
Depois de ser premiado no É Tudo Verdade, Apopcalipse Segundo Baby, dirigido por Rafael Saar, de Peixe Abissal e Sem Vergonha, segue sua trajetória nos festivais de cinema. O documentário mergulha na vida, na obra e no universo espiritual de Baby do Brasil, uma das figuras mais exuberantes, inventivas e transgressoras da música brasileira.
Produzido pela Dilúvio Produções em parceria com o Canal Brasil, e distribuição da Descoloniza Filmes, o longa reconstrói as memórias da artista por meio de viagens a lugares fundamentais de sua trajetória, como Salvador, Niterói e Santiago de Compostela. Os deslocamentos conduzem Baby por reflexões sobre sua infância, a fuga para a Bahia na adolescência, a vida comunitária ao lado dos Novos Baianos, a carreira solo e sua permanente busca espiritual.
Ícone da contracultura brasileira, Baby relembra a obra e o estilo de vida libertários dos Novos Baianos, grupo que marcou o início de sua trajetória artística, além de revisitar suas inúmeras reinvenções estéticas, musicais e existenciais ao longo das décadas. Muito além de uma biografia convencional, Apopcalipse Segundo Baby explora as múltiplas camadas de uma personalidade em constante transformação.
Sob a direção de Rafael Saar, que já trabalhou com Ney Matogrosso e dirigiu documentários sobre Luhli & Lucina, Maria Alcina e Luís Capucho, o filme também aposta na experimentação formal. A produção teve início em 2008 e, dezoito anos depois, chega ao público como um retrato singular de uma artista que atravessou diferentes momentos da cultura brasileira sem jamais perder sua essência inquieta e visionária.
Apopcalipse Segundo Baby foi exibido na 21ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto no sábado, 27/06, no Cine-Teatro Petrobras no Centro de Artes e Convenções da UFOP, dentro da mostra contemporânea competitiva. A sessão contou com a presença do diretor, da protagonista Baby do Brasil e mais integrantes da equipe: Luciano Caetano, diretor de arte; Isabella Raposo, assistente de direção e diretora de produção; Vinicius Medeiros, responsável pela finalização; e João Gabriel Riveres, que fez a correção de cor.
Equipe do filme no palco da 21ª CineOP
No palco, Rafael Saar discursou: “Estamos felizes e emocionados com essa sessão em Ouro Preto. Queria agradecer imensamente à Baby pela confiança. Passamos dezoito anos fazendo esse filme, filmando, pesquisando. As próprias filmagens viraram material de arquivo em tanto tempo de realização. Então, obrigado, Baby!”.
Sob aplausos do público, Baby falou: “Eu que tenho que agradecer por você não ter alterado nada, não ter colocado nenhum pensamento crítico seu que pudesse confundir a loucura da verdade, a verdade da loucura. Eu fico muito feliz e honrada de saber que você foi realmente aquilo tudo que eu sonhei quando você tinha 24 anos e chegou me propondo esse filme. Eu olhei e pensei: esse cara tem a pureza que eu preciso para me enxergar. Porque para me enxergar, sem ter medo de religiosidade, de lado político, ou seja lá o que for, precisa disso. E, para mim, é importante que me traduza da maneira mais fiel possível. E você conseguiu isso. Glória Deus, aleluia!”.
A cantora continuou seu discurso: “Tem tanto material que você já tem o volume 2, 3, 4 e 5, não é verdade? Eu nunca vi uma pessoa ter tanto conteúdo e cavar tanto. Eu tinha feito filmes que eu nunca tinha visto na minha vida. E eu pensava se conseguiria assistir esses filmes… e ele achou! É um prazer muito grande estar aqui com todos vocês. É uma honra e um privilégio estar viva e ver a minha historia. Porque geralmente é assim: você foi, está no clube da glória e fazem um negócio seu. Apenas a festa começou, ok?”.
Ao final da sessão, logo depois dos créditos, o filme foi ovacionado pelo público. Ao levantar-se da poltrona, Baby agradeceu mais uma vez: “Ele foi mais ousado, né? Tinha acabado de fazer a graduação e pensou: ‘eu vou lá vou perguntar se ela topa’. Então, cara! Vai lá, bicho. Não tem idade. Em quantos anos eu faço 100 anos mesmo? Tá tudo sob controle. Prazer inenarrável estar aqui”.
Cena do documentário na telona
No mesmo dia da exibição, na parte da tarde, foi realizada uma coletiva de imprensa no Centro de Artes e Convenções da UFOP com a presença de Baby do Brasil e Rafael Saar.
No bate-papo, a cantora falou sobre sua paixão pelo cinema brasileiro: “Se a gente não for arrebatado, vamos entrar num lado maravilhoso do cinema, que é um outro tipo de lado criativo que o Brasil vai mostrar. De uma maneira mais querida, não só aquela situação política ou do que já tenha mostrado. Eu acho que a gente tem condições de fazer coisas fantásticas. Eu amo a arte brasileira, gosto de ir ao cinema, gosto de sentar naquela cadeira que deita, que levanta, que tem pipoca. Amo cinema de rua também. Pra mim, esse filme tinha que passar por uma turnê em cinemas de rua. Eu acho isso incrível. Assisti muito em Niterói, sentada no asfalto, com almofada, com todo mundo. Ai, que delícia!”.
