Festival de Berlim 2026: novos títulos brasileiros são selecionados 

por: Cinevitor
Verônica Cavalcanti no longa cearense Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha

Depois dos primeiros anúncios, a 76ª edição do Festival de Berlim, que acontecerá entre os dias 12 e 22 de fevereiro, revelou os títulos selecionados para as mostras Forum e Forum Expanded; além da seleção da Berlinale Series Market

A mostra Forum aguça o olhar para filmes de relevância social e como forma de reflexão estética. São filmes de pessoas que levam seu trabalho e seu impacto a sério: a maneira como ele afeta nossa convivência, nossas lutas, nossas reconciliações, nossa história e nossas narrativas; como a união, a beleza e a solidariedade são vivenciadas e como moldamos nosso presente e futuro social, cultural, ecológico e político.

Aqui, o cinema brasileiro marca presença com o filme cearense Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha, primeiro longa dirigido por Janaína Marques. Produzido pela Delírio Filmes e Moçambique Audiovisual, o título se constrói como um road movie do inconsciente, uma travessia sensorial guiada pela imaginação como forma de cura.

A seleção foi recebida pela equipe como a coroação de um longo trabalho. Para a diretora, ter a première mundial na mostra Forum da Berlinale já é um prêmio; foi onde estrearam filmes de alguns de seus cineastas favoritos, como Aki Kaurismäki e Tsai Ming-Liang: “Eu sinto que é o lugar que o filme deveria estar”

Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha se desenvolve como um retrato íntimo de uma mulher convocada a revisitar sua própria história quando já não consegue se reconhecer nela. Diante da dificuldade de acessar uma memória feliz, a protagonista Rosa, vivida por Verônica Cavalcanti, mergulha numa busca interior que se torna a própria narrativa do longa. Entre o real e o imaginado, a realidade começa a ceder espaço ao sonho, ao delírio e à memória, uma jornada íntima em que Rosa reencontra a mãe, interpretada por Luciana Souza, e a transforma em parceira de estrada.

Para Marques, nascida em Brasília, mas criada no Ceará, essa jornada é, antes de tudo, um gesto de sobrevivência: “Eu acho que é um filme sobre a vontade de viver, sabe?”, afirma. Incapaz de acessar lembranças felizes, Rosa cria seus próprios caminhos, e a viagem com a mãe ganha um caráter íntimo e restaurador. A diretora afirma que se conecta à personagem a partir do reconhecimento do corpo feminino como território atravessado por imposições e silenciamentos. O delírio surge como gesto de autopreservação: “O nosso próprio corpo, como forma de sobrevivência, acaba buscando certos delírios”, diz Janaína. Ao decidir levar a mãe em sua viagem, o filme afirma uma dimensão de sororidade e memória compartilhada.

Iracema Pankararu no curta brasileiro Floresta do Fim do Mundo

Para o produtor cearense Maurício Macêdo, a Berlinale tem uma importância estratégica porque impulsiona a carreira internacional do longa e antecede um lançamento comercial já confirmado no Brasil, previsto para outubro de 2026, com patrocínio do BNDES. A estreia internacional marca um novo momento na trajetória do filme. A jornada de Rosa e Dalva, que nasceu de uma busca íntima e atravessou paisagens de sonho e delírio, agora se prepara para conquistar outras geografias, ampliando seu diálogo com públicos diversos. Entre o real e o imaginado, entre memória inventada e desejo de viver, o filme segue adiante como um gesto de reinvenção, afirmando a imaginação não como fuga, mas como forma possível de permanência no mundo.

O elenco conta também com Fabíola Líper, Christiane de Lavor, Ridson Reis, Pedro Domingues, Lua Arellano, Paulo Ess, Max Eluard, Jéssica Teixeira, Higor Fernandes, Graco Alves, Daniel Urano, Osiel Gomes e Marta Aurélia. Com roteiro assinado por Xenia Rivery, Pablo Arellano, Taís Monteiro e Pedro Cândido, a fotografia é de Ivo Lopes Araújo; a direção de arte é de Patrícia Passos e a trilha sonora de Clau Aniz. O som é assinado por Homer Mora, Moabe Filho e Pedrinho Moreira; a montagem é de Fred Benevides e Luísa Marques.

