Karine Teles é homenageada na abertura da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes

por: Cinevitor
Karine Teles recebeu o Troféu Barroco nesta 29ª edição da Mostra Tiradentes

Entre performance audiovisual e discursos potentes, a cerimônia de abertura da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes também foi marcada por um momento emocionante: a homenagem para a atriz, diretora e roteirista fluminense Karine Teles, uma das figuras centrais do cinema brasileiro contemporâneo.

Com trajetória marcada pelo trânsito entre o cinema independente e o audiovisual de grande alcance, Karine construiu uma carreira que dialoga diretamente com os valores defendidos pela temática desta edição. Para Francis Vogner, coordenador de curadoria da Mostra de Tiradentes, a escolha da atriz evidencia um ponto de intersecção fundamental de hoje: “A Karine é uma atriz que se formou na relação entre um cinema independente, de fatura autoral e inventiva, e as incursões no mainstream, em filmes e novelas voltados a um público mais amplo”. A versatilidade fez dela um rosto amplamente reconhecido, sem que isso a afastasse do núcleo mais experimental e criativo da produção nacional, defende o curador.

A homenagem destaca ainda como sua carreira traduz a pluralidade do próprio campo audiovisual autônomo: “O cinema brasileiro nunca foi uma coisa só. Ele é múltiplo, diverso e a trajetória da Karine prova isso”, observa Francis. A atriz, assim, sintetiza o desejo da Mostra de aproximar inventividade estética e diálogo com o público: “Ela é uma figura reconhecida pelo grande público e, ao mesmo tempo, profundamente respeitada no cinema independente. É um caso muito expressivo desse nosso desejo”. Inclusive, a atriz teve seu primeiro grande papel num filme exibido na Mostra Aurora, Riscado, de Gustavo Pizzi, em 2010, no Cine-Tenda, em Tiradentes.

Em sua trajetória, a atriz de 47 anos fez diversos trabalhos com a produtora mineira Filmes de Plástico, como os curtas-metragens Quinze, de Maurílio Martins (2014) e Nada, de Gabriel Martins (2017) e o longa-metragem No Coração do Mundo, de Gabriel Martins e Maurílio Martins (2019); esteve em sucessos de repercussão internacional, como Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert (2015), Benzinho, de Gustavo Pizzi (2018) e Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (2019); e participou de séries e telenovelas, entre elas, o remake de Vale Tudo, na Rede Globo.

Ovacionada pelo público presente no Cine-Tenda, a homenageada subiu ao palco ao lado dos filhos, Arthur e Francisco, e do amigo Camilo Pellegrini, que entregaram o Troféu Barroco: “É estranho receber um prêmio sabendo que você vai receber. Eu acho que a única coisa que eu consigo elaborar mesmo é agradecer”

E seguiu seu discurso: “Eu estive aqui pela primeira vez em 2007. Entrei nesse espaço e fiquei assistindo ao filme sonhando em ter um trabalho meu projetado nessa tela. Agora, quase 20 anos depois, ter o meu trabalho reconhecido e homenageado me dá uma nova força para não desistir. Quem trabalha com cultura, com educação e com arte no nosso país sabe que a gente tá o tempo todo recomeçando. São carreiras instáveis, imprevisíveis, uma montanha-russa frequente de emoções. Uma hora você tá tendo que dizer não para um trabalho porque você já tem outro, outra hora você está meses sem nenhum trabalho. Uma hora a gente tem Ministério da Cultura, outra hora a gente não tem. Uma hora tá todo mundo comemorando Oscar, outra hora somos os inimigos do país”

A homenageada no palco com os filhos e um grande amigo

Sob aplausos, Karine continuou: “É preciso persistir. É muito difícil. Não é nada glamoroso, não é nada romântico, é muito duro. Então eu agradeço demais pelo carinho do festival com o meu trabalho e espero que a Mostra siga existindo, siga crescendo, siga promovendo o encontro, outros debates, gerando novos olhares, novas perspectivas e futuros cinemas que vamos ver daqui para frente. Espero encontrar vocês por aí nos trabalhos, nas salas de cinema, nas comemorações, nas batalhas pelos nossos direitos, por um cinema cada vez mais plural e uma indústria cada vez mais consistente. Obrigada!”

No dia seguinte à homenagem, Karine Teles participou de uma coletiva de imprensa no Centro Cultural SESIMINAS Yves Alves e debateu sobre diversos assuntos. Primeiramente, elogiou a performance audiovisual realizada na cerimônia de abertura: “Foi bonito demais aquilo, foi muito emocionante. E eu ainda estou entendendo o que isso significa. Está sendo muito emocionante viver isso aqui na Mostra, que é esse lugar de discussão, de pensamento artístico, que estimula a criatividade e que traz a juventude”

Sobre sua trajetória artística, Karine voltou ao passado e relembrou, com carinho, o longa Riscado, dirigido por Gustavo Pizzi: “De todas as coisas que eu fiz até hoje, dos maiores aos menores projetos, eu só trabalhei com gente apaixonada e interessada. Mas, o Riscado definitivamente é um marco. Porque ele nasce de uma angústia profunda minha. E o filme aconteceu, foi super bem recebido e a gente ganhou um monte de prêmio. Eu acho que independente do que eu venha fazer no futuro, esse é o filme mais importante da minha vida. E ainda chegou junto com os meus filhos. Eu engravidei no processo de montagem e finalização”

