20ª CineBH anuncia seleção com 102 produções nacionais e internacionais

por: Cinevitor
Aysha Layon em Sabes de Mim, Agora Esqueça, de Denise Vieira

A CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte celebra 20 edições em 2026 e será realizada entre os dias 22 e 27 de setembro na capital mineira. São duas décadas de atividades dedicadas a pensar o cinema brasileiro nas suas relações com o mercado, a coprodução e as parcerias internacionais.

Com programação sempre inteiramente gratuita, o evento reúne filmes brasileiros e estrangeiros, com foco no cinema latino-americano, com pré-estreias, sessões comentadas, debates, atividades formativas e ações de mercado em diferentes espaços de Belo Horizonte, em Minas Gerais.

Nesta 20ª edição, serão exibidos 102 filmes, sendo 49 longas e 53 curtas-metragens, distribuídos em 69 sessões. A seleção reúne produções brasileiras de 18 estados, além de filmes e coproduções de oito países. Os títulos integram as mostras Horizonte, Território, Vertentes, Praça, CineMundi, Homenagem + Diálogos Históricos, A Cidade em Movimento, Curtas Contemporâneos, Retrospectiva 20 Anos, Olhares das Argentinas, Mostrinha e Cine-Expressão: A Escola vai ao Cinema, além das sessões de abertura, Clássica e Família, do Cine-Concerto Central do Brasil e da programação on-line. As atividades ocupam oito espaços da capital mineira.

Integrado à programação da CineBH, acontece também o 17º Brasil CineMundi – Encontro Internacional de Coprodução, o evento de mercado do cinema brasileiro, que amplia a conexão entre a produção brasileira e profissionais e instituições da indústria audiovisual internacional.

A abertura da CineBH 2026 acontecerá no Grande Teatro do Cine Theatro Brasil com a pré-estreia nacional de Se Eu Fosse Vivo… Vivia, novo longa-metragem do cineasta mineiro André Novais Oliveira, produzido pela Filmes de Plástico. A cerimônia também prestará homenagens à cineasta paraguaia Paz Encina e à escritora e atriz Conceição Evaristo, que estarão em Belo Horizonte para receber o Troféu Horizonte. Paz Encina terá sua trajetória celebrada na Mostra Homenagem e Diálogos Históricos e ministrará uma masterclass; Conceição Evaristo, por sua vez, participará da sessão de abertura e faz sua estreia como atriz no filme de André Novais Oliveira.

A pergunta Cinema Latino-Americano: O que será? orienta as reflexões da 20ª CineBH, sendo este ano a temática central. A ideia da proposta curatorial parte de incertezas políticas, sociais e econômicas que atravessam a América Latina em 2026 e de como mudanças de governo, redução de investimentos públicos, fragilização de políticas culturais e disputas em torno da regulação interferem nas condições de produção e circulação dos cinemas do continente: “As escolhas cinematográficas tendem a também ser, em alguma medida, afetadas e estimuladas por essas conjunturas, sem necessariamente serem reflexos e representações diretas delas”, afirma Cléber Eduardo, coordenador curatorial da CineBH.

Trajeto do Desmoronamento: curta potiguar dirigido por Helena Antunes

O título da temática recupera a canção O que será?, de Chico Buarque, lançada em 1976 e incorporada à trilha sonora de Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto. Exatamente 50 anos depois, o filme ganha sessão especial na CineBH, criando assim uma ponte entre dois períodos separados por meio século. Se em 1976 boa parte da América Latina vivia sob regimes militares e ainda havia uma compreensão mais unitária do chamado Nuevo Cine Latino-Americano, em 2026 a produção do continente se apresenta de maneira mais fragmentada e heterogênea: “O cinema latino-americano com o qual tomamos contato na seleção e na programação da CineBH em 2025 e em 2026 é composto de muitos cinemas diferentes e distintos. É justamente essa variedade de difícil síntese que compõe um universo latino-americano de filmes e sociedades. Não existe pureza possível, apenas misturas em conflitos”, afirma Cléber.

A relação entre memória, história, território e permanência que atravessa a temática encontra um ponto de convergência na obra de Paz Encina, homenageada desta edição da CineBH. Nascida em Assunção e formada em direção cinematográfica pela Universidad del Cine de Buenos Aires, a realizadora construiu nas últimas duas décadas uma filmografia ligada à história e às memórias do Paraguai. Reconhecida internacionalmente desde 2006, Encina se consolidou como uma das cineastas centrais da produção latino-americana contemporânea, ao lado da argentina Lucrecia Martel, e desenvolveu um trabalho em que imagem, som, ausência e memória estabelecem relações particulares com os processos históricos de seu país.

