
A 21ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto reafirmou, mais uma vez, seu papel como principal evento brasileiro dedicado à preservação, à história e à educação audiovisual. O evento beneficiou mais de 20 mil pessoas em seis dias de atividades gratuitas, reunindo profissionais do audiovisual, pesquisadores, educadores, estudantes, gestores públicos e público em geral em uma programação que integrou exibições, atividades formativas, debates, encontros profissionais e atrações artísticas.
Neste ano, foram exibidos 135 filmes (33 longas-metragens, quatro médias e 98 curtas) distribuídos em 42 sessões. A programação reuniu produções de 18 estados brasileiros e de seis países, entre pré-estreias mundiais e nacionais, mostras temáticas e competitiva, ampliando o diálogo entre diferentes cinematografias e gerações de realizadores.
Ao longo de mais de duas décadas, a CineOP consolidou um modelo único de festival no país, no qual exibição, formação, preservação e formulação de políticas públicas caminham de forma integrada. A 21ª edição encerra sua programação mantendo Ouro Preto como principal espaço brasileiro de reflexão sobre preservação audiovisual, história do cinema e educação, reunindo profissionais, instituições e público em torno da memória e do futuro do audiovisual brasileiro.
Antes do encerramento, na terça-feira, 30/06, Raquel Hallak, CEO da Universo Produção e coordenadora geral da Mostra, conversou com a imprensa no Centro de Artes e Convenções da UFOP e, como de costume, fez um balanço geral da edição: “É uma alegria estar aqui com esse sentimento de missão cumprida. De chegar ao final de tudo como a gente planejou, ver acontecendo, tomando forma, ocupando os espaços dessa cidade tão querida como Ouro Preto, que nos inspirou desde sempre a pensar o cinema como patrimônio. E o cinema merece tombamento”.
No bate-papo, Hallak falou da essência do evento: “A CineOP foi pensada exatamente para ser o espaço de apresentação desses filmes que estão chegando com a restauração ou com a digitalização. Na quarta edição, por exemplo, exibimos Xica da Silva, no Cine Vila Rica, sem estar restaurado, com a presença do Cacá Diegues, e homenageamos a Zezé Motta. Eu nunca imaginei que fosse ver o filme na sua janela original para uma nova plateia. O espírito é exatamente isso. Quem fez cinema antigamente, e ainda segue fazendo, não tem essa consciência de que os filmes permanecem vivos e que sempre terão pessoas querendo conhecer esses títulos. Esses filmes contam o tempo histórico em que foram realizados”.
A 21ª CineOP movimentou a economia, ampliou o alcance e fortaleceu a preservação audiovisual
Sobre um volume maior de filmes restaurados na programação, comentou: “São resultados de políticas públicas. Não é que abrimos seleção para mais filmes. É porque agora tivemos que escolher os filmes que antes ficávamos catando. Eram filmes pingados porque o restauro é um processo demorado. Então, quando a gente vê que tem condição de escolher, é um alívio. Sinal que esses encontros, que reafirmamos todos os anos aqui sobre preservação, formação, guarda e acesso, estão sendo notados. Alguém prestou atenção”.
E continuou: “A CineOP é o lugar dos filmes que utilizam imagens de arquivo e a gente introduziu a mostra competitiva no ano passado, que já vem com um aprimoramento que estamos estudando exatamente para dar visibilidade a esse trabalho invisível do pesquisador em primeira instância e de como esses acervos estão sendo guardados. O Ainda Estou Aqui, por exemplo, em sua essência, só foi possível com imagens de arquivo, tanto para estudar e contar essa história, como para utilizar essas imagens. Estamos numa saturação do digital, né? A gente também está em busca do novo porque queremos conhecer a nossa história. Então, existe uma curiosidade e existe a nostalgia da película, de como foi filmado. E existe a curiosidade do novo, do restaurado em 4K, de ver como essa imagem vai ficar. Com isso, temos os avanços tecnológicos: como que a IA contribui nesse processo de restauro? Eu acho que essas vertentes levam esse público para a sala também pela curiosidade de ver como que esses filmes se apresentam”.
