29ª Mostra de Cinema de Tiradentes começa com novo filme de Julio Bressane, performance audiovisual e homenagem 

por: Cinevitor
O cineasta Julio Bressane na abertura da Mostra de Cinema de Tiradentes 2026

A abertura da 29ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes aconteceu nesta sexta-feira, 23/01, no Cine-Tenda, no Centro Histórico, com uma performance audiovisual dirigida por Chico de Paula e Lira Ribas que traduziu a temática Soberania Imaginativa por meio da recriação poética da Folia de Reis.

A encenação propôs um percurso coletivo de cantos, gestos, imagens e deslocamentos, articulando o sagrado e o profano como campos de potência criativa, com personagens e rituais que simbolizam a imaginação, o pertencimento e a reinvenção cultural. Ao transpor para o espaço da Mostra os giros, visitas e rituais da Folia de Reis, personagens como o palhaço, a pastorinha, o mestre de folia e os cantadores assumiram, na performance, o papel de portadores das boas-novas e visionários da estrela, simbolizando a soberania como capacidade de criação, subversão e reinvenção cultural.

A apresentação reuniu artistas como Sitaram Custódio, Júlia Medeiros, Nath Rodrigues e Glaw Nader na parte instrumental e vocal, além da DJ Fê Linz, do multi instrumentista Camilo Gan, da folclorista Dadá Diniz, do videomaker Gabriel Fix e da atriz Julia Bertolino, compondo uma celebração artística que inaugura o festival como espaço de movimento, encontro e criação coletiva. A cerimônia marcou não apenas a abertura da programação de filmes, mas também o início de uma semana de debates sobre cultura, políticas públicas e o papel estratégico do audiovisual no país.

A noite ainda contou com o discurso da coordenadora geral da Mostra, Raquel Hallak, que subiu ao palco ao lado de Quintino Vargas: “A força de um país está na capacidade de produzir sentidos, nos lembra Milton Santos. É inspirada nesta mensagem que começamos hoje a dar asas à nossa imaginação. Vamos viajar pelo cinema brasileiro. Esse gesto coletivo de olhar, sentir e imaginar outros mundos possíveis. Estar aqui na Mostra de Tiradentes é reafirmar que ver um filme é compartilhar o tempo e o espaço. É construir sentidos em comum. É reconhecer que o cinema não é apenas entretenimento. O cinema é uma maneira de existir. É cultura, é economia criativa, é trabalho, é formação de pensamento crítico, influencia a maneira como nos vemos e como somos vistos no mundo”.

E continuou: “Começa aqui, hoje, mais do que uma mostra de cinema. Começa um gesto, um posicionamento, uma travessia coletiva. O cinema brasileiro que vamos ver aqui é plural, é diverso, é inquieto. Não se trata de artistas individuais ou de filmes especiais. Nos últimos anos, a palavra soberania voltou ao centro do debate público. Falamos de independência política, econômica, tecnológica, mas é preciso dizer com clareza que não há soberania sem imaginação. Não há autonomia real se não formos capazes de criar imagens próprias, narrativas próprias e futuros pensados a partir de nós mesmos”. Ao lado de parceiros institucionais, Raquel também lançou oficialmente as atividades de 2026 do programa Cinema sem Fronteiras anunciando as datas da CineOP e da CineBH.

A secretária do Audiovisual, Joelma Gonzaga, também esteve presente e abriu oficialmente o calendário audiovisual brasileiro: “Nós estamos com dez filmes em Berlim. Estamos com 137 filmes aqui. E isso não é por acaso, gente. Quando um filme brasileiro entra em cartaz, o Brasil entra em cartaz. E o Brasil está em cartaz no mundo todo e isso não é por acaso. Isso é fruto de política pública”. A ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, também marcou presença na abertura e discursou: “Vivemos um momento importantíssimo de projeção do cinema brasileiro no mundo. E isso significa algo mais profundo: somos um povo que sabe transformar memória, dor, alegria e luta em narrativa”

Folia de Reis na abertura da Mostra Tiradentes

Depois disso, o público se emocionou com a entrega do Troféu Barroco para a grande homenageada desta 29ª edição: a atriz, diretora e roteirista Karine Teles, que recebeu a honraria das mãos dos filhos, Arthur e Francisco, e do amigo Camilo Pellegrini (clique aqui e saiba mais). Além disso, a Mostra também prestou homenagem a dois grandes artistas mineiros que faleceram recentemente: a atriz Teuda Bara e o cantor Lô Borges

Fechando a noite de abertura, foi exibido, em pré-estreia mundial, o novo filme de Julio Bressane, codirigido por Rodrigo Lima: O Fantasma da Ópera, que foi construído a partir de imagens captadas durante os intervalos de filmagem do longa-metragem inédito Pitico, estrelado por Paulo Betti. Embora dialogue com a tradição do making of, o curta (com duração de 25 minutos) se desloca para uma reflexão especulativa sobre a própria construção da imagem cinematográfica, traço central da estética de Bressane e de seu fascínio pela metalinguagem do processo de criação. A escolha do filme para a abertura ganha significado adicional por coincidir com a celebração dos 80 anos do cineasta, a serem completados em fevereiro.

Longe de um documentário convencional, o filme de abertura desta edição se constrói como um making of especulativo, em que imagem e pensamento se encontram de forma sensível, autorreflexiva e livre de amarras narrativas. Ao evocar a história do Brasil como fabulação e a imagem como território incapturável pelo poder, Bressane reafirma um cinema experimental que pensa por si e reinventa o mundo. Sua estreia na abertura da Mostra reafirma o desejo de um cinema movido pelo mistério, pelo prazer e pela liberdade absoluta das imagens. O filme é produzido por Rosa Dias, Tande Bressane, Noa Bressane, Bruno Safadi e Julio Bressane; a fotografia é de Pablo Baião com direção de arte de Moa Batsow, Lina Serra e Bela Azevedo. O som é assinado por Antônio Grosso e Damião Lopes; a distribuição é da TB Produções

Ovacionado pelo público presente, Bressane subiu ao palco e discursou: “Vou dizer a vocês o seguinte: esse é um filme hospitaleiro, tem apenas 25 minutos e vamos dizer que vocês poderão beber um pouco de uma água cristalina. Peço paciência a vocês e agradeço. É um susto ver aqui tanta gente assim. Eu espero que não seja alguma coisa que vá perturbar a beleza dessa noite, viu?”

E finalizou: “O cinema é feito com muitas mãos. Não é feito por uma pessoa, isso não existe. O cinema é feito com muitas mãos. E essa é a dificuldade do cinema. Essa é a dificuldade da imagem. É você ter paciência para perceber uma coisa que não te agrada. O que interessa é o que não agrada. Então, essa é a dificuldade. 23 de janeiro de 2026: nunca vou esquecer dessa noite”

A 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes segue até 31 de janeiro com 137 filmes brasileiros: 43 longas e 93 curtas-metragens, vindos de 21 estados. Os títulos serão exibidos, com programação gratuita, em 21 mostras ou sessões especiais, além de debates, rodas de conversa, lançamentos, shows musicais e discussões de políticas públicas. 

*O CINEVITOR está em Tiradentes e você acompanha a cobertura do festival por aqui, pelo canal do YouTube e pelas redes sociais: Twitter, Facebook e Instagram.

Fotos: Leo Fontes/Leo Lara/Universo Produção.

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