Já a mostra Forum Expanded, que tem como pano de fundo os atuais desenvolvimentos políticos em todo o mundo, a crescente incerteza e as guerras em curso, explora-se a questão de quem detém a autoridade para fazer avaliações e designações históricas, bem como a possibilidade de outras perspectivas. As instalações, filmes, vídeos e performances de 30 países trazem, assim, fissuras e rupturas à luz, apontando para coisas aparentemente esquecidas, cuja presença permanece palpável apesar de todas as tentativas de as negar. Muitas das obras cinematográficas selecionadas focam-se nas formas como indivíduos e Estados escrevem suas histórias.

Nesta seleção, o Brasil se destaca com Floresta do Fim do Mundo, de Felipe M. Bragança e Denilson Baniwa. O curta-metragem mostra Suely, uma mulher indígena que vive em uma grande cidade brasileira e passa seus dias em um pequeno apartamento. Em seus sonhos, ela se comunica com uma floresta e se conecta aos segredos de um mundo em transformação radical. O filme conta com Iracema Pankararu, Ítalo Martins e Ywyzar Tentehar no elenco. 

Enquanto isso, na Berlinale Series Market 2026, plataforma do European Film Market, que fornece uma prévia exclusiva das séries mais esperadas do mundo todo, o Brasil aparece com Emergência 53, série médica do Globoplay. A obra mergulha nos dramas e nas histórias dos profissionais da saúde que estão na linha de frente de uma unidade especial do serviço móvel de urgência. Profissionais brilhantes que, de alguma forma, foram marginalizados pelo sistema e vivem para evitar que outros morram.

A série foi criada por Claudio Torres, Márcio Maranhão e Andrucha Waddington, é escrita por Claudio Torres e Fábio Mendes e tem direção e produção de Andrucha Waddington e Claudio Torres. Com produção da Conspiração Filmes, o elenco conta com Fernanda Montenegro, Valentina Herszage, Yara de Novaes, Emílio de Mello, Heloísa Jorge, Ana Hikari, Raquel Villar, William Nascimento e Jaffar Bambirra

Conheça os novos filmes selecionados para o 76º Festival de Berlim:

FORUM

AnyMart, de Yusuke Iwasaki (Japão)
Auslandsreise, de Ted Fendt (Alemanha)
Black Lions: Roman Wolves, de Haile Gerima (Etiópia/EUA)
Cesarean Weekend, de Mohammad Schirvani (Irã)
Chronos: Fluss der Zeit, de Volker Koepp (Alemanha)
Crocodile, de The Critics e Pietra Brettkelly (Nova Zelândia/Nigéria)
De capul nostru, de Tudor Cristian Jurgiu (Romênia/Itália)
Doggerland, de Kim Ekberg (Suécia)
Effondrement, de Anat Even (França)
EIGHT BRIDGES, de James Benning (EUA)
Einar Schleef: Ich habe kein Deutschland gefunden, de Sandra Prechtel (Alemanha)
Everything Else Is Noise, de Nicolás Pereda (México/Alemanha/Canadá)
Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha, de Janaína Marques (Brasil)
Flying Tigers, de Madhusree Dutta (Alemanha/Índia)
Forest up in the Mountain, de Sofia Bordenave (Argentina)
Ghost in the Cell, de Joko Anwar (Indonésia)
Hear the Yellow, de Banu Sıvacı (Turquia)
If Pigeons Turned to Gold, de Pepa Lubojacki (Tchéquia/Eslováquia)
Joy Boy: A Tribute to Julius Eastman, de Mawena Yehouessi, Fallon Mayanja, Rob Jacobs, Victoire Karera Kampire, Paul Shemisi e Anne Reijniers (Bélgica)
Liebhaberinnen, de Koxi (Alemanha/Luxemburgo)
Lust, de Ralitza Petrova (Bulgária/Dinamarca/Suécia)
Masayume, de Nao Yoshigai (Japão)
Members of the Problematic Family, de R Gowtham (Índia)
My Name, de Chung Ji-young (Coreia do Sul)
Nous sommes les fruits de la forêt, de Rithy Panh (Camboja/França)
Panda, de Xinyang Zhang (Singapura/Hong Kong/China)
Piedras preciosas, de Simón Vélez (Colômbia/Portugal)
Prénoms, de Nurith Aviv (França)
Szenario, de Marie Wilke (Alemanha)
The Day of Wrath: Tales from Tripoli, de Rania Rafei (Líbano/Arábia Saudita/Qatar)
The Moths & the Flame, de Kevin Contento (EUA)
Was an Empfindsamkeit bleibt, de Daniela Magnani Hüller (Alemanha)