Seu primeiro longa, Hamaca Paraguaya, completa 20 anos em 2026. O filme estreou na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes e recebeu o Prêmio FIPRESCI. Falado em guarani e centrado num casal de camponeses idosos à espera do retorno do filho da Guerra do Chaco, tornou-se também um marco para o cinema paraguaio ao ser o primeiro longa realizado no país desde 1978. A CineBH exibirá o filme na Mostra Diálogos Históricos, junto a Ejercicios de Memoria (2016), construído a partir das lembranças dos filhos do opositor da ditadura de Alfredo Stroessner, Agustín Goiburú; e Carta a un Viejo Master (2024), coprodução com o Brasil na qual Encina estabelece uma carta cinematográfica endereçada a Eduardo Coutinho. As três sessões terão bate-papos com a diretora.

A 20ª CineBH também homenageia Conceição Evaristo, uma das mais importantes escritoras brasileiras contemporâneas, cuja obra é marcada pela escrevivência e pela presença das experiências de mulheres negras na literatura. Mineira de Belo Horizonte, autora de livros como Ponciá Vicêncio, Becos da Memória e Olhos d’Água, Conceição faz sua estreia como atriz de cinema em Se Eu Fosse Vivo… Vivia, filme de abertura dirigido por André Novais Oliveira. A homenagem reconhece sua trajetória e a força de uma obra que atravessa a literatura, a educação e a cultura brasileira, e celebra sua chegada às telas na edição de 20 anos da Mostra.

Sobre a seleção de filmes, vale destacar que a diversidade se manifesta diretamente nas mostras Horizonte e Território, que formam os dois recortes competitivos latino-americanos da edição. Novidade este ano, a Horizonte é dedicada exclusivamente a primeiros longas-metragens ou estreias de realizadores na direção de longas e coloca em discussão as condições enfrentadas por quem inicia uma filmografia no continente. Segundo a curadoria, esse conjunto mostra a variedade de formas cinematográficas e os deslocamentos geográficos de uma geração de realizadores, incluindo cineastas que trabalham fora de seus países de origem.

Na MOSTRA HORIZONTE, os filmes são:

Cuba y la Noche, de Sergio Fernandez Borrás (Cuba/Espanha)
El Sonido Es el Cuerpo, de Diego Andrés Murillo (Colômbia)
Jankee, de Yamel Thompson (México/Argentina)
Los Nadadores, de Sol Iglesias SK (Argentina/México/EUA)
Sabes de Mim, Agora Esqueça, de Denise Vieira (Brasil)
Si Vas Para Chile, de Amilcar Infante e Sebastián González Méndez (Chile)

Já a Mostra Território, seção competitiva na CineBH desde 2023, passa por reformulação: deixa de limitar a participação a cineastas com até três longas e passa a receber realizadores em diferentes momentos de suas trajetórias. O princípio territorial permanece compreendido em dimensões geográficas, culturais e subjetivas. Desertos, espaços rurais, bairros, corpos, arquivos e diferentes formas de pertencimento atravessam a seleção, com procedimentos documentais, ensaísticos e performáticos. A curadoria das mostras Horizonte e Território ficou a cargo de Cléber Eduardo, Ester Marçal Fér, Leonardo Amaral, Mariana Queen Nwabasili e Gustavo Maan.

Na MOSTRA TERRITÓRIO, os filmes são:

Calle Cuba, de Vanessa Batista (Cuba)
Deserto Vértigo, de Rocío Barbenza (Argentina)
La Vida que Vendrá, de Karin Cuyul (Chile)
Nuestro Cuerpo Es una Estrella que se Expande, de Semillites Hernández Velasco e Tania Hernández Velasco (México)
Pukem Swa, de Samuel Moreno Alvarez (Colômbia)
Telúrica, a Íntima Utopia, de Mariana Lacerda (Brasil)

A programação segue com a Mostra Vertentes, na qual filmes brasileiros contemporâneos de grande repercussão terão pré-estreia nacional e bate-papos após cada sessão. Entre eles, títulos que vêm chamando atenção em circuitos e premiações. A curadoria foi feita por Marcelo Miranda e Rubens Anzolin.

