
Foram anunciados nesta sexta-feira, 22/05, os vencedores da Queer Palm, premiação paralela ao Festival de Cannes, que escolhe, desde 2010, os melhores filmes que destacam temas LGBTQ+, perspectivas feministas ou desafiam normas de gênero.
Neste ano, 27 títulos estavam na disputa: 22 longas e 5 curtas-metragens, que foram exibidos na Competição Oficial, Un Certain Regard, Semana da Crítica, Quinzena de Cineastas, La Cinef, Sessões Especiais, Séances de minuit, Cannes Première, Cannes Classics e ACID.
O júri de longas deste ano foi formado por: Anna Mouglalis, atriz e musicista francesa; Thomas Jolly diretor artístico e diretor de palco francês; Raya Martigny, artista multidisciplinar da Ilha da Reunião; Jehnny Beth, musicista, cantora, compositora e atriz francesa; e pelo brasileiro André Fischer, diretor do Festival Mix Brasil. Já o júri de curtas contou com Imène Benlachtar, Juan Enrique Villarreal, Hồng Anh Nguyễn, Alexander David e com o cineasta brasileiro Renato Sircilli.
Entre os longas-metragens, a Queer Palm 2026 foi entregue para o britânico Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (Teenage Sex and Death at Camp Miasma), dirigido por Jane Schoenbrun, uma coprodução com Canadá e Estados Unidos. A justificativa do júri diz: “O cinema é uma ferramenta poderosa; os filmes colonizam nossa imaginação. Às vezes apesar de nós, às vezes contra nós, mas também podem se tornar o local de sua própria reparação. É isso que a obra que estamos homenageando esta noite demonstra brilhantemente, sem nunca se levar muito a sério, enquanto faz uma pergunta muito séria: como o que consumimos nos molda? A heroína do filme vive exclusivamente de doces e barras de chocolate produzidas em massa. Lixo. Açúcar químico, corantes artificiais, embalagens berrantes. O mesmo acontece com os filmes. O que engolimos, em segredo, escondidos, debaixo das cobertas, na escuridão do quarto de uma criança ou em uma locadora de vídeos mal iluminada, acaba se tornando parte de nós, estruturando nossos desejos, nossos medos, nosso relacionamento com os outros, nossa maneira de nos vermos no espelho. Por toda uma geração, o filme slasher moldou uma relação com a sexualidade, o corpo, a adolescência, a morte e a diferença”.
E continua: “O cinema de terror, suas estruturas narrativas, seus temas recorrentes, nos faz estremecer, mas também serviu como veículo para a misoginia e a transfobia. Em vez de condenar, este filme propõe reparar. Reivindicar um gênero há muito relegado às margens do cinema e torná-lo uma ferramenta para os dias de hoje. Um cinema popular, alegre e meticulosamente pesquisado, livre de um molde heteronormativo e heterocêntrico, conectando este gênero a outras histórias, outros corpos, outras jornadas. Aqui, a jornada de duas mulheres encontrando seu caminho para a reconciliação com sua própria sexualidade. Descendo a um buraco no fundo de um lago congelado, apenas para ressurgir à luz da primavera. Retornando ao DNA do gênero para que ele possa nos iluminar hoje. Uma homenagem ao cinema como ferramenta de reparação, tanto íntima quanto coletiva. Hannah Einbinder personifica a primeira ‘final girl’ de uma nova geração, enquanto Gillian Anderson, uma deslumbrante ‘final girl’ original, é o ícone que realmente é, e tem sido, por múltiplas gerações. Com o sangue mais brilhante da história do cinema de terror e uma trilha sonora repleta de sucessos, o júri concede a Queer Palm 2026 a Teenage Sex and Death at Camp Miasma, de Jane Schoenbrun”.
