Rodrigo Aragão: cineasta capixaba é homenageado na abertura do 33º Festival de Cinema de Vitória

por: Cinevitor
Rodrigo Aragão: homenageado capixaba da 33ª edição

A 33ª edição do Festival de Cinema de Vitória, o maior evento de cinema e audiovisual do Espírito Santo, começou neste sábado, 18/07, no Teatro Sesc Glória, em cerimônia apresentada pela jornalista e crítica de cinema Simone Zuccolotto

Entre convidados especiais e discursos, Larissa Caus Delbone, diretora executiva do Festival de Cinema de Vitória, deu boas-vindas ao público: “A 33ª edição do festival só seria possível graças aos nossos patrocinadores, os mais amados do Brasil. Mas, essa noite, é especialmente muito emocionante. Homenagear Rodrigo Aragão, capixaba que leva o cinema do Espírito Santo para o Brasil inteiro, é incrível. Estamos muito felizes. Queria aproveitar esse momento para agradecer ao Rodrigo por essa oportunidade. Eu sou muito fã do seu trabalho e estou muito emocionada”. E seguiu: “Precisamos reforçar, ao longo desses 33 anos, a construção de memória. O Festival de Cinema de Vitória é o único festival do país que produz memória catalográfica dos seus homenageados com os cadernos de homenagens”. E finalizou: “Sejam todos bem-vindos. A festa do audiovisual é no Espírito Santo. Essa semana vamos mapear o Brasil pelas lentes do festival”

Depois disso, a noite de abertura seguiu com a homenagem ao cineasta Rodrigo Aragão, autor de uma cinematografia criadora de mundos fantásticos. Ovacionado pelo público, o Homenageado Capixaba desta 33ª edição subiu ao palco e recebeu o Troféu Vitória, o Caderno do Homenageado e uma joia exclusiva criada pela designer Carla Buaiz das mãos da esposa, a produtora Mayra Alarcón, e dos filhos Alicia Margarida e Ramiro: “Muito obrigado! Vocês me fazem chorar antes de subir ao palco. Eu tô muito emocionado com essa homenagem. Muito obrigado mesmo!”, disse sob aplausos da plateia lotada. 

Com mais de 30 anos de carreira, Rodrigo Simões Aragão é um dos nomes mais importantes do cinema de horror no Brasil. Nascido em 18 de janeiro de 1977, na cidade de Guarapari, filho de uma dona de casa com um mágico, que também foi dono de um cinema, tendo o lúdico e o fantástico como constantes na sua infância, ele cresceu desenhando, criando monstros e assustando os vizinhos. Aragão trilhou um caminho singular no cinema onde a sua vontade de contar histórias foi materializada em grande parte pelo seu talento para os efeitos especiais práticos.  

No palco, discursou: “Eu tô perto dos 50 anos. E quero agradecer muito à Lucia Caus e todo mundo do festival. Também ao Léo [Leonardo Vais] e ao Paulo [Gois Bastos] por esse caderno do homenageado. Eles fizeram oito horas de entrevista comigo em dias diferentes. Eu revi minha vida toda. Foi muito interessante. Acho que todo mundo que faz 50 anos deveria fazer uma entrevista com eles. Poupou muita terapia, foi muito bom. E me me faz pensar sobre essa questão de fazer cinema”

Rodrigo estreou no cinema em 1994, aos 17 anos, no curta-metragem A Lenda de Proitner, da diretora Luiza Lubiana, onde foi o responsável pela maquiagem. Antes de chegar às telas como diretor, Aragão idealizou e atuou no espetáculo de terror Mausoleum, apresentado entre 2000 e 2004, nas cidades de Guarapari, Belo Horizonte e Salvador, se apresentando para um público de aproximadamente 30 mil pessoas.  

Rodrigo Aragão e família no palco do Teatro Sesc Glória

O diretor, produtor e roteirista falou com emoção sobre esse momento especial: “Eu passei metade da minha vida sonhando em fazer cinema e a outra metade fazendo. E eu acho que a metade fazendo foi mais divertida. Realmente aconteceram muitos milagres para um menino que nasceu lá em Jabaraí [bairro de Guarapari], na beira do mangue, sofrendo de TDAH, de dislexia, de pobreza e esquisitice; e que está aqui fazendo seu oitavo longa. Para eu estar no oitavo longa, foram muitos milagres nessa trajetória”. No último dia do festival, no próximo sábado, 25/07, Aragão apresentará Folclórica, seu longa inédito. 

Em seu discurso, Rodrigo lembrou com carinho de pessoas importantes em sua carreira: “Eu quero muito dividir esse momento nomeando alguns dos milagres e compartilhando algumas coisas que eu aprendi nessa trajetória. Primeiramente, a família que eu nasci. A paixão do meu pai pelo cinema e a paixão da minha mãe por mim. Ela não gostava de cinema e achava super estranho essas coisas que eu fazia, mas mesmo assim sempre me apoiava. Isso é uma grande prova de amor. O meu tio, que falava que não conseguiu seguir o sonho da vida dele, mas eu deveria seguir os meus. Meu irmão mais velho, que está aqui, o Ramon, que me levou ao cinema quando eu era criança e ali eu pude assistir Os Goonies, A História Sem Fim, Aliens, Comando para Matar… aos sete anos! Eu adoro os anos 1980. E deixo essa mensagem aos pais e responsáveis por crianças: levem nossas crianças ao cinema! Não deixe só no celular, leve para o cinema. Nada substitui”