Na MOSTRA VERTENTES, os filmes são:

Adulto/Homem, de Pedro Diógenes (CE)
Entre o Sucesso e a Lama, de Cristiano Burlan (SP)
Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha, de Janaína Marques (CE)
Leite em Pó, de Carlos Segundo (MG/SP/RN)
O Filho da Puta, de Otto Guerra, Tanya Anaya, Sávio Leite e Érica Maradona (RS/MG)
Pele de Rinoceronte, de Marcello Ludwig Maia (RJ)
Pequenas Tragédias, de Daniel Nolasco (GO)
Reparação, de Marcus Curvelo (BA)
Virtuosas, de Cíntia Domit Bittar (SC)
Yellow Cake, de Tiago Melo (PE)

Cena do longa goiano Pequenas Tragédias, de Daniel Nolasco

Este ano, um recorte especial intitulado Olhares da Argentina exibe El Príncipe de Nanawa (Argentina/Paraguai), de Clarisa Navas; e ¡Caigan las rosas blancas! (Argentina/Espanha), de Albertina Carri; e inclui ainda Nuestra Tierra (Argentina), de Lucrecia Martel. A curadoria é assinada por Cléber Eduardo.

Na grade de curtas-metragens brasileiros contemporâneos, 18 filmes estão organizados em três sessões de Curtas Contemporâneos e na tradicional sessão Curtas no Almoço, reunindo trabalhos que transitam por diferentes formas narrativas e procedimentos, entre ficção, documentário, animação e experimentação. Os filmes selecionados estabelecem relações com territórios, questões de gênero e identidade, vínculos familiares e afetivos, conflitos sociais e ambientais e exploram diferentes possibilidades de imaginário. A seleção também evidencia uma ampla diversidade regional, com produções de Amazonas, Ceará, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e São Paulo, sendo total de 11 estados em todas as cinco regiões do país. A seleção de curtas foi feita por Rubens Fabricio Anzolin e Marcelo Miranda.

Na MOSTRA CURTAS, os filmes são:

Andança, de Ben Hur Nogueira (MG)
As Plantas Sabem o que Pensamos, de Sávio Leite (MG)
Dia dos Pais, de Bernardo Ale Abinader (AM)
Gifs Galore, de Alysson Matheus (MG)
Hacker Leonilia, de Gustavo Fontele Dourado (DF)
Lena, de Lanna Carvalho (PE)
Ligação à Noite, de Arthur Amaral (RS)
O Homem-Som, de Giovani Beloto (SP)
Para não ser levada por qualquer ventania, de Eleonora Loner (RS)
Paty, de Maria Luiza Staut (MS)
Peixe Morto, de João Fontenele (CE)
Quando abandonamos a humanidade, o que resta de nós?, de Vita Pereira (SP)
Roteiro para uma Fuga, de Priscila Nascimento (PE)
Subsolo, de Miwa Yanagizawa e Angel Ferreira (RJ)
Tela Quente, de Silvino Mendonça (GO)
Trajeto do Desmoronamento, de Helena Antunes (RN)
TV Entreaberta, de Mateus Compart (MG)
Windows 51, de Sandro Garcia (RJ/PE)

Para marcar os 20 anos da CineBH, acontece uma retrospectiva comemorativa, que recupera filmes brasileiros importantes exibidos ao longo desse tempo na Mostra e ilustra transformações de mercado, de estética e de contexto, tanto dos longas-metragens quanto do próprio evento.

Na MOSTRA RETROSPECTIVA 20 ANOS, os filmes são:

A Falta que me Faz, de Marilia Rocha (2009)
A Via Láctea, de Lina Chamie (2007)
Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky (2001)
Corpo Elétrico, de Marcelo Caetano (2017)
Elon Não Acredita na Morte, de Ricardo Alves Jr. (2016)
Lóki: Arnaldo Baptista, de Paulo Henrique Fontenelle (2008)
Mate-me Por Favor, de Anita Rocha da Silveira (2015)
Santiago, de João Moreira Salles (2006)
Sol Alegria, de Tavinho Teixeira e Mariah Teixeira (2018)

Cena do curta mineiro Maxita, de Mariana Machado e Ana Maria Machado

Mostra Praça deste ano exibe dois longas dirigidos por artistas mais conhecidos na atuação e que agora aparecem também atrás das câmeras: Querido Mundo, de Miguel Falabella, codirigido por Hsu Chien; e Sexa, de Gloria Pires. A animação mineira Ana, En Passant, de Fernanda Salgado, e a aventura Folclórica, do capixaba Rodrigo Aragão, todo feito com bonecos e marionetes, são os outros títulos que estarão na Praça da Liberdade em programas para toda a família.

