
Morreu neste domingo, 11/01, aos 48 anos, em Natal, no Rio Grande do Norte, a atriz e diretora Titina Medeiros por complicações devido a um câncer no pâncreas. Uma artista completa, de múltiplos talentos, deixa um legado imensurável nas artes.
Nascida Izabel Cristina de Medeiros, natural de Currais Novos, Seridó potiguar, foi criada em Acari e iniciou os estudos cênicos aos 19 anos de idade. Sua estreia no teatro foi como uma fada em A Bela Adormecida, em 1992, dirigida por Jesiel Figueiredo. Entre 1996 e 1998 fez parte do Grupo Tambor de Teatro, de João Marcelino, com quem encenou O Príncipe do Barro Branco. Formou-se em jornalismo pela UFRN, Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Com mais de 30 anos de carreira artística, grande parte deste período atuou em peças teatrais na companhia Clowns de Shakespeare, em Natal, onde representou diversos personagens em peças premiadas como Sua Incelência, Ricardo III, de Gabriel Villela, em que fazia o papel de rainha Elizabeth e foi consagrada com o Troféu Cultura e o Troféu Ademilde Fonseca; além de Dos Prazeres e dos Pedaços, Muito Barulho por Quase Nada, Roda Chico, entre muitas outras. Em 2007, no dia 11 de janeiro, criou ao lado de Quitéria Kelly, o Grupo Carmin, que resultou na montagem da peça Pobres de Marré.
Em 2011, ainda encenou em Brasília e no Rio de Janeiro a peça A Mulher Revoltada, com texto do jornalista Xico Sá e direção de Fernando Yamamoto. Em 2013, interpretou Ofélia em Hamlet: Um Relato Dramático Medieval, com direção de Marcio Aurelio. Já em 2015, atuou em Dois Amores y Um Bicho, com César Ferrário e João Júnior e direção de Renato Carrera.
O reconhecimento além dos palcos, para o grande público, começou em 2003 quando participou do quadro Brasil Total do Fantástico, na TV Globo. Atriz com experiência em teatro, TV, música e produção, Titina teve sua formação dentro dos grupos de teatro de Natal. Foi no seio desses coletivos, construindo espetáculos e investigando processos criativos junto a outros artistas que construiu caminhos para a investigação cênica e o fazer teatral.
Titina Medeiros na peça Clenyldes e Clenôrys
Em 2017, criou a Casa de Zoé, produtora cultural com o objetivo de promover a construção de obras teatrais populares e instigantes ao grande público. Em sete anos, realizaram três espetáculos: Meu Seridó (com dramaturgia de Filipe Miguez, no qual recebeu o Prêmio Cenym de Teatro); Sinapse Darwin e Clenyldes e Clenôrys, ambas com dramaturgia e direção de César Ferrario, companheiro de Titina. Ainda nos palcos, estreou na direção de um espetáculo em 2022 com Candeia, encenado pelo Grupo Estação de Teatro e que foi indicado ao Prêmio Shell.
Em 2012, alcançou o sucesso nacional e popular ao ser convidada pelos autores Filipe Miguez e Izabel de Oliveira para participar do elenco de Cheias de Charme, novela da Rede Globo. Na trama, se destacou ao interpretar a destrambelhada Socorro, assistente de Chayene, vivida por Cláudia Abreu, com quem criou um laço afetivo de amizade. A personagem Socorro Cordeiro de Jesus lhe rendeu alguns prêmios, entre eles, o de Atriz Revelação no Melhores do Ano do Domingão do Faustão. Seguiu carreira na TV e participou de outros trabalhos, como: as novelas Geração Brasil e A Lei do Amor; a supersérie Onde Nascem os Fortes; o humorístico Os Roni; e as séries Chão de Estrelas e Cangaço Novo.
Em 2023 fez uma participação especial na novela Amor Perfeito, da Rede Globo, ao interpretar Alzira Soriano, política potiguar, conterrânea de Titina, que foi a primeira mulher a ser eleita prefeita de um município na América Latina. Em Mar do Sertão, novela de sucesso da Rede Globo, interpretou Nivalda Menezes; personagem que voltou em No Rancho Fundo, novela exibida em 2024, sendo seu último trabalho nas telinhas.
