A diretora do documentário no debate em São Paulo.
Escrito e dirigido por Beth Formaggini, o documentário Pastor Cláudio mostra o encontro entre o bispo evangélico Cláudio Guerra, ex-delegado responsável por assassinar e incinerar opositores à ditadura militar no Brasil (1964-1985), e Eduardo Passos, psicólogo e ativista dos Direitos Humanos, que trabalha no atendimento às vítimas da violência do Estado.
No longa, Cláudio, respaldado por uma polêmica Lei da Anistia e hoje membro ativo da comunidade evangélica, revela, dentre outros crimes, como fazia para desaparecer com corpos durante sua atuação no período da ditadura. Com a abertura política, Cláudio trabalhou na segurança pública. Para registrar o diálogo entre o pastor e o psicólogo, a diretora Beth Formaggini montou um cenário com um telão em que são projetadas fotografias e vídeos de vítimas de um passado que perdura.
Nesta terça-feira, 12/03, aconteceu a pré-estreia do filme em São Paulo com a presença da diretora, que logo depois da sessão participou de um debate com o público ao lado de Eduardo Suplicy, vereador de São Paulo e ex-senador, e Maurice Politi, pesquisador, militante de direitos humanos e ex-preso político.
Antes da exibição, conversamos com Beth Formaggini, que falou sobre o filme, seu personagem principal, ditadura militar, bastidores e a maneira como o longa dialoga com os dias de hoje. Confira:
O INÍCIO:
“Eu encontrei o Cláudio por meio dos biógrafos [Rogério Medeiros e Marcelo Netto] que escreveram Memórias de uma Guerra Suja [livro com depoimentos do ex-delegado do DOPS] e no primeiro telefonema ele já topou. Muito vaidoso. Eu acho que esse tipo de filme é um álibi para ele, que já deixou claro que tem a documentação de todo mundo. E isso, de certo forma, o protege porque ele tem uma carta na manga. O que ele não fala é uma garantia”.
“Foram quatro horas de filmagem. Não vimos ele antes e nem depois. A ideia era registrar o momento presente, uma conversa, esse encontro entre um psicólogo clínico e um violador de direitos humanos. O Eduardo Passos trabalhou num projeto lindo que atende pessoas afetadas pela violência do Estado, onde um ajuda o outro a enunciar essas experiências dolorosas”.
Conversa: Cláudio Guerra e Eduardo Passos em cena.
O PERSONAGEM:
“Ele cria um personagem de cordeiro de Deus, porém, em alguns momentos dá uma quebrada. Mas são coisas mínimas, você só percebe com uma lupa. Sou discípula do Eduardo Coutinho [documentarista]. Acredito que quando você coloca uma câmera, a pessoa cria um personagem. Sabemos que o documentário também tem isso. Mas, por outro lado, você tem também um ponto de vista, mas com algumas frestas”.
“A forma como ele fala é o que mais choca porque as coisas que ele relata, bem ou mal, sabemos que aconteceu. Quando você capta a questão das palavras e do discurso e passa numa tela de cinema você quase consegue ler as frestas. Você tem ali um rosto muito presente e as palavras dele estão enunciadas com orgulho e poder. Eu mandei o filme para o Cláudio. Hoje ele é pastor de uma igreja e tem vários vídeos dele pregando na internet. O que dá mais poder e controle na vida das pessoas do que ser pastor?”.
PASSADO E PRESENTE:
“Todas as práticas [citadas no filme] se repetem e a atualidade está totalmente impregnada disso. Elas continuaram se repetindo, ao longo dos anos, com os negros, pobres. O discurso é muito revelador e esse filme é baseado na palavra falada. Se não tivesse tantas nuances e tantas brechas seria um filme desinteressante. É um filme impactante, ainda mais pela forma como esse cara fala. Mas acho muito interessante conseguir trabalhar essa palavra falada estimulada por um ouvinte maravilhoso que é o Eduardo, que tem uma prática de psicologia”.
“Se o Brasil tivesse feito a lição de casa, não estaríamos na situação que estamos hoje”
“As pessoas levam uma porrada, principalmente no final do filme, que ele prenuncia [o documentário foi filmado em 2015] o que está acontecendo agora. Ele fala que estão voltando ao poder: a extrema direita, os banqueiros, a elite brasileira. E estão voltando para flexibilizar as leis trabalhistas, que o Michel Temer já tinha começado e o outro [Jair Bolsonaro] vai terminar; com a aposentadoria e etc. Cria-se um discurso de ódio e uma limitação de controle. A população também estimula o desrespeito aos direitos humanos”.
Personagem principal: Cláudio Guerra relata crimes que aconteceram durante a ditadura militar.
OS CRIMES:
“A maneira como as pessoas que cometeram crimes contra a humanidade são tratadas é uma interpretação, ao meu ver, errada da Lei da Anistia porque o judiciário interpretou assim. Mas é contestada o tempo todo, não só pelas famílias que sofreram esse tipo de violência, mas também internacionalmente. Esses crimes não são passíveis de perdão, então, essas pessoas tinham que ser, no mínimo, julgadas. Se o Brasil tivesse feito a lição de casa, não estaríamos na situação que estamos hoje”.
TEMPOS SOMBRIOS:
“Levei dois anos pra fazer o longa e ele chega num momento em que precisamos tirar o lixo debaixo do tapete e encarar esses fatos que aconteceram para evitar que voltem a acontecer. É um momento que todo mundo precisa conversar com todo mundo e debater, cada um na sua profissão, da sua maneira e tentar fazer alguma coisa. Os tempos estão muito sombrios. Fazem elogio à tortura e o pior não é só o que é enunciado, o pior é a receptividade disso, que me assusta ainda mais. Esse filme é uma porrada para a pessoa levar pra casa e não dormir, pra começar a conversar com o vizinho. Não podemos nos atrasar mais”.
Entrevista: Vitor Búrigo
Fotos: Divulgação/ArtHouse.