Em sua 11ª edição, a Mostra A Cidade em Movimento, com curadoria de Bruna Piantino, segue seu percurso de exibir a produção independente de Belo Horizonte e região metropolitana. Sob o título, este ano, de Abecedário da Existência, a edição está organizada em cinco programas (15 curtas e 2 longas-metragens) que partem da cidade-território para investigar dimensões da experiência humana, das relações com o espaço e o corpo às questões ambientais, à linguagem e às formas de existência coletiva.

Na MOSTRA A CIDADE EM MOVIMENTO, os filmes são:

Bloco Fantasma, de Rafael Zorzal
Como Atravessar Paredes: A História do Centro Cultural Galpão Cine Horto, de Chico Pelúcio, Henrique Vertchenko, Marcos Coletta e Rodolfo Magalhães
Cordões e Sinos de Além-mar, de Yuji Kodato e Jeremias Brasileiro
Dentro do Meu Peito Mora um Cão, de Gabriel Afonso
Do Acaba Mundo ao Pindura Saia, de Iakima Delamare e Thiago Rosado
Mães do Morro, de Isabela Ferreira da Silva 
Maxita, de Mariana Machado e Ana Maria Machado
Metamórfike, de Lui Nascimento
Não é Sobre Pastéis, de Tiago Ribeiro
Nós é Ruim e Mora Longe, de Ítalo Almeida
O Maestro, de Vinícius Correia
Ouro de Tolo Remix, de Gabriel Afonso
Queremos Praia, Anunciação…, de Chico Pelúcio, Marcelo Braga e Rodolfo Magalhães
Recaída, de Samuel Costa
Sexta, de Pedro Cordeiro
Todas as Cores que Eu Já Senti na Vida, de Bernardo Franco
Um Mar, de Duna Dias e Leonardo Augusto

Ao longo de suas 16 edições, mais de 480 projetos já passaram pelo Brasil CineMundi, encontro de coprodução e laboratório que se realiza no âmbito da Mostra CineBH. Enquanto representantes de 37 novos projetos e obras em fase de montagem (work in progress) participam das atividades do 17º encontro, a Mostra CineMundi, que faz parte da programação da CineBH, se encarrega de mostrar os resultados desse trabalho intenso.

O objetivo é fechar o ciclo de acompanhamento dos projetos e compartilhar com os convidados do festival e com o público de Belo Horizonte os filmes que receberam a contribuição de encontros, mentorias e parcerias firmadas no evento, muitas vezes anos antes da estreia. Nesta edição da 20ª CineBH, dez filmes com passagem pelo Brasil CineMundi integram diferentes seções da programação: três na própria Mostra CineMundi, três na Mostra Vertentes, um na Mostra Praça e três na Mostra Retrospectiva 20 Anos, dedicada às duas décadas do festival. Entre os destaques, estão: A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai; Nada a Fazer, de Leandra Leal; Olhe para Mim, de Rafhael Barbosa; entre outros.

Dona Flor e seus Dois Maridos celebra 50 anos em 2026 e por isso foi escolhido para abrir a mais nova seção da CineBH, a mostra Clássicos do Brasil, que anualmente exibirá um filme brasileiro que esteja celebrando alguma data histórica significativa. Um dos maiores fenômenos do país, Dona Flor e Seus Dois Maridos, dirigido por Bruno Barreto, adaptado do romance de Jorge Amado e com trilha sonora de Chico Buarque, foi lançado em 1976, durante o período de consolidação da Embrafilme e de fortalecimento de uma produção nacional capaz de disputar o público com o cinema estrangeiro. Barreto, então com 21 anos de idade, estava já em seu terceiro longa-metragem. Aqui ele combina comédia, erotismo, fantasia e observação dos costumes e acha uma forma acessível e vigorosa para trabalhar as tensões entre desejo, casamento, moralidade e cinismo numa sociedade brasilera marcada pelo patriarcalismo.