Neste ano, o júri optou por conceder o Prêmio Discovery, que foi entregue para o francês Du Fioul dans les artères, de Pierre Le Gall, uma coprodução com a Polônia. A justificativa diz: “Uma seleção excepcional exige uma resposta excepcional: o júri da Queer Palm de 2026 não seguirá o roteiro habitual. Queríamos criar um prêmio de descoberta para reconhecer, como o nome sugere, uma descoberta… no sentido mais amplo da palavra. Este ano, é a descoberta de um cineasta. Este filme nos leva aonde poucos olhares se detêm: para dentro de vidas que rolam, que entregam, que desaparecem no fluxo das rodovias e nos pontos cegos da nossa consciência. Os trabalhadores rodoviários formam uma comunidade imensa e invisível cujas condições de trabalho são, no entanto, a própria condição do nosso dia a dia. Este filme dá presença aos homens e mulheres da estrada. Rostos. Dignidade. Revela a ternura de uma história de amor nascente em contraste com a dureza do trabalho. Porque como amar quando as condições de trabalho devoram o tempo, quando os empregadores ditam o ritmo? Como o amor floresce numa Europa de mercados? Como o amor encontra o seu lugar no asfalto de uma ponte rodoviária ou nos confins estreitos da cabine de um caminhão?”.
E continua: “O diretor levou sua câmera a bordo de um romance obstinado: a teimosa gentileza de duas pessoas tentando encontrar o caminho umas para as outras. Através de horários incompatíveis. Através do barulho e do frio. Através da Europa. Precariedade. Fronteiras. Ele mostra como o amor frustrado, como a água, sempre encontra um caminho; e que uma pessoa pode ter a coragem de atravessar uma autoestrada, mas não de entrar em um bar da moda. Alexis Manenti e Julian Świeżewski personificam os heróis que faltavam no panteão dos grandes amantes. Este é um primeiro filme que inegavelmente amplia a lista de grandes histórias de amor já levadas para as telas”.
Entre os curtas-metragens, a Queer Palm 2026 consagrou o americano Silent Voices, dirigido por Nadine Misong Jin. A justificativa diz: “O curta-metragem que escolhemos homenagear esta noite é uma obra sutil e discreta que se concentra nas sensações em vez do que é dito. Transmite graciosamente, através de suas imagens, uma sensação de tensão e ternura. Com grande sensibilidade, o filme captura com precisão os gestos da vida cotidiana. Em uma era marcada pela violência e hostilidade, a diretora opta por apresentar a cultura queer como uma possibilidade, um vislumbre de esperança, que não precisa de justificativa. Seu elenco notável nos leva a uma jornada por uma metrópole agitada, onde descobrimos uma família dilacerada, cujo vínculo se expressa unicamente pelo silêncio. Ficamos emocionados ao ver essa nova voz emergir e mal podemos esperar para ver o que vem a seguir”.
O pôster deste ano foi fotografado por Raya Martigny, pelo projeto Kwir Nou Éxist, desenvolvido ao longo de cinco anos ao lado de Édouard Richard, que entrelaça fotografia, arquivos e vídeo e explora o surgimento da jovem comunidade queer de Ilha da Reunião, sua ligação com o território e com as vidas que a precederam. Sobre a foto escolhida para estampar o cartaz, Raya disse: “Ericka mudou minha vida. Quando eu era criança na Ilha da Reunião, vagueava muito em busca da minha história; muitas vezes me sentia sozinha e perdida. Um dia, encontrei uma lenda. Eu tinha oito anos, buscando uma identidade, coisas que me marcassem para o resto da vida, das quais eu sempre pudesse me inspirar e que sempre me colocassem de volta no caminho certo. Ericka é uma pioneira da história LGBTQIA+ na Ilha da Reunião. Ela é minha fada madrinha que, com sua exuberância, criou uma criança feliz. Escolhi fotografá-la em toda a sua magia, assim como a magia da minha ilha, ambas que me encantaram profundamente”.
Foto: Ryan Plummer/MUBI.