CineOP 2026: cópia restaurada de Xica da Silva, de Cacá Diegues, é exibida na Mostra de Cinema de Ouro Preto

por: Cinevitor
Zezé Motta em Xica da Silva: filme comemora 50 anos em 2026

Lançado em 1976, Xica da Silva, dirigido por Cacá Diegues, atraiu mais de 3,1 milhões de espectadores e conquistou os prêmios de melhor filme, direção e atriz para Zezé Motta no Festival de Brasília. Às vésperas de completar 50 anos, o filme que reposicionou o protagonismo negro e feminino no cinema brasileiro, será relançado em cópia restaurada pela Sessão Vitrine Petrobras no dia 16 de julho.

Numa época em que o Cinema Novo ainda exercia forte influência sobre o audiovisual brasileiro, Carlos Diegues procurou um caminho próprio. Sem abandonar preocupações políticas e históricas, Xica da Silva combina humor, erotismo, música, espetáculo e linguagem popular para colocar uma mulher negra no centro absoluto da narrativa. Adaptado do livro Memórias do Distrito de Diamantina da Comarca do Serro Frio, de João Felício dos Santos, o filme criou uma versão mais irreverente, sensual e subversiva da personagem histórica e foi frequentemente apontado como um comentário ousado, ainda que indireto, sobre o regime autoritário que governava o país em 1976.

Chica da Silva foi uma mulher negra escravizada que, após conquistar a alforria, rompeu os padrões de sua época ao manter por cerca de 15 anos uma relação pública com João Fernandes de Oliveira, contratador de diamantes e um dos homens mais ricos do Império Português. Com ele teve 13 filhos, criados com privilégios raramente concedidos a descendentes de uma ex-escravizada. Após a partida de João Fernandes para Portugal, Chica assumiu a administração de parte dos negócios e consolidou uma posição de destaque na sociedade local.

Além do imenso sucesso de público, Xica da Silva representou a consagração de Zezé Motta no imaginário brasileiro. A atriz, que já havia participado de filmes e produções televisivas, foi amplamente aclamada pela crítica e recebeu alguns dos principais prêmios do cinema nacional por sua atuação, entre eles o Prêmio Air France, o Coruja de Ouro, o Prêmio Governador do Estado e o já citado Candango de melhor atriz no Festival de Brasília, em 1976. Cinco décadas depois, Zezé permanece como um dos grandes nomes da dramaturgia brasileira, símbolo de resistência para a comunidade negra e figura fundamental nas discussões sobre representação racial no país.

Sala cheia: apresentação do filme na CineOP

A cópia restaurada de Xica da Silva foi exibida pela primeira vez durante a 21ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto. A exibição aconteceu no domingo, 28/06, no Cine-Teatro Petrobras no Centro de Artes e Convenções da UFOP, e contou com a presença de Renata Almeida Magalhães, presidente da Academia Brasileira de Cinema e viúva de Cacá; Débora Butruce, restauradora; Carla Domingues, gerente executiva da Vitrine Filmes; José Quental, curador da Temática Preservação; entre outros.

No palco para apresentar o longa para o público, Débora Butruce falou sobre a restauração: “É uma alegria muito grande estar aqui para apresentar essa versão restaurada desse clássico do Cacá Diegues, que está completando 50 anos. Esse filme tinha passado por um processo anterior, dentro do âmbito do programa de restauro também viabilizado pela Petrobras, há 16 anos. Então, avaliamos e percebemos que o filme já tinha sido escaneado. Para evitar o desgaste dos materiais originais em película 35 mm, partimos desses arquivos digitais brutos para realizar o processo em 4K. O processo anterior tinha sido feito em uma outra resolução”.

E completou: “A imagem tinha problemas como fungos, rasgos e riscos. Esse processo de restauração digital foi importante para poder mitigar, minimizar e apagar esses danos. Com o som, partimos da versão restaurada anteriormente. Então, vocês vão ver uma versão nunca antes vista, em 4K. Conseguimos também retomar as cores, o que é muito importante e muito difícil em um filme colorido. É muito complicado conseguir avaliar quanto perde de cada canal de cor. Esse trabalho é feito com os grandes parceiros da Mapa Filmes, Link Digital e toda uma equipe muito cuidadosa e atenciosa nos mínimos detalhes para conseguir chegar neste trabalho de restauro. Lembrando que esses trabalhos só são possíveis porque os materiais originais são preservados; eles estão preservados pela Cinemateca Brasileira. Vale ressaltar a relevância absoluta desse trabalho sem o qual a gente não conseguiria chegar a esse resultado de restauro”.

Renata Almeida Magalhães, produtora brasileira e que foi casada com Cacá por 43 anos, fez seu discurso emocionada: “Eu tinha 15 anos quando vi Xica da Silva pela primeira vez e fiquei louca com o filme. Quatro anos depois eu já estava casada com o Cacá. Primeiro, queria agradecer não só ao trabalho que foi feito, mas pela Vitrine Filmes ter escolhido esse filme nessa data redonda. Pouca gente sabe, mas Xica da Silva é o maior sucesso comercial do Cacá no Brasil. Não é o Bye Bye Brasil”.