A Bahia recriada pelo filme aparece como ambientação pitoresca e território de pura identidade brasileira e cenário ideal para os dilemas da personagem-título. Dividida entre a estabilidade oferecida por Teodoro e o desejo despertado pelo fantasma de Vadinho, Dona Flor recusa a obrigação de escolher entre dimensões contraditórias de sua experiência. Na conciliação irreverente entre seu corpo e as convenções sociais exigidas a ela, no trato com prazer e respeitabilidade, realidade e imaginação, o filme mergulha num imaginário quase sincrético, cheio da malemolência bem retratada nas letras de Jorge Amado.

A presença de Sonia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça foi decisiva para a força do filme, além de sua sensualidade vibrante, que desafiava, em plena ditadura militar, os códigos conservadores vigentes. Visto por mais de 10,7 milhões de espectadores, o filme manteve por mais de três décadas o recorde de público de uma produção brasileira. Internacionalmente também foi marcante: recebeu indicação ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e catapultou o nome de Sonia Braga, que foi indicada ao BAFTA, a uma carreira internacional de décadas. No Brasil, levou vários prêmios no Festival de Gramado. A trajetória do diretor Bruno Barreto também foi positivamente afetada, a ponto de, duas décadas depois, ele ter seu O Que é Isso, Companheiro? (1997) indicado ao Oscar de filme estrangeiro.

Dona Flor e seus Dois Maridos: 50 anos do lançamento

Além disso, na 20ª CineBH, Central do Brasil será exibido em formato de Cine Concerto, preservando todos os diálogos e efeitos sonoros enquanto sua trilha é executada ao vivo por uma orquestra. Com concepção, direção e piano de Anselmo Mancini, a apresentação conta com o Quinteto de Cordas Almai: Alessandro Figueredo, no violino e na rabeca; Anderson Cardoso, no segundo violino; Guilherme Bomfim, na viola; Thiago de Andrade, no violoncelo; Cleber Castro, no contrabaixo; e Thiago Righi, no bandolim e na viola caipira.

Para assegurar a correspondência entre imagem e música, Mancini desenvolveu um sistema próprio de sincronização, com monitoração em vídeo e um songbook que reproduz as composições conforme a edição do filme. Pioneiro no país, o projeto é apresentado como o primeiro Cine Concerto criado a partir de um filme sonoro brasileiro e oferece ao público uma nova experiência com uma das obras fundamentais da Retomada.

Lançado em 1998, no período de consolidação da Retomada, Central do Brasil tornou-se um marco da reconstrução do cinema brasileiro e de sua projeção internacional. Ao combinar vocação popular, apuro formal, a emoção do melodrama e a consciência de uma trama profundamente brasileira, o filme conquistou o Urso de Ouro no Festival de Berlim, rendeu a Fernanda Montenegro o Urso de Prata de melhor atriz e recebeu indicações ao Oscar de melhor filme estrangeiro e melhor atriz. A interpretação de Montenegro, ao lado do jovem Vinícius de Oliveira, conduz uma obra que devolveu visibilidade mundial à produção nacional e demonstrou a possibilidade de conciliar identidade cultural, emoção e ampla comunicação com o público. Foi um grande sucesso que reverbera até hoje e marcou uma espécie de consolidação de prestígio da produção do país depois de muitos anos de desmontes.

Construído como um filme de viagem, Central do Brasil parte do espaço tumultuado da estação ferroviária carioca e atravessa o interior do país em busca de origens pessoais e reconstrução afetiva. As cartas escritas por Dora para pessoas que não dominam a palavra escrita funcionam como testemunhos de ausências, distâncias e vínculos interrompidos, ao mesmo tempo que revelam um Brasil marcado pela migração e pela dificuldade de comunicação. No percurso compartilhado por Dora e Josué, Walter Salles relaciona as paisagens de um vasto interior do Brasil à transformação interior dos personagens e faz do deslocamento geográfico um processo de abertura ao outro.

