
Fundada em 1984 pelo historiador e crítico de cinema italiano Lino Micciché, a Semana Internacional da Crítica, Settimana Internazionale della Critica, é uma mostra independente e paralela do Festival Internacional de Cinema de Veneza. Organizada pelo SNCCI, Sindacato Nazionale Critici Cinematografici Italiani, destaca os primeiros longas-metragens de cineastas emergentes do mundo todo.
Neste ano, em sua 41ª edição, que acontecerá entre os dias 2 e 12 de setembro, sete longas estão em competição. Além disso, a programação conta também com a mostra SIC@SIC (Short Italian Cinema), que, desde 2016, apresenta uma seleção de curtas-metragens em competição de diretores italianos que ainda não realizaram um longa; todos exibidos em estreia mundial. O programa nasceu da sinergia entre o Sindicato dos Críticos de Cinema Italianos e a Cinecittà, como uma das iniciativas de apoio ao desenvolvimento do novo cinema italiano e de promoção de jovens cineastas.
Entre os longas da mostra competitiva da Settimana Internazionale della Critica 2026, o Brasil marca presença com o gaúcho London, escrito e dirigido pela dupla Victor Di Marco e Márcio Picoli. Filmado em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e produzido pelas empresas Proa & Popa Produções e Balde de Tinta, o longa queer tem distribuição no Brasil pela Retrato Filmes.
Na trama, London, interpretado por Victor Di Marco, é um jovem com deficiência que ganha a vida fazendo performances eróticas em uma casa de fetiches e tem a chance de descobrir a origem e o destino de sua deficiência através de um exame médico. Com os resultados em mãos, ele terá que decidir se sua vida será guiada por um diagnóstico ou pelos seus sonhos. Ao se deparar com um mundo míope e distorcido à sua presença, o protagonista terá que reinventar forças para se libertar e descobrir quem realmente é.
Apesar dos tabus e das crenças que cercam corpos situados para além da lógica binária e funcional sustentada pela estrutura capacitista, o longa traz corpos que vibram, que desejam, que vivem e se retiram de toda patologização que a sociedade impõe, questionando os discursos normativos que historicamente os reduzem à inadequação.
De acordo com os diretores, a realização do filme foi atravessada por inúmeros desafios, como uma enchente catastrófica às vésperas das filmagens, no qual recursos importantes foram perdidos: “Chegar até Veneza é, antes de tudo, uma vitória coletiva de quem permaneceu acreditando quando parecia mais fácil desistir”, disseram. Celebrando a trajetória enfrentada, Di Marco e Picoli afirmam que estar em um dos maiores festivais de cinema do mundo é a confirmação de que vale a pena acreditar em projetos que parecem improváveis: “Essa estreia reafirma que histórias contadas a partir de corpos historicamente marginalizados também pertencem aos maiores palcos do cinema mundial”.
Victor Di Marco em London: filme queer brasileiro
A seleção na Semana da Crítica de Veneza os enche de orgulho, mas também de responsabilidade: “London chegará em públicos de diferentes países e ampliará a forma como a deficiência é percebida: não como um limite ou uma falta, mas como uma potência criativa, uma linguagem e uma forma de produzir novas maneiras de olhar para o mundo”.
A diretora da Settimana Internazionale della Critica, Beatrice Florentino, que também assina a curadoria com Matteo Berardini, Marianna Cappi, Francesco Grieco e Marco Romagna, afirmou que há anos não via um longa de estreia realizado com tamanha segurança, precisão e maturidade emocional: “London é uma celebração da vida, da delicadeza, do desejo e do amor. Um filme que abraça a sexualidade como uma força vital, recusa rótulos e nos lembra que o maior ato de coragem é simplesmente habitar o presente”.
O elenco conta também com Carla Cassapo, Jéssica Teixeira, Pedro Bertoldi, Priscilla Colombi, Emilio Farias e Manu Thedy. A direção de arte é de Valeria Verba; Bruno Polidoro é o diretor de fotografia e a trilha sonora vibrante é assinada por Vito O. Azevedo. Com direção de produção de Helena Poetini, a produção é assinada por Laura Moglia, Márcio Picoli, Victor Di Marco e Aline Gutierres, com coprodução de Sofia Wickerhauser, White Wolfy e Visom. A montagem é de Will Domingos e o som direto de Cleverton Borges; a produção executiva é de Laura Moglia e Márcio Picoli.
Além dos prêmios concedidos pelo Júri Internacional, os títulos exibidos na Semana Internacional da Crítica estão elegíveis ao prêmio Leão do Futuro, Luigi De Laurentiis, que consagra um filme de estreia.
Vale destacar que ao longo dos anos, a SIC selecionou filmes de cineastas que, na sequência, se consolidaram no cenário internacional, como: Kevin Reynolds com Fandango; Desordem, de Olivier Assayas; Mike Leigh com High Hopes; Let’s Get Lost, de Bruce Weber; Pedro Costa com O Sangue; Public Access, de Bryan Singer; Harmony Korine com Gummo: Realidade Perversa; Orphans, de Peter Mullan; Pablo Trapero com Mundo grúa; A Culpa de Voltaire (La faute à Voltaire), de Abdellatif Kechiche; Kenneth Lonergan com Conte Comigo (You Can Count on Me); Tanna, de Martin Butler e Bentley Dean; Ala Eddine Slim com Akher Wahed Fina (The Last of Us); La stazione, de Sergio Rubini; Roberta Torre com Tano da morire; Tornando a casa, de Vincenzo Marra; entre muitos outros.
Conheça os filmes selecionados para a 41ª Settimana Internazionale della Critica:
COMPETIÇÃO | LONGAS
El fin de los tiempos, de Bibiana Rojas Gómez e Juan David Cárdenas (Colômbia)
London, de Victor Di Marco e Márcio Picoli (Brasil)
Meteorite, de Sebastián Múnera (Colômbia)
Our Share of Sand, de Shalini Adnani (Índia/Reino Unido/Grécia)
Prima della guerra, de Tommaso Usberti (França/Itália)
The H@llow Man, de Kamel Laaridhi (Tunísia)
Zoom In, Zoom Out (Fa xian zhi lü), de Dong Jie (China)
FILME DE ABERTURA | LONGA-METRAGEM
Il Grande Giaffa, de Marco Santi (Itália)
FILME DE ENCERRAMENTO | LONGA-METRAGEM
Rider, de Roan Johnson e Davide Pavanello (Itália)
EXIBIÇÃO ESPECIAL | FORA DE COMPETIÇÃO
Hugo in Venice: A Yearning to Be of No Use, de Stefano Knuchel (Suíça)
COMPETIÇÃO | CURTAS-METRAGENS ITALIANOS
Dove le lacrime aspettano, de Caterina Bertini e Blu Diego Fasoli (Itália)
E-I-E-I-O, de Noemi Arfuso (Itália)
Granchità (Crabking), de Anaïs Landriscina e Chiara Toffoletto (Itália)
Gusci (Eggshells), de Elisa Chiari e Francesca Trovato (Itália)
Puca, de Sara Scalera (Itália)
Revolver, de Paoli De Luca (Itália)
Se mai le cose, de Giulia Cosentino (Itália/França)
FILME DE ABERTURA | CURTA-METRAGEM
Les métamorphoses, au féminin, de Maria Giménez Cavallo (Itália/França/EUA)
FILME DE ENCERRAMENTO | CURTA-METRAGEM
Un breve incontro, de Liryc Dela Cruz (Itália)
Fotos: Divulgação.