E continuou: “Agradeço também a família que eu criei e essa mulher que me encontrou há 20 anos no set do meu primeiro filme, me pegou e nunca mais deixei ela me largar. E hoje ela faz toda a parte séria e difícil de fazer um filme. Eu fico com a parte divertida. Que bom que eu achei essa mulher! Essas crianças… esses dois aqui foram muito responsáveis por esses filmes, por transformarem esses personagens em realidade”

Ainda nos agradecimentos, Rodrigo Aragão lembrou do amigo Jaceguay Lins: “Em 1994, quando eu tinha 17 anos, entrei no meu primeiro set de filmagem. Foi um processo muito difícil. E cuidando dos efeitos especiais, eu conheci um cara muito especial chamado Jaceguay Lins. Ele foi a primeira pessoa que leu um roteiro meu, foi a primeira pessoa que falou a frase que eu tinha talento. E a gente passou boa parte da década de 1990 em busca de uma maneira de fazer um projeto meu… e foram anos tentando, foi muito frustrante. Um dia eu estava muito chateado e lembro que o Jaceguay Lins colocou a mão no meu ombro e falou assim: ‘Rodrigo, não se preocupa, não deu certo agora, mas você vai fazer filme, você vai fazer muitos filmes, cara. Se você não desistir, você vai fazer filme. E eu estarei aqui para te ajudar’. Ele foi embora antes de eu fazer o meu primeiro filme, mas eu divido essa frase com quem tá querendo fazer”

O homenageado também citou, com carinho, o produtor Hermann Pidner: “Outra pessoa muito importante é o Hermann Pidner, meu amigo querido, que achou que eu tinha talento. Ele fez essa grande loucura de montar uma empresa comigo de teatro de terror quando eu tinha 22 anos. Foi a minha grande escola. Eu fali quando tinha 26 anos. E, mesmo assim, ele financiou quatro filmes meus. Então, esse é o cara que eu devo muito a ele, que não só financiou os filmes, mas me ensinou uma coisa muito legal que eu divido com vocês: seja malandro, não deva nada a ninguém, não suje seu nome, tenha o CPF limpo, tenha o CNPJ limpo, não faça nada que você não possa explicar. Então, o Hermann Pidner me ensinou muito. Eu sou muito grato a ele. Quero agradecer também a todos que me ajudaram nos primeiros filmes porque foi porrada! Os primeiros filmes foram muitas porradas e entre essas pessoas que me ajudaram, muitas não eram atores e não sonhavam em fazer cinema. Mas entraram no meu sonho”

E terminou seu discurso: “O cinema no Brasil é uma grande roubada. Mas é uma roubada maravilhosa. É uma roubada linda que me deu muitas coisas boas nessa vida. Não é um bom negócio. Mas se você for apaixonado por isso, que você consiga tanta felicidade quanto eu consegui fazendo filmes. Viva o cinema brasileiro e viva o cinema capixaba!”

O cineasta capixaba durante a coletiva de imprensa 

Vale destacar que na parte da tarde, pouco antes de subir ao palco para receber a homenagem, Rodrigo Aragão participou de uma coletiva de imprensa e do lançamento do Caderno da Homenageado Capixaba, publicação impressa assinada pelos jornalistas Leonardo Vais e Paulo Gois Bastos, que traz um extensa reportagem sobre a trajetória artística do homenageado. Durante a coletiva, ele avaliou seu modo de fazer cinema, refletiu sobre os percalços dessa escolha profissional e sua opção por realizar filmes de forma artesanal.

Depois da homenagem, a programação do Festival de Cinema de Vitória 2026 seguiu com a exibição dos curtas-metragens em competição da mostra Foco Capixaba, dedicada a títulos produzidos no Espírito Santo. Foram exibidos: Cinema, Poema e Gangrena, de Gustavo Guilherme da Conceição; Superfície, de Carolina Campista; Liberdade de Morar, de Penha Souza; e Salve, Rainha!, de Estevão Ribeiro e Fabio Carvalho.

Além disso, o documentário A Fabulosa Máquina do Tempo, dirigido por Eliza Capai, abriu a Mostra Competitiva Nacional de Longas e foi representado pela produtora Mariana Genescá: “Há três anos eu estive aqui, nesse mesmo palco e nessa mesma noite de abertura, com o filme Incompatível com a Vida, que, assim como A Fabulosa Máquina do Tempo, é da minha grande parceira Eliza Capai. Uma capixaba de coração. A Eliza não conseguiu estar aqui hoje. Mas, para ela, sem dúvidas, essa é uma das sessões mais especiais. A Eliza cresceu aqui em Vitória e viveu sua infância aqui, onde está grande parte da sua família, dos amigos e das pessoas que ela sempre sonhou em mostrar esse filme”, disse Genescá no discurso. 

Com exibições gratuitas dos 87 filmes selecionados, sendo 80 curtas e sete longas-metragens, que apresentam um recorte da produção audiovisual brasileira contemporânea, o 33º Festival de Cinema de Vitória segue até sábado, 25/07, na capital capixaba. 

*O CINEVITOR está em Vitória e você acompanha a cobertura do evento por aqui, pelo canal do YouTube e pelas redes sociais: Twitter, Facebook e Instagram.

Fotos: Sérgio Cardoso/Vikki Dessaune/Melina Furlan. 

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