avelina Prat (Espanha/Portugal)
VELÓDROMO
Go!azen, de Itziar Gomez Sarasola (Espanha)
Hasta que me quede sin voz, de Mario Forniés e Lucas Nolla (Espanha)
Rondallas, de Daniel Sánchez Arévalo (Espanha)
XIII PRÊMIO SEBASTIANE LATINO
Ato Noturno, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher (Brasil)
La misteriosa mirada del flamenco, de Diego Céspedes (Chile/França/Alemanha/Bélgica/Espanha)
Llueve sobre Babel, de Gala del Sol (Colômbia/EUA/Espanha)
Los inocentes, de Germán Tejada (México)
Un mundo para mí, de Alejandro Zuno (México)
Fotos: Divulgação/Victor Jucá.