A formação de novos públicos também integra a programação da 20ª CineBH nas sessões do Programa Cine-Expressão e na Mostrinha, iniciativas voltadas à aproximação de crianças e estudantes com o audiovisual. As atividades propõem o cinema como espaço de experiência, descoberta e novos olhares e estimula o contato do público infantojuvenil com diferentes formas de narrativa e expressão. Com uma programação composta por 15 curtas-metragens, configurada de acordo com a faixa etária do público, a partir de critérios que incluem temática, conteúdo visual, tipos de linguagem, diálogos, e a complexidade da narrativa, o programa da Sessão Cine-Escola reúne obras que transitam entre animação e ficção, sustentando uma relação própria com o tempo, a imagem, o humor, o conflito e a imaginação. Cada sessão é pensada como uma composição de linguagens cinematográficas que dialogam entre si.

A programação da 20ª CineBH também se estende ao ambiente on-line, ampliando o acesso do público às atividades e aos conteúdos da mostra. Em parceria com o Itaú Cultural, a plataforma IC Play recebe uma seleção especial da programação, enquanto o site oficial disponibiliza um recorte da Mostra Retrospectiva 20 anos, reunindo títulos que celebram a trajetória do festival e revisitam momentos marcantes de sua história. A iniciativa reforça o compromisso da CineBH com a democratização do acesso ao cinema brasileiro e com a formação de novos públicos, levando parte de sua programação para além das salas de exibição e alcançando espectadores de diferentes regiões do país.

Dentro do Meu Peito Mora um Cão: curta dirigido pelo cineasta mineiro Gabriel Afonso

Integrado à CineBH, o Brasil CineMundi – Encontro Internacional de Coprodução chega à 17ª edição consolidado como espaço de encontro entre projetos brasileiros e a indústria audiovisual internacional. Em 2026, foram selecionados 37 projetos, distribuídos em cinco categorias: 10 na Horizonte, dedicada a longas de ficção em desenvolvimento; seis na DocBrasil, de documentários; seis na Foco Minas, exclusiva para projetos mineiros; cinco no Work in Progress (WIP), para filmes em finalização; e dez na Paradiso Multiplica. A seleção veio de um recorde de 375 inscrições e contempla projetos de 11 estados brasileiros: Minas Gerais lidera a presença, com 10 trabalhos, seguido por São Paulo, com nove, e Pernambuco, com cinco.

Mais de 50 convidados de 15 países participam das atividades do Brasil CineMundi, entre representantes de Alemanha, Argentina, Áustria, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Cuba, Espanha, França, Itália, México, República Dominicana, Senegal e Uruguai. Uma das novidades é a realização de sessões de pitching para 22 projetos das categorias Horizonte, DocBrasil e Foco Minas. Esses trabalhos participam também do Lab de Desenvolvimento e, juntamente com os cinco filmes do WIP, integram rodadas de negócios com representantes da indústria internacional. O programa oferece ainda atividades de preparação, consultorias e formação voltadas ao desenvolvimento dos projetos e à aproximação com potenciais parceiros.

A seleção desse cinema brasileiro do futuro apresenta diversidade regional e temática, com trabalhos de realizadores afro-brasileiros e LGBTQIA+, estreias de atrizes na direção e cineastas presentes em diferentes etapas de desenvolvimento de seus trabalhos.

Integrado à programação da CineBH e do Brasil CineMundi, o Seminário Internacional Entre Cinemas – CineBH + CineMundi 2026 será realizado de 23 a 26 de setembro, no Cine Theatro Brasil – Espaço Petrobras de Conexões. A programação reúne mais de 50 profissionais do Brasil e do exterior em mais de 20 atividades, entre cinco debates, seis painéis, cinco masterclasses, duas rodas de conversa, workshop, estudo de caso e sessão de trabalho.

Outro marco do aniversário da Mostra será o lançamento do livro Territórios do Cinema – CineBH 20 anos, que apresenta as perspectivas construídas nas trajetórias da CineBH e reflexões sobre o cinema latino-americano; e o livro O Cinema Brasileiro no Mundo, publicação do Brasil CineMundi que celebra 17 edições. Ambos abordam criação, pensamento crítico, políticas audiovisuais, desenvolvimento de projetos, mercado, internacionalização e circulação e serão lançadas no encerramento do Seminário.

A 20ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte e o 17º Brasil CineMundi integram o Cinema sem Fronteiras 2026, programa internacional de audiovisual idealizado pela Universo Produção e que reúne também a Mostra de Cinema de Tiradentes (centrada na produção contemporânea, em janeiro) e a CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto (que difunde o audiovisual como patrimônio e ferramenta de educação, em junho).

Fotos: Victor de Melo/Bia Azevedo/Felipe Quintelas/Divulgação.

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