Titina Medeiros também se dedicou ao cinema. Entre diversos trabalhos, se destacou no longa Filhos do Mangue, de Eliane Caffé, que foi exibido no Festival de Cinema de Gramado, em 2024, e rodado em Barra do Cunhaú, no Rio Grande do Norte. Com o curta-metragem Ladeira Abaixo, de Ismael Moura, recebeu diversos prêmios, entre eles, melhor atriz no Curta Caicó e Fest Aruanda. No audiovisual, também participou do episódio piloto da série Primas, ainda inédita, e do curta Dionísia, poema além da floresta, de Nilson Eloy. Seu último trabalho nas telonas foi no longa inédito Leite em Pó, de Carlos Segundo, que ainda será lançado.
A morte de Titina Medeiros causou comoção nas redes sociais. Alice Carvalho, atriz potiguar, que está em Los Angeles para participar do Globo de Ouro com O Agente Secreto, postou o seguinte texto: “Conheci Titina aos 8 anos de idade na casa dos meus tios. Vi todas as suas peças, menos Pobres de Marré. Minha mestra encantada, beleza alada. Pessoa minha, amiga de todas as horas, grandes conselhos. Incentivou, financiou, comprou todos os ingressos, deu todas as dicas, foi minha professora de voz e corpo. Um dia disse pra ela que ia embora, desistir de ser atriz. Doía demais, não dava, era muita agonia. Ela ouviu calada minhas queixas tantas. Me disse pra ter calma. Eu queria ser igual Titina. Eu via Titina na TV e falava: eu vou ser igual Titina. Eu via Titina no teatro, eu imitava Titina. Eu imito Titina atuando quando digo que atuo, até hoje”.
No cinema: Titina Medeiros no curta Ladeira Abaixo
E continuou: “Titina pagou a gasolina do meu último teste quando eu disse que faria o último teste pra ouvir o último não da nossa profissão. Fomos juntas: eu, ela e Marcílio. Ela disse pra eu ter calma. Fiz o teste para um papel, ela pra outro. Passamos as duas. Minha vida mudou pra sempre. Na TV, nossa única contracena pública: Cangaço Novo. Eternizou minha admiração. 20 anos de amor. Doce, companheira, verdadeira, humilde, carinhosa, engraçada, forte, linda, iluminada. Única. Para toda vida. Minha amiga, minha mestra, abriu as portas pra mim. Não me deixou desistir porque ela nunca desistiu. Hoje o céu se abre em flor porque Isabel se encantou. Isabel Cristina, eu te amo! Que sorte ter seu bem querer”.
A atriz Cláudia Abreu, grande amiga de Titina, também prestou homenagem: “Titina, minha amiga, você é única. Nunca vai ter alguém como você. Te amei desde o primeiro momento. Viramos uma dupla, ficamos irmãs, rimos, nos divertimos muito dentro e fora de cena. Tínhamos tantos planos juntas… Celebro sua existência com todo o amor e com a alegria que você merece. Nunca vou te esquecer. Nunca. César, Arlindo, Vitor, Tiquinha, Nara e todos os amigos de Natal, queria muito estar aí com vocês. Mando todo o meu amor”.
César Ferrario, companheiro de Titina Medeiros, também a homenageou nas redes sociais: “Com o coração apertado e imensa saudade, comunico que ela partiu hoje deste plano. A dor da despedida é profunda, mas Titina sempre foi luz, alegria e presença inteira. Por isso, mesmo em meio ao luto, escolho lembrar quem ela foi: uma mulher generosa, positiva, apaixonada pela vida e pela arte, que acreditava que a existência não termina aqui. Titina deixa um legado imenso. Seu talento atravessou o teatro, a televisão e o cinema, marcou personagens, emocionou plateias e construiu uma trajetória feita de entrega, verdade e amor pelo que fazia. Cada trabalho, cada personagem, cada encontro, foi uma extensão da sua alma. Seguiremos honrando sua história, sua força e sua alegria de viver. Ela permanece viva em sua obra, nas memórias que construiu e no amor que espalhou por onde passou. Obrigada por tanto, Titina!”. O corpo da atriz será velado no Teatro Alberto Maranhão, em Natal, e seguirá para Acari, sua cidade.
Considerada percursora e uma representante do Rio Grande do Norte no mundo das artes, Titina Medeiros brilhou por onde passou: nos palcos, na TV, no cinema e na vida de todos que tiveram a oportunidade de conviver ao seu lado. Encantou-se. Agora ficam as lembranças mais lindas de uma mulher guerreira, forte, cheia de alegria e talento. Uma grande artista! Sua estrela e seu brilho serão eternos.
Fotos: Cleiton Thiele/Ag. Pressphoto/Brunno Martins/Divulgação.