Raquel aproveitou a conversa com a imprensa para refletir sobre a importância da exibição dessas obras que fizeram parte da programação: “Nesses 21 anos, a CineOP vem acompanhando todos os avanços do setor da preservação e sempre colocando a preservação também como indústria, como ativo econômico. É preciso ter esse espaço de estreia ou de exibição. É também um momento de valorização dessas produções, que até então estavam guardadas nas cinematecas. Então, acho que a gente colaborou pra uma quebra de paradigma. Quando eu vejo um filme estrear eu penso que o cinema brasileiro permanece vivo, independente do ano em que ele foi produzido. Mas, precisamos dar acesso. E a sala de cinema complementa o ato da preservação também porque ninguém vai preservar para manter o filme guardado. A preservação só tem sentido quando ela possibilita o acesso para você poder ver e ter a experiência desse cinema. Essa conjuntura atual mistura curiosidade, história, nova geração, avanços tecnológicos e a experiência de assistir esses filmes no cinema”.
Imprensa reunida com Raquel Hallak
Na sequência, Hallak falou da Rede Nacional de Arquivos e Acervos: “O grupo de preservação é a raiz da CineOP, assim como a criação da Rede Nacional de Arquivos. Em 2006, criamos esse evento porque não existia um banco de dados para você consultar essas cópias. Não tinha uma integração entre as instituições de guarda. Não tinha, minimamente, uma possibilidade de discussão sobre de quem são esses filmes e de como mostrar que esses filmes são do Brasil, são nossos. Com a criação da Rede Nacional de Arquivos, tivemos um avanço imenso de considerar a preservação dentro da política pública do Ministério da Cultura. Assim como foi criado o IBRAM [Instituto Brasileiro de Museus]; é através desse instituto que se consegue recursos e consegue também pensar em infraestrutura e formação. A Rede Nacional de Arquivos e Acervos é uma realidade; cabe agora ao setor e à sociedade civil torná-la pulsante porque ela existe. São esses documentos que têm sido balizadores da construção dessas políticas públicas”.
E completou: “Recebemos um prêmio da Academia Brasileira de Cinema, que foi o primeiro reconhecimento público da CineOP como fórum privilegiado de discussão da preservação. Além disso, a preservação conseguiu cadeira na Cinemateca Brasileira através da ABPA [Associação Brasileira de Preservação Audiovisual]. São conquistas, que se a gente pensar na história do cinema brasileiro, muito recentes. Mas, muito importantes para a existência da preservação dentro do ecossistema que era visto como o patinho feio. Se a gente tinha no passado só a Cinemateca do MAM e a Cinemateca Brasileira, hoje temos o Brasil sendo visto através dos museus de Imagem e Som, através das suas cinematecas representativas de seus estados, de reconhecimento público dessas instituições, da descentralização da regionalidade. Então, esse encontro na CineOP, tem sido preponderante para que esses avanços sejam conquistados por uma luta do setor. Aqui, estamos a serviço deles”.
Sobre o encontro de gerações de cineastas, Raquel comentou: “Não tem como falar de preservação sem democratização, sem acesso. Nessa edição, foi interessante ver mulheres que já possuem história e acervo, como a Tata Amaral, por exemplo, ao lado de jovens que estão chegando com possibilidades de espaço. Eu lembro quando eu falava pela primeira vez da CineOP para algum cineasta ou produtor e me respondiam que não tinham como contribuir com a preservação. E eu questionava: ‘Como não? Quem faz seus filmes? Quem são os donos dos seus filmes? Como é que eles vão estar no futuro? Como é que vai ser esse acesso? Como é que vai essa guarda?’. Então, isso mudou muito. E acho que vai mudar principalmente a partir desses jovens, que estão vindo com mais consciência. É um diferencial na produção contemporânea agora. A Mostra é democrática em todos os sentidos. Da possibilidade de você escrever, de você exibir, de olhar para o ponto de vista curatorial e organizar esses filmes”.
Raquel Hallak destaca o patrimônio audiovisual brasileiro e políticas culturais
Os projetos de preservação também foram abordados por Hallak: “Uma das novidades dessa edição, além dos filmes, foram os projetos de preservação, que também abrimos inscrição. E a CineOP é o lugar para isso. É esse espaço de convergência entre preservação, história e educação; é o espaço da preservação em todos os sentidos, da discussão, da exibição, da troca de conhecimento e de possibilidades de conhecermos projetos que estão sendo feitos, como estão sendo feitos, quais foram os resultados e servir de troca de experiências para que outros surjam. E foi uma luta muito grande para ter a preservação dentro da Lei Aldir Blanc. Espero que a cada edição esses filmes estejam cada vez mais numerosos e que a gente possa cada vez mais ter espaço para eles. De um tempo para cá, conseguimos fazer um recorte para a seleção de filmes somente com imagens de arquivo. Isso não se sustentava antes. É mostrando que como a pesquisa, o acesso a esse acervo, a questão do recurso e dos direitos autorais de imagem são fundamentais para construir outras histórias, para ressignificar novas narrativas”.