Débora Butruce: coordenadora da restauração do filme

E seguiu: “Cacá adorava música e ele falava que seus filmes sempre tinham a ver com música. O Xica da Silva era o filme escola de samba. Chuvas de Verão, por exemplo, era o chorinho. O Cacá teve a ideia de fazer Xica da Silva vendo um desfile de escola de samba do Salgueiro feito pelo Fernando Pamplona. Aquilo ficou na cabeça dele e anos depois fez esse filme que a gente vai ter a alegria de ver hoje. A Zezé Motta gosta de falar que a vida dela é antes e depois de Xica da Silva”.

Renata falou da emoção do relançamento em cópia restaurada: “Sobretudo, eu fiquei muito emocionada quando vi o teste do restauro em 4K, uns quarenta dias atrás, porque pela primeira vez, depois de 50 anos, eu estava revendo Xica da Silva com a mesma sensação que eu tive quando tinha 15 anos. Eu espero que vocês tenham essa mesma alegria de ver esse filmaço do Cacá. Ele está aqui espiritualmente, com certeza, está aqui fisicamente. E tenho certeza que ele está muito feliz com o filme passando aqui”.

E finalizou seu discurso no palco: “Há uma coisa muito engraçada também que ele inventou o Xica com X porque até então era Chica da Silva com CH. E se passa, evidentemente, em Diamantina, mas depois Chica veio para Ouro Preto. Então, a cidade é o segundo passo da história de Chica da Silva. E só temos três pessoas vivas que fizeram o filme: Mair Tavares, que montou; a Zezé Motta; e o Stepan Nercessian, que é o galã. Vocês verão Xica da Silva como Chica da Silva era. E como ela ainda é. Obrigada, Ouro Preto! O cinema é soberania, arte é memória e memória é isso aqui. Boa sessão e bom filme!”.

Carla Domingues, da Vitrine Filmes, também discursou antes da exibição: “Só conseguimos restaurar esse filme graças à Petrobras. Então, obrigada, Petrobras, por permitir levar ao público que já viu e que vai entrar em contato com o filme pela primeira vez. Aproveito para dizer que o filme estreia comercialmente em todos os estados brasileiros no dia 16 de julho. Contamos com vocês para dividir essa experiência com os amigos e levar o público aos cinemas”.

Thiago Veloso Vitral, Renata Almeida Magalhães e Carla Domingues no debate

A sinopse oficial diz: na segunda metade do século XVIII, a negra escravizada Xica da Silva torna-se o centro das atenções no Distrito Diamantino, onde estão as minas mais ricas do país. João Fernandes, representante da Coroa Portuguesa, apaixona-se por Xica e a transforma na Rainha do Diamante, satisfazendo todos os seus desejos extravagantes. Alertado pelos inimigos do casal, o rei de Portugal manda um emissário a fim de impedir que cresça o poder de Xica na colônia.

Além de Zezé Motta e Stepan Nercessian, o elenco de Xica da Silva conta também com: Walmor Chagas, Altair Lima, Elke Maravilha, Rodolfo Arena, José Wilker, Marcus Vinícius, João Felício dos Santos, Dara Kocy, Adalberto Silva, Julio Mackenzie, Beto Leão, Luis Motta, Paulo Padilha, Baby Conceição, Iara Jati, Luis Felipe, Alberto Patu, Derly Barbosa, Paulão e Pompeo.

Com roteiro de Carlos Diegues e Antonio Callado, a produção é de Hélio Ferraz, José Oliosi, Airton Correa e Jarbas Barbosa. A fotografia é assinada por José Medeiros, com montagem de Mair Tavares; Luiz Carlos Ripper assina a direção de arte e o figurino, com caracterização de Carlos Prieto. A música é de Jorge Ben Jor e Roberto Menescal; o som é assinado por Vitor Raposeiro.

Além da exibição em Ouro Preto, o filme, junto com o longa Vento Norte, de Salomão Scliar, também foi tema do debate Encontro de Arquivos: Apresentação de Cases e Restauros, que aconteceu na terça-feira, 30/06, com a presença de Carla Domingues, Débora Butruce, Renata Almeida Magalhães e Daniela Mazzilli, diretora da Cinemateca Capitólio, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. A mediação foi realizada por Thiago Veloso Vitral, coordenador do Museu da Imagem e do Som de Belo Horizonte, Minas Gerais.

*O CINEVITOR está em Ouro Preto e você acompanha a cobertura do evento por aqui, pelo canal do YouTube e pelas redes sociais: Twitter, Facebook e Instagram.

Fotos: Vitor Búrigo/Leo Lara/Leo Fontes/Universo Produção. 

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