
A trajetória da cineasta Helena Solberg, uma das pioneiras incontestáveis da história do cinema brasileiro, foi celebrada na abertura da 21ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, nesta quinta-feira, 25/06, na cidade mineira que é Patrimônio Histórico da Humanidade.
Primeira mulher a integrar o movimento Cinema Novo, Solberg construiu uma carreira marcada por documentários que abordam questões sociais, políticas e femininas, tornando-se uma das principais referências do audiovisual latino-americano.
A homenagem aconteceu durante a cerimônia de abertura, no Cine-Praça, quando ela recebeu o Troféu Vila Rica, seguida da exibição dos curtas A Entrevista (1966) e Meio-Dia (1970), obras fundamentais de sua filmografia. Ao longo da Mostra, o público também acompanhará outros filmes da diretora, como Carmen Miranda: Banana is my Business, que participará de encontros dedicados à sua produção e contribuição para o cinema brasileiro.
No palco da CineOP, Helena Solberg foi ovacionada pelo público e recebeu tal honraria das mãos das cineastas Tata Amaral e Lúcia Murat: “É um privilégio incrível estar recebendo essa homenagem e esse troféu nessa cidade maravilhosa. Eu agradeço imensamente ao festival, Raquel [Hallak, coordenadora geral] e Quintino [Vargas Neto, coordenador técnico] pela oportunidade de estar novamente com vocês. Eu estive aqui em 2014 e 2018″.
Em seu discurso, relembrou sua passagem por Minas Gerais quando rodou um longa na região: “Eu filmei em Minas, em Diamantina, um filme chamado Vida de Menina [protagonizado por Ludmila Dayer]. Era sobre uma menina chamada Helena Morley, que escreveu um diário maravilhoso dos 13 aos 15 anos e que me encantou. É uma menina transgressora, julgava tudo em volta dela e foi uma experiência muito boa. A população participou muito do filme. Foi uma experiência muito forte. Nós ficamos dois meses em Diamantina. Então, é bom estar de volta!”.
Tata Amaral, Helena Solberg e Lúcia Murat no palco da CineOP
Solberg também falou dos dois curtas que foram exibidos depois da homenagem: “Esses filmes foram realizados há 60 anos, no início da minha carreira. São filmes feitos no início da ditadura militar. O meu primeiro filme, A Entrevista, é uma revisão da minha formação burguesa e seus valores. E Meio-Dia, que foi feito em 1966, é uma metáfora sobre a censura e a repressão. Eu gosto de chamar esse filme de experimental anarquista. Naquela época, a censura nos obrigava a sermos muito criativos. E acho que, enfim, é um filme com um pé na turbulência dos momentos que estávamos vivendo. Muitos anos se passaram, muitos outros filmes vieram e eu sou uma outra pessoa hoje. Vamos aos filmes e obrigada mais uma vez. Nos vemos por aí!”.
Ainda na cerimônia de abertura, em tributo à presença feminina na história do cinema brasileiro, a CineOP celebrou também gerações de realizadoras desde o cinema silencioso, citando nomes como Cleo de Verberena, Carmen Santos, Gilda de Abreu, Suzana Amaral, Tata Amaral, Anna Muylaert, Sueli Maxakali, entre muitas outras.
Raquel Hallak, coordenadora geral da Mostra e CEO da Universo Produção, também discursou: “Quando uma imagem some, não é apenas um arquivo que desaparece. É uma memória que se apaga. É uma possibilidade de reconhecimento que se interrompe. É o próprio país que se torna menos visível para si mesmo. Preservar é um gesto político, lembrar é um ato de resistência e projetar imagens é também projetar futuros”.
No dia seguinte à homenagem, Helena Solberg participou de uma coletiva de imprensa no Centro de Artes e Convenções da UFOP, que foi mediada por Mariana Tavares, professora e pesquisadora de cinema.
Helena Solberg dirigiu o primeiro filme feminista da produção moderna no país
No bate-papo com jornalistas e críticos, relembrou sua participação no Cinema Novo, movimento cinematográfico brasileiro das décadas de 1960 e 1970: “Eu fazia parte da geração do Cinema Novo. Mas os rapazes estavam na deles e eu estava na minha. Também não fiz nenhuma força para pertencer. Não tava a fim. Eu estava interessada nas minhas questões. Eu acho que o Cinema Novo tem uma característica muito forte dessa coisa do outro, do explorado. Eu estava querendo descobrir quais eram as forças que atuavam na minha educação, na minha formação e não na formação do outro. Eu acho que isso é interessante”.
Solberg também falou dos colegas de ofício: “Eu me dei muito bem com todos eles. Mário Carneiro, por exemplo, era meu irmão. Glauber Rocha era uma pessoa diferente, né? Maravilhoso… Joaquim Pedro de Andrade também. Era uma geração que se encontrava muito mais. Havia muito mais relação pessoal do que hoje. Eu não sei se hoje, por causa da questão digital, as pessoas ficam mais afastadas. Naquela época havia um contato físico muito maior entre nós”.
E continuou: “Eu fui trabalhar como jornalista no Jornal Metropolitano e o Cacá Diegues era o diretor. Tinha também o Arnaldo Jabor, que eu conheci quando entrei na PUC. O Luiz Buarque de Hollanda também. Toda uma geração em que éramos muito próximos e achávamos que mudaríamos o mundo. Havia muita esperança nessa época do Juscelino [Kubitschek], da construção de Brasília. Havia uma esperança no ar antes do golpe”.
Depois da coletiva de imprensa, Helena Solberg falou, com exclusividade, para o CINEVITOR sobre a homenagem que consagrou sua carreira: “É sempre emocionante porque, de certa forma, é confortante ter um certo reconhecimento. Porque vida de artista não é fácil, entendeu? Mas nesses momentos, vale a pena. Não é só uma homenagem que eu estou recebendo. Eu estou me encontrando com outras pessoas. Esse encontro de saber que você não está só, que existe uma comunidade. Eu não sei explicar, mas é um encontro que é muito reconfortante”.
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*O CINEVITOR está em Ouro Preto e você acompanha a cobertura do evento por aqui, pelo canal do YouTube e pelas redes sociais: Twitter, Facebook e Instagram.
Fotos: Leo Lara/Leo Fontes/Universo Produção.