Sobre suas escolhas profissionais, a atriz respondeu com sinceridade: “Eu queria responder que eu escolho o que eu quero, mas é mentira. Às vezes eu aceito o trabalho que se apresenta porque eu sou uma profissional, eu vivo disso e eu preciso pagar minhas contas. Então, quando eu tenho o privilégio de escolher o que eu vou fazer, eu escolho sempre o que me inspira mais criativamente, artisticamente e tenha os profissionais com quem eu tenho vontade de trabalhar. Já aceitei trabalho porque tinha uma fotógrafa maravilhosa, por exemplo. Então, assim, quando eu posso, eu escolho”

Karine também falou dos gêneros em que gostaria de atuar: “Eu adoraria fazer um filme de terror, um suspense, uma coisa que eu não fiz ainda. Tenho vontade de fazer comédia no cinema porque eu fiz pequenas participações. Isso é uma coisa que eu tenho muita vontade de fazer porque é um gênero que me interessa. Nossa, é muita coisa! Filme de época… Fiz uma pequena participação no Madame Satã [de Karim Aïnouz], que foi minha primeira vez num num set de cinema. Foi muito emocionante, mas eu fiz quatro ou cinco diárias. Tenho vontade de fazer muita coisa. Acho que isso, inclusive, era uma coisa que eu falava: ‘Caramba, meu trabalho tá sendo homenageado, mas eu me sinto ainda muito começando, eu acho que eu ainda tenho muita coisa para fazer”

Ainda na conversa com a imprensa, a artista revelou detalhes de seu próximo projeto como diretora: “Eu já dirigi dois curtas metragens: Otimismo e Romance. Já o Princesa é um projeto que eu comecei a desenvolver no núcleo criativo da Filmes de Plástico, que é essa produtora maravilhosa aqui de Minas. Temos uma parceria há muitos anos e tem um tempo que eu tô nessa luta para fazer meu primeiro longa. Todo mundo que já fez o primeiro filme, sabe que é difícil para caramba, demora muito. Tô tentando. É um filme que brinca com a ideia da comédia romântica, que a minha geração cresceu assistindo, que brinca com os contos de fada, que a gente cresceu lendo e aprendendo que o auge da felicidade de uma mulher seria ela se tornar uma princesa. E eu questiono muito isso. E essa é a brincadeira do filme”

Karine Teles na coletiva de imprensa 

O papo também rendeu um conselho muito especial da homenageada da Mostra Tiradentes para aqueles que estão começando: “As pessoas que estão começando agora estão chegando em um momento em que as formas de fazer arte estão muito mais acessíveis. A gente está longe de ter um cenário ideal no nosso país, de apoio, de incentivo, mas existem muitas iniciativas e eu acho que quem está querendo começar tem que sair assistindo tudo que pode. Não só cinema. Tem que ver teatro, tem que assistir show, tem que ir a museu. Tem que ler pra caramba e tem que olhar para o mundo, tem que ver sobre o que quer falar. Mesmo que seja falar sobre si mesmo, mesmo que seja querer ser uma celebridade ou influencer de moda, entendeu? Para tudo e para qualquer coisa que você decida fazer na sua vida, você tem que consumir o que já foi feito antes”

Sobre o sucesso de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho e protagonizado por Wagner Moura, que recebeu quatro indicações ao Oscar 2026, Karine Teles comentou: “Já assisti duas vezes e assistiria cinco. Eu moraria naquele filme. Eu sou muito apaixonada pelo Kleber. Eu conheço o trabalho dele desde os curtas-metragens. Acho que é um cinema corajoso, ousado, questionador e ele usa as referências sempre de maneira interessante e provocativa. Acho lindo que esse filme, com essa narrativa cheia de espaço, cheia de buraco, seja o filme que tá concorrendo a tantas categorias no Oscar, que é uma grande vitrine do cinema comercial, né? O Oscar é a festa do dinheiro. Muitas vezes o Oscar é eleição, é quem fez a melhor campanha, quem teve mais dinheiro para divulgar o filme”

E continuou o assunto: “Eu acho lindo que o Kleber tenha conquistado esse lugar de permanecer com o cinema autoral e provocativo dele e tenha conseguido apoio, distribuição e verba para fazer campanha porque a gente fica feliz quando ganha a Copa do Mundo, a gente fica feliz quando ganha medalha de ouro na ginástica. A gente tem que ficar feliz quando ganha indicação ao Oscar, quando ganha o Oscar porque é a nossa indústria. É uma coisa que tá sendo feita por nós dentro do nosso país e tendo reconhecimento internacional. Eu acho isso maravilhoso. Uma pessoa que talvez nunca tenha ido ao cinema na vida, vai lá assistir O Agente Secreto e ver aquela maravilha. E vai consumir cinema dali para frente. Acho muito válido, tô feliz para caramba!”.

Depois de muita conversa e trocas interessantes, Karine finalizou: “Eu sou privilegiada em muitos aspectos no nosso país. Então, não me sinto no direito de reclamar muito, não. Eu me sinto no dever de reclamar como alguém que acha que a gente precisa melhorar as nossas políticas públicas, como alguém que acha que a gente precisa melhorar o acesso à arte, à cultura e à educação no nosso país. Então, nesse lugar, eu reclamo. E de peito aberto”. Clique aqui e assista nossa entrevista especial com a homenageada

A 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes segue até 31 de janeiro com 136 filmes brasileiros: 43 longas e 93 curtas-metragens, vindos de 21 estados. Os títulos serão exibidos, com programação gratuita, em 21 mostras ou sessões especiais, além de debates, rodas de conversa, lançamentos, shows musicais e discussões de políticas públicas. 

*O CINEVITOR está em Tiradentes e você acompanha a cobertura do festival por aqui, pelo canal do YouTube e pelas redes sociais: Twitter, Facebook e Instagram.

Fotos: Leo Fontes/Leo Lara/Universo Produção. 

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