Raquel falou também sobre as Cartas de Ouro Preto, documentos fundamentais que reúnem as principais urgências e reivindicações de profissionais dos setores de educação e salvaguarda do patrimônio cinematográfico nacional: “São instrumentos que a gente registra para marcar uma época. Quando olhamos para essas cartas, percebemos que serviram para alguma coisa. Talvez não de forma imediata, mas serviu. Do Fórum de Tiradentes, a mesma coisa. Quando a gente reflete sobre todo o trabalho que foi feito em uma dessas publicações percebemos o que de fato existe e questionamos: o que nós queremos? Uma política de Estado, uma política estruturante e permanente. Essa política é uma construção. E eu vejo uma construção desses avanços a partir dessas cartas. Não tem como desconectar do que é feito aqui”.
Na conversa com a imprensa, Raquel Hallak destacou a importância do audiovisual na sociedade: “Eu represento e lidero um trabalho muito coletivo. Isso não é de uma pessoa e nem de uma empresa; são as pessoas, equipes, profissionais e imprensa que acreditam que a gente precisa construir um mundo melhor através do audiovisual em conexão com as outras artes. Então, é uma política pública permanente e estruturante. É no audiovisual que a gente se expressa, que a gente tem voz, que a diversidade tem lugar. É um cinema plural em todos os sentidos: de quem faz, de quem pensa, de quem divulga, de quem projeta. Eu acho que, paulatinamente, fomos construindo esse caminho. É uma construção coletiva”.
Bate-papo: balanço geral da 21ª edição com a imprensa
E seguiu com uma reflexão sobre a trajetória da Mostra de Cinema de Ouro Preto: “Hoje pensamos com muito mais maturidade esse contexto da preservação. Quando começamos, eu não tinha a menor ideia de onde isso chegaria. Eu só pensei nesse evento porque quando a gente foi exibir alguns filmes em Tiradentes, não conseguíamos encontrar as cópias dos filmes ou quem eram os donos ou qual era a condição de exibição dessas cópias. Eu não tinha a menor ideia de como que a preservação era vista ou de como era o contexto dela dentro do ecossistema audiovisual. Acho que é exatamente por esse distanciamento, ou por essa falta de conhecimento, que eu não tive pudor para ousar. E as pessoas foram junto comigo, acreditando que a gente tinha que desbravar e abrir esses caminhos. Então, quando a gente fala das mulheres, como cineastas que abriram caminhos, eu me vejo um pouco nesse lugar; e falo com minha equipe inteira sobre pensar esses caminhos porque eles não existiam”.
E finalizou: “Minas, por exemplo, sempre foi um estado da videoarte, da crítica cinematográfica. Mas não era um estado tradicionalmente do fomento e da produção. Isso que Belo Horizonte já teve 120 salas de cinema. Então, é uma espécie de resgate daquilo que foi silenciado ou daquilo que ainda não existiu, não foi descoberto, não foi revelado. Eu acho que o Cinema sem Fronteiras representa a inquietação e a ousadia de quem quer fazer alguma coisa diferente. Mas, principalmente, para valorizar e promover o cinema brasileiro porque é nele que a gente consegue se ver”.
Além dos resultados culturais, a CineOP 2026 também movimentou a economia local. A realização do evento mobilizou uma equipe formada por 132 profissionais, contratou 230 empresas prestadoras de serviços e envolveu 22 estabelecimentos comerciais de Ouro Preto, entre hotéis, pousadas e restaurantes. A Mostra contribuiu ainda para a geração de mais de dois mil empregos diretos e indiretos, fortalecendo os setores de turismo, serviços e economia criativa da cidade.
No ambiente digital, a programação alcançou 95 mil visualizações no site oficial, com acessos provenientes de 57 países, ampliando o alcance internacional do evento. Nas redes sociais, a 21ª CineOP registrou 2,6 milhões de visualizações, enquanto a cobertura jornalística reuniu 74 jornalistas credenciados, representando cerca de 400 veículos de comunicação de diferentes regiões do Brasil.
*O CINEVITOR está em Ouro Preto e você acompanha a cobertura do evento por aqui, pelo canal do YouTube e pelas redes sociais: Twitter, Facebook e Instagram.
Fotos: Leo Lara/Ane Souz/Universo Produção.