FORUM EXPANDED

A Circle as the Center of the Whole, de Utkarsh (EUA/Índia)
Born of the Yam, de Mark Chua e Lam Li Shuen (Singapura)
El León, de Diana Bustamante (Colômbia)
Exprmntl 4 Knokke, de Claudia von Alemann e Reinold E. Thiel (Alemanha)
Film No. 4 (Bottoms), de Yoko Ono (EUA)
Filme Pin, de María Rojas Arias e Andrés Jurado (La Vulcanizadora) (Colômbia/Portugal)
Floresta do Fim do Mundo, de Felipe M. Bragança e Denilson Baniwa (Brasil)
Forever…Forever, de Johann Lurf (Áustria/França)
Fruits of Despair, de Nima Nassaj (Irã)
İki Laborantın Yorgun Saatleri, de Burak Çevik (Turquia/Alemanha/Reino Unido/Croácia)
Katabasis, de Martin Moolhuijsen (Alemanha/Itália)
Let There Be Whistleblowers, de Ken Jacobs e Flo Jacobs (EUA)
Metanoia, de Bigum + Björge (Alemanha/Finlândia)
MUSCLE, de Karimah Ashadu (Itália/Reino Unido/EUA/Alemanha/Nigéria)
Narrative, de Anocha Suwichakornpong (Tailândia/Coreia do Sul/Japão)
Nursery Rhymes. (Holy) Water, de Belinda Kazeem-Kamiński (Áustria/Itália)
Oghneyet Touha Al Hazina, de Atteyat Al Abnoudy (Egito)
Phi Pattana, de Komtouch Napattaloong (Tailândia)
Pink Schlemmer, de Oliver Husain (Canadá)
The Dislocation of Amber, de Hussein Shariffe (Sudão)
The Recce, de Daniel Mann (Reino Unido/Alemanha)
This Desirable Device, de Mina Simendić (Sérvia/Alemanha)
This Suffocating Now, de Vika Kirchenbauer (Alemanha)
Uchronia, de Fil Ieropoulos (Grécia/Holanda)
Warnungen an die ferne Zukunft, de Juliane Jaschnow e Stefanie Schroeder (Alemanha)
Yurugu: Invisible Lines, de Petna Ndaliko Katondolo e Laurent Van Lancker (República Democrática do Congo/Bélgica/EUA)

FORUM EXPANDED EXHIBITION

Butterfly Stories: Malaise II, de Laurence Favre (Suíça/Alemanha)
Casting for a Film, Ihsan’s Diary, de Lamia Joreige (Líbano)
Fanfictie: Volcanology, de Riar Rizaldi (Indonésia/Itália)
Industries of Denial, Stage 10: From Musa Dagh to Port Saïd, de Angela Melitopoulos e Kerstin Schroedinger (Alemanha/Grécia/Finlândia)
Land Invaders, de Cassandra Gardiner e Juan Mateo Menendez (EUA)
The sun that fell into the water, de Lena Kocutar (Alemanha/Eslovênia)
We Deh Here, de Maybelle Peters (Reino Unido)

Fotos: Delírio Filmes/Moçambique Audiovisual/Denilson Baniwa Estúdio.

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