
Exibidos na primeira mostra de longas-metragens promovida pelo Cine PE, há 30 anos, os filmes Baile Perfumado e O Cangaceiro foram homenageados na noite desta quinta-feira, 04/06, durante a programação da 30ª edição do festival audiovisual pernambucano.
Com temáticas que dialogam com a cultura nordestina e o universo do cangaço, os dois filmes marcaram um momento importante da retomada do cinema brasileiro e da história do festival: “O batismo do Cine PE teve a sorte e a visão de acolher esse encontro histórico entre a tradição e o mito na modernidade de uma nova geração de cineastas”, destacou a apresentadora do evento, Nínive Caldas.
Dirigido por Paulo Caldas e Lírio Ferreira, que assinam o roteiro ao lado de Hilton Lacerda, Baile Perfumado destaca o jovem libanês Benjamin Abrahão, homem de confiança de Padre Cícero, que parte de Juazeiro, na década de 1930, em busca de recursos para realizar um velho sonho: filmar Lampião e seu bando. Para isso, recorre as pessoas influentes, especialmente um coronel amigo do cangaceiro, mas os sonhos do mascate são prejudicados pela ditadura do Estado Novo.
Com Luiz Carlos Vasconcelos e Duda Mamberti no elenco, o filme foi exibido no Festival de Havana, consagrado no Festival de Brasília e premiado com o Troféu APCA nas categorias de melhor trilha musical (para Chico Science, Fred Zero Quatro e Sérgio Siba Veloso) e melhor ator coadjuvante (Luiz Carlos Vasconcelos). A produção foi assinada por Cláudio Assis e o elenco traz também Aramis Trindade, Chico Diaz, Joffre Soares, Cláudio Mamberti, Germano Haiut, Manoel Constantino, Giovanna Gold, Johnny Hooker e Daniela Mastroianni.
Já em O Cangaceiro, dirigido por Aníbal Massaini Neto, a história mostra, em meio à luta com as tropas organizadas por voluntários em busca de defesa de seus vilarejos, o conflito entre dois cangaceiros por causa de uma professora raptada a quem um deles pretende libertar por amor. O elenco conta com Paulo Gorgulho, Luíza Tomé, Alexandre Paternost, Ingra Lyberato, Jece Valadão, Otávio Augusto, Jofre Soares, Dominguinhos, Cláudio Mamberti e Othon Bastos.
Para celebrar as duas obras, o ator Aramis Trindade, que interpreta o Tenente Lindalvo Rosas em Baile Perfumado, e o produtor Oswaldo Massaini, de O Cangaceiro, subiram ao palco do Cinema do Teatro do Parque para receber a tradicional Calunga Prateada, um dos símbolos do festival.
Aramis Trindade, Nínive Caldas e Oswaldo Massaini
Emocionado, Aramis Trindade relembrou os desafios enfrentados para a realização de Baile Perfumado, obra que ajudou a recolocar Pernambuco no mapa da produção cinematográfica nacional após duas décadas sem a realização de longas-metragens no Estado: “O Baile Perfumado tem a mesma idade do festival. Ambos são de 96. E a gente sabe que nem tudo é glamour, né? Eu imagino quantos nãos o Bertini e a Sandra devem ter tomado até ganhar um sim. Até Baile Perfumado, fazia vinte anos que Pernambuco não filmava um longa-metragem. O último filme tinha sido O Palavrão, de Cleto Mergulhão, de 1976. Eu não sabia, Lírio que me falou. Ou seja, Pernambuco estava há duas décadas sem rodar”.
E finalizou, ovacionado pelo público: “Tem uma frase de Clarice Lispector, que morou em Recife por muito tempo, que me guia: ‘O caminho lento aumenta a minha coragem secreta’. Acho que ela traduz muito da trajetória de quem acredita e insiste em fazer cinema”.
Na sequência, representando o diretor Aníbal Massaini Neto, Oswaldo Massaini, coprodutor do longa, destacou a relação histórica entre O Cangaceiro e o nascimento do festival: “Quem poderia imaginar, naquela época, tudo o que aconteceria dali em diante? Estava ali plantada a semente do festival. Hoje, com muito orgulho, podemos dizer que também nos sentimos pernambucanos e seguimos torcendo pela longevidade e pelo sucesso deste evento”.
Além das homenagens, a noite contou com a exibição dos filmes das mostras competitivas. Abrindo a programação, foi exibido o curta documental pernambucano Salam, dirigido por Bruna Tavares. Na mostra competitiva de curtas-metragens nacionais, os títulos foram: Um Certo Cinema Brasileiro, do sergipano Fábio Rogério; e a ficção A Ascensão da Cigarra, de Ana Clara Ribeiro, de Rondônia. Encerrando a noite, o público acompanhou a exibição de Mapas, longa-metragem de ficção dirigido por Rafael Lobo e protagonizado por Caique Copque e Beta Rangel.
A quinta noite do Cine PE 2026 também foi marcada pela despedida de seu idealizador, Alfredo Bertini, falecido na quinta-feira, 04/06, aos 65 anos. Criador do festival e um dos principais incentivadores do audiovisual brasileiro, Bertini dedicou três décadas à construção de um espaço que se tornou referência para realizadores, artistas e público de todo o país.
Em respeito à sua trajetória e ao legado que deixou para a cultura pernambucana e nacional, a programação do festival será mantida como ele planejou, reafirmando que a melhor homenagem ao fundador do Cine PE é manter viva a sala de exibição, os encontros e as histórias que ele ajudou a tornar possíveis. O velório de Bertini acontecerá nesta sexta-feira, 05/06, das 10h às 14h, na Sede Social do Sport Club do Recife. A cerimônia de cremação será realizada às 16h, no Memorial Guararapes.
Fotos: Felipe Souto Maior.