Justino: Nos Bastidores do Reino, de José Eduardo Belmonte, é exibido no 54º Festival de Cinema de Gramado

por: Cinevitor
Angel Ferreira, Caio Blat, Christian Malheiros e Bruno Garcia no tapete vermelho

A trajetória de Mário Justino, pastor que participou da expansão internacional de uma poderosa instituição religiosa e viu sua vida mudar radicalmente após ser afastado da comunidade da qual fazia parte, foi contada na telona do Palácio dos Festivais nesta quarta-feira, 19/08, na mostra competitiva de longas brasileiros da 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado

Dirigido por José Eduardo Belmonte, Justino: Nos Bastidores do Reino é baseado no livro Nos Bastidores do Reino: A Vida Secreta na Igreja Universal do Reino de Deus, escrito por Mário Justino. O longa, protagonizado por Christian Malheiros, retrata acontecimentos entre as décadas de 1960 e 1990 e acompanha a ascensão e a queda de seu protagonista em uma narrativa que aborda temas como fé, poder, preconceito, exclusão, intolerância e as complexas relações construídas em torno das instituições religiosas e suas determinadas estruturas de liderança.

Com Caio Blat, Onna Silva, Antonio Pitanga, Larissa Nunes, Lucas Leto, Angel Ferreira, Bruno Garcia, Gustavo Vaz e Raissa Xavier no elenco, o filme tem distribuição da Imovision e coprodução de Jean Thomas Bernardini, Luan Filippo Oldenbrock, Denise Pompeu de Toledo e Luiz Fernando Emediato; a produção é de Nilson Rodrigues, pela Mercado Filmes. O roteiro foi escrito por José Eduardo Belmonte, Ewerton Belico, Sérgio Moriconi e Nilson Rodrigues. A direção de fotografia é assinada por Leslie Monteiro, com direção de arte de Dani Vilela. A trilha sonora original é de Flavia Tygel, a montagem é de André Finotti e José Eduardo Belmonte, o desenho de som é de Miriam Biderman e o figurino de Ananda Frazão. A produção executiva é assinada por Marília Garske, Marcela Bittencourt, Daniela Aun e Viviane Rodrigues.

Para apresentar o filme no palco do Palácio dos Festivais, José Eduardo Belmonte subiu ao lado de diversos integrantes de sua equipe: “Eu fico muito feliz e honrado de estar aqui. Já é a quinta vez que eu estou aqui, terceira vez em menos de cinco anos. E eu fico sempre muito feliz porque de alguma forma eu sinto que estou abraçando meu eu adolescente, que queria fazer cinema e via as notícias de Gramado no jornal. A primeira vez que eu estive aqui foi com um curta. Eu voltei com um kikito e minha mãe ficou muito emocionada. Foi um momento muito marcante”

Belmonte aproveitou o momento para fazer um agradecimento especial a profissionais gaúchos do audiovisual: “Aproveitando que estou aqui, nessa cidade, nesse palco e nesse estado, quero fazer uma homenagem pública. Quando eu via as notícias de Gramado, eu percebi que existia uma geração fora do eixo Rio-São Paulo fazendo um cinema muito poderoso e muito forte, que influenciou muita gente em Brasília a criar uma cena. Essa geração foi um impulso muito grande”

E continuou sobre os gaúchos: “Quando eu fiz meu primeiro longa, que quase ninguém viu, chamado Subterrâneos, o Gustavo Spolidoro fez uma ponte com a Casa de Cinema de Porto Alegre e o Rio Grande do Sul foi o único lugar que exibiu comercialmente esse meu filme. Então, queria agradecer muito a essa geração que inspirou e ajudou muita gente. Zé Pedro, Jorge, Giba, Gerbase, Ana… tanta gente que inspirou e deu esse empurrão para estarmos nessa. Não só a mim, mas muita gente!”

O diretor José Eduardo Belmonte no palco

Sob aplausos do público, Belmonte seguiu com seu discurso: “Esse filme me tocou muito quando Nilson me chamou. Ele está desde 2015 tentando fazer esse filme. E me tocou muito porque é um testemunho extremamente honesto, que fala muito sobre as nossas feridas, nossas contradições, nossos abismos. Agradeço muito ao Justino por ter dado a bênção para mim e para o Cris [Malheiros]. Pedimos essa bênção para ele antes de realizar esse filme”, finalizou. 

O protagonista Christian Malheiros também discursou: “Falar sobre Justino é também falar sobre mim. E sobre muitas outras pessoas e milhões de pessoas que tiveram contato com a fé e com a religião muito cedo. Esse filme conta a história desse cara que teve contato com essa fé muito cedo e até onde isso se desdobra. Eu olho esse filme e penso que o Justino poderia ter sido eu, que também sou fruto de um lar evangélico e também sofri com algumas coisas nessa doutrina”

Ainda no palco, Malheiros relembrou uma história engraçada de quando foi contar para sua mãe que foi convidado para fazer o filme: “Minha mãe é da igreja há 30 anos. Falei pro Zé [diretor] que eu só faria se ela deixasse porque minha mãe tem 70 anos e eu sou o último filho. Contei que ia fazer um filme e contei a história. Ela perguntou quem eu seria e eu respondi que era o Justino. E ela falou: ‘Filho, você não precisa de dinheiro para sobreviver? A a igreja também precisa. Então, vai trabalhar’. Isso foi maravilhoso. Eu falei com a minha mãe porque a gente está falando de um filme sobre fé. Todo mundo tem fé em alguma coisa. E eu pedi licença para a minha mãe para falar sobre a fé dela, que ela professa até os dias de hoje”.

E finalizou seu discurso: “Eu espero que esse filme emocione e traga muitas reflexões. Queria muito agradecer ao Mário Justino por ter vivido, resistido, sobrevivido ao mundo e até a si mesmo. Muito obrigado, gente! Muito obrigado, Festival de Gramado! Boa sessão!”

No dia seguinte à exibição de Justino: Nos Bastidores do Reino, a equipe do filme participou de um debate com o público e com a imprensa no Serrazul Hotel, que foi mediado pelo jornalista Roger Lerina. Na ocasião, a atriz Onna Silva discursou: “O Brasil é um dos países que mais consome pornografia trans do mundo. E é o país que mais mata. A expectativa de vida é de 35 anos. É triste, mas é real. Por que isso é tão negado para nós? Para as pessoas pretas, para as mulheres… o que mais tem é homossexual reprimido. O homem que não tem certeza da sua sexualidade, é um frustrado. E ele vai viver fazendo violências com ele e com os outros”, finalizou. 

Além disso, a programação de quarta-feira, 19/08, seguiu no Palácio dos Festivais com a entrega do Kikito de Cristal para Selton Mello. Depois, foram exibidos os curtas-metragens brasileiros em competição: Divino: Sua Alma, Sua Lente, de Clea Torres, Gilson Costta e Divino Tserewahú; A Menina que Queria Ser Pedra, de Jackson Abacatu; e Pique-Pega, de Mia Lima Rocha. Na sequência, foi exibido o filme Afrontosa, de Coraci Ruiz e Julio Matos, na mostra competitiva de documentários brasileiros

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Fotos: Cleiton Thiele e Edison Vara/Ag. Pressphoto.

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