
Morreu neste sábado, 12/07, aos 88 anos, Jean-Claude Bernardet, nome fundamental do cinema brasileiro. Crítico, roteirista, diretor, montador, ator, professor, escritor e pensador, teve uma atuação múltipla no pensamento e na produção cultural do Brasil, sendo um dos maiores nomes nos estudos de cinema no país.
Nascido na Bélgica, de família francesa, viveu em Paris até 1948. Aos 13 anos, em 1949, chega ao Brasil e fixa-se em São Paulo, onde passa a frequentar a Cinemateca Brasileira e conhece o crítico e professor Paulo Emílio Salles Gomes. Sua aproximação com a sétima arte se deu ao longo da década de 50, quando passou a frequentar cineclubes em São Paulo. Ainda como um jovem cinéfilo, começou a escrever textos para jornais e revistas. Nessa mesma época, estabeleceu conexões próximas com a Cinemateca Brasileira, onde trabalhou como auxiliar de biblioteca e desenvolveu diversas funções relativas à difusão de filmes.
Em 1965, já naturalizado brasileiro, funda o primeiro curso universitário de cinema no Brasil, na Universidade de Brasília, junto com Paulo Emílio Salles Gomes, Pompeu de Souza e Nelson Pereira dos Santos. Foi professor na UnB e permaneceu até 1968, ano em que 80% dos professores da universidade deixam o quadro docente em resposta à repressão da ditadura militar. Transfere-se para a USP, Universidade de São Paulo, e é cassado pelo AI-5 (Ato Institucional nº 5), de dezembro de 1968, sendo proibido de lecionar em universidades públicas. Até 1979, dá cursos de cinema no Instituto Goethe. Jean-Claude retorna ao quadro da Escola de Comunicações e Artes da USP em 1980, onde permanece até se aposentar, em 2004, como professor emérito.
É autor de uma vasta obra, com 25 livros publicados, muitos deles referenciais para o estudo, a pesquisa e a reflexão sobre cinema, além de ficções. São dele títulos como: Brasil em tempo de cinema (1967), Trajetória Crítica (1978), Cinema Brasileiro: Propostas para uma História (1979), O que é cinema (1980), Piranha no Mar de Rosas (1982), Cineastas e Imagens do Povo (1985 e 2004), Aquele Rapaz (ficção e memória, 1990), O Voo dos Anjos: Bressane, Sganzerla (1990), O Autor no Cinema (1994), Historiografia Clássica do Cinema Brasileiro (1995), A Doença, uma Experiência (ficção, 1996), Caminhos de Kiarostami (2004). Divide a autoria de obras com nomes como José Carlos Avellar, Miguel Borges, Maria Rita Galvão e Ismail Xavier, entre outros. Lançou ainda Guerra Camponesa no Contestado (1979), uma obra de análise política e histórica. Em 2017, a Abraccine, Associação Brasileira de Críticos de Cinema, homenageou Jean-Claude com a publicação de Bernardet 80: Impacto e Influência no Cinema Brasileiro, de Ivonete Pinto e Orlando Margarido.
Jean-Claude Bernardet no longa Fome, de Cristiano Burlan
Nas telonas, atuou como roteirista e corroteirista de diversos filmes, com destaque para títulos como: O Caso dos Irmãos Naves (1967), de Luiz Sergio Person; Um Céu de Estrelas (1996) e Através da Janela (2000), de Tata Amaral; Brasília: Contradições de uma Cidade Nova, de Joaquim Pedro de Andrade; entre outros. Além de dirigir e codirigir outros títulos, como: São Paulo: Sinfonia e Cacofonia (1994); Paulicéia Fantástica (1970), Eterna Esperança (1971) e Vera Cruz (1972), com João Batista de Andrade; e #eagoraoque (2020) ao lado de Rubens Rewald.
Bernardet também dedicou-se à carreira de ator, tendo participado de diversos filmes, entre eles: Ladrões de Cinema (1977), de Fernando Coni Campos; Filmefobia (2009) e Periscópio (2013), de Kiko Goifman; O Homem das Multidões (2013), de Marcelo Gomes e Cao Guimarães; Pingo D’Água, de Taciano Valério; Em 97 Era Assim (2017), de Zeca Brito; Copo Vazio (2019), de Dellani Lima; entre outros. Foi personagem do documentário A Destruição de Bernardet, de Pedro Marques e Claudia Priscilla, e recentemente apareceu em Os Ruminantes, de Tarsila Araújo e Marcelo Mello.
Com o cineasta Cristiano Burlan criou uma parceria de longa data e atuou em diversos longas do diretor, como: Ulisses (2024), Antes do Fim (2017), No Vazio da Noite (2016) e Fome (2015), que lhe rendeu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Brasília (clique aqui e confira nossa entrevista com Bernardet sobre o longa).
Sua carreira de ator também foi marcada por sua participação em diversos curtas-metragens, como: Disseram que Voltei Americanizada, de Vitor Angelo; Disaster Movie, de Wilson de Barros; A Navalha do Avô, de Pedro Jorge; Você Tem Olhos Tristes e Menino Pássaro, de Diogo Leite; O Ruído do Mar, de Clara Figueiredo e Gabriel Kogan; Nuvem Negra, de Flávio Andrade, que lhe rendeu diversos prêmios; entre outros. Recentemente, com Fábio Rogério, dirigiu os curtas Cama Vazia e A Última Valsa. Além disso, foi vice-presidente da Associação Cultural Kinoforum