E continuou: “Enfim, toda essa história com o cinema é maravilhosa. E o Rafael conseguiu pegar cenas de filmes que eu fiz e que nunca tinha visto. Mas enfim, o cinema é uma paixão também. Estou vivendo um momento muito agradável com o Rafa, participando de todas as as apresentações. Está sendo incrível porque tem também um lado psicanalítico forte ao ver o filme, né? É uma bênção você revisitar seus caminhos e entender se você pode fazer melhor o tempo todo. Você se conhecer vendo o que você fez. É uma delícia”.
A artista também falou da experiência de filmar ao longo de tantos anos: “Temos algo mais que inédito até para nós. Viemos juntos, os momentos acontecendo e não sabíamos que havia um roteiro mais do que Matrix acontecendo no meio de tudo isso. Aconteceu dessa maneira. Eu não sabia o que aconteceria depois de ser lançado. O Rafael escolheu o nome por conta de uma palavra que eu sempre brincava para amaciar o apocalipse. Eu não disse nada. Só fiquei olhando e morrendo de medo do que ia assistir. Mas não queria de jeito nenhum tocar em nada. Eu queria ver como é que ele estava me vendo, né? Porque isso é um privilégio, é um prazer. É perceber como as pessoas te veem; os filhos, o diretor, os amigos. É um desafio, mas é uma delícia. Depois que você tem uma certa experiência da vida, isso se torna prazeroso. E eu tenho um pouco de cuidado. Embora seja um pouco influencer, eu cuido para não influenciar tanto”.
O diretor Rafael Saar no bate-papo com a imprensa
Na conversa com críticos e jornalistas, o diretor Rafael Saar falou de suas escolhas criativas no documentário: “Meu referencial foi dentro da criação artística da Baby. Eu acho que a proposta do filme é essa. Fazer um filme como eu acho que a Baby faria se ela fosse uma cineasta, como ela contaria a própria história. Então, quando a gente criou, tanto os caminhos visuais e sonoros do filme, perseguimos esses caminhos que ela perseguiu na música, que sempre foram tão diversos. Não é um caminho único, mas é tentar ser múltiplo como é a personalidade dela”.
Em certo momento, Baby foi questionada sobre feminismo e refletiu: “Existem coisas na minha vida, na minha história, no meu jeito de cuidar, que foram muito específicas. Quando vem o lado feminista brigando, não me agrada. Eu sou embaixadora de uma ONG chamada Princesa Rivania, aqui em Minas, que cuida de mulheres que sofreram violência. Nesse sentido, nós temos que ser extremamente femininas e ter uma postura que não seja de briga. Eu acho que eu posso e ajudo muito com a minha maneira de ser. Eu fiz oito anos de psicanálise, então, eu tenho toda essa mistura de psicanálise, espiritualidade. É uma loucura! Mas é porque eu gosto dessas coisas. Eu acho que eu contribuo de uma maneira bem assim Woodstock”.
A artista também respondeu sobre racismo: “É tanto ódio, é uma coisa, uma loucura. Onde é que está o fundamento disso tudo? Tudo isso tem um fundamento muito, muito espiritual, mas não vou entrar nessa, tá? Porque isso é uma outra mentoria. Eu me lembro quando eu conheci o Gilberto Gil pela primeira vez. Foi no dia 18 de julho de 1969 e o que me impactou no Gil foi a postura dele diante da confusão que estava ainda sobre os negros. E eu até falo isso no filme: que marca de homem é essa, né? A raça negra me representa”.
Depois da coletiva, o CINEVITOR conversou com exclusividade com Baby do Brasil, que disse: “O Rafael arrasou porque ele teve uma sensibilidade tão sincera e tão sem manipulação, que você consegue ver a Baby da Baby mesmo, sabe? E muitas coisas, vocês não sabem, ficaram de fora. Eu fiquei apaixonada e ao assistir aquilo tudo, eu revisito a minha maneira de pensar, de crer e de acreditar que tudo pode ser. Deus abre porta até onde não tem parede, então vai ter que dar certo. Não tem jeito, vai ter que dar certo. Uma grata satisfação viver esse momento com o cinema que começou antes de eu cantar totalmente. O cinema andou atrás de mim o tempo todo. Eu gosto muito de cinema. Ninguém sabe, mas eu tenho um roteiro que eu tô doida para fazer. E eu gosto de final feliz, tá? Só gosto de final feliz. Final ruim nem me chama que eu não assisto. Eu saio antes, sabe? Porque eu acho que nós estamos em um momento da vida que todos nós temos que acreditar no nosso final feliz. O início pode ser ruim, mas o final tem que ser bom”.
*Clique aqui e assista ao vídeo especial sobre o filme com a entrevista completa com a cantora
*O CINEVITOR está em Ouro Preto e você acompanha a cobertura do evento por aqui, pelo canal do YouTube e pelas redes sociais: Twitter, Facebook e Instagram.
Fotos: Ane Souz/Jackson Romanelli/Universo Produção.