Helena Solberg será homenageada na 21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto

por: Cinevitor
Helena Solberg: cineasta carioca homenageada em Ouro Preto

A CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto realizará sua 21ª edição entre os dias 25 e 30 de junho na a cidade histórica mineira, que será palco de acontecimentos no campo da preservação, história e educação ao sediar o único evento realizado no país que trata cinema como patrimônio

O tema central desta edição é Um país existe nas imagens que preserva, proposição que toma o cinema como território privilegiado de construção das identidades culturais, sociais e políticas do Brasil. Partindo da ideia de que um país sem memória também perde as imagens de si mesmo, a CineOP propõe refletir sobre o audiovisual como espaço de registro, disputa e reinvenção das narrativas que nos constituem.

A Temática Histórica desta 21ª CineOP investiga os percursos de mulheres cineastas brasileiras e os contextos em que realizaram seus primeiros filmes, com ênfase nos caminhos até o primeiro longa-metragem. Tomando os anos 1970 como marco histórico do surgimento do que se convencionou chamar de cinema de mulheres, a programação buscou obras com personagens femininas fortes e noções do feminino fora de enquadres tradicionais.

Ao mesmo tempo, a curadoria de Cléber Eduardo e Juliana Gusman recua no tempo para recuperar trajetórias antes invisibilizadas ou sub-representadas na historiografia do audiovisual brasileiro. Ao recuperar essas memórias, a CineOP pretende reforçar a importância de reescrever a história dos filmes sob uma perspectiva que reconheça a centralidade das mulheres na construção das imagens e narrativas do país.

A programação contará com obras fundamentais de cineastas como Ana Carolina, Lúcia Murat, Carla Camurati, Tata Amaral, Helena Ignez, Viviane Ferreira, entre outras diretoras de diferentes gerações. Filmes como Feminino Plural (Vera Figueiredo, 1976), que completa 50 anos; Mar de Rosas (Ana Carolina, 1977); Que Bom Te Ver Viva (Lúcia Murat, 1989); Carlota Joaquina (Carla Camurati, 1995); e Um Céu de Estrelas (Tata Amaral, 1996) integram a mostra por evidenciar diferentes momentos e marcos da inserção feminina na direção cinematográfica brasileira.

Diferentes gerações também estarão presentes em rodas de conversa sobre suas experiências individuais, expondo sincronias e dissonâncias entre as distintas décadas de início no longa-metragem e respondendo a questões como: quais as dificuldades e conquistas dessas mulheres até o primeiro longa? Por que escolheram o cinema? Como foram tratadas pelos homens com os quais lidaram em seus inícios?

Neste ano, a cineasta carioca Helena Solberg vai ser a grande homenageada da CineOP. A celebração integra a temática histórica deste ano no evento dedicado ao cinema como patrimônio: Como elas começaram? Memórias do primeiro filme; temática dedicada a investigar os percursos de mulheres cineastas e os contextos de realização de seus trabalhos de estreia.

Solberg assinou, em 1966, A Entrevista, considerado o primeiro filme feminista da produção moderna no país e no qual reunia depoimentos de jovens da classe média alta sobre casamento, sexo, trabalho e submissão ao marido. A partir dos anos 1970, radicada nos Estados Unidos, Solberg desenvolveu a Trilogia da Mulher, com os filmes The Emerging Woman (1974), The Double Day (1975) e Simplesmente Jenny (1977), produzida pelo International Women’s Film Project, coletivo que ela própria liderava em Washington. Na década seguinte, voltou as câmeras para as ditaduras latino-americanas, com títulos como Chile, By Reason or By Force (1983).

No Brasil, a diretora fez o biográfico Carmen Miranda: Bananas is My Business (1995) e a adaptação Vida de Menina (2003). Mais recentemente retomou o engajamento em Meu Corpo, Minha Vida (2017), sobre direitos reprodutivos a partir da história de Jandyra Santos, vítima de aborto clandestino, e Uma Carta para Beatrice (2022), no qual revisita a própria trajetória.

Cena do curta A Entrevista, de Helena Solberg: lançado em 1966

A Temática Preservação da 21ª CineOP volta seu olhar ao momento que antecede a institucionalização do campo e investiga as práticas iniciais de guarda, cuidado e valorização que permitiram a sobrevivência de filmes, aparelhos, documentos e suportes hoje constituintes da arqueologia do audiovisual brasileiro.

Antes da consolidação de políticas, instituições e metodologias, foram iniciativas muitas vezes individuais, de reunir, colecionar, conservar, projetar e identificar, que afirmaram o valor histórico e cultural dessas imagens e abriram caminho para a formação da preservação audiovisual como campo de conhecimento e atuação. Ao centrar o debate nesses gestos pioneiros, a curadoria de José Quental e Vivian Malusá propõe refletir sobre a passagem do impulso individual à responsabilidade coletiva de preservar e destaca como essas práticas ajudaram a constituir uma cultura do cuidado.

O 21º Encontro de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros se mantém como espaço central de reflexão e articulação sobre história, memória, política, técnica e atuação em rede e vai reunir profissionais, pesquisadores, colecionadores e instituições. A proposta deste ano parte do entendimento de que preservar não é apenas guardar o passado, mas garantir que ele continue a produzir sentido no presente e que cada gesto de preservação é também um gesto de projeção de futuro.

A Temática Educação da 21ª CineOP é inspirada no curta cubano Por Primera Vez, de Octavio Cortázar (1967), no qual estudantes pela manhã e camponeses pela noite têm suas primeiras experiências de assistir a filmes. O instante inaugural desse encontro entre espectadores e imagens em movimento, de surpresa, estranhamento e descoberta, é ponto de partida para refletir sobre a potência do cinema em ambiente escolar.

A proposta da curadoria de Adriana Fresquet e Clarice Alvarenga reconhece que a primeira vez não é apenas um fato cronológico, mas uma experiência de encantamento a inaugurar novas formas de ver, sentir e compreender o mundo. Ela pode ser também uma redescoberta quando algo já vivido retorna como novidade.

O material proposta pela Temática Educação evoca episódios marcantes da relação entre cinema e educação no Brasil, como a exibição do cinematógrafo em uma sala de aula em 1896, na Escola Normal Modelo do Maranhão, e a realização de O Parque (1963), considerado o primeiro filme produzido por estudantes de educação básica em uma escola pública no Rio de Janeiro e rodado durante as férias de inverno, após curso de iniciação ao cinema ministrado pela professora Maria José Alvarez, na Escola Brigadeiro Schorcht, em Jacarepaguá.

O conceito também dialoga com os 47,1 milhões de estudantes identificados pelo Censo de 2024 que ainda aguardam a regulamentação da Lei Federal 13.006/2014, que prevê a exibição de cinema brasileiro nas escolas. Para as curadoras, cada estudante que ainda não viu um filme na escola guarda consigo a possibilidade de uma primeira vez, de um instante de encantamento capaz de transformar o olhar.

A Mostra de Cinema de Ouro Preto é o único evento do Brasil dedicado ao cinema como patrimônio e, há 21 anos, ocupa lugar de destaque no calendário audiovisual brasileiro ao articular preservação, história e educação. Realizada anualmente na cidade histórica de Ouro Preto, em Minas Gerais, promove exibições de filmes, debates, homenagens, oficinas, atividades formativas e encontros estratégicos que reúnem realizadores, pesquisadores, educadores, estudantes, profissionais de arquivos e o público em geral. Ao longo de sua trajetória, consolidou-se como espaço de referência nacional para a reflexão sobre memória audiovisual, formação de público e políticas voltadas ao setor. Toda a programação é gratuita

Fotos: Arquivo Pessoal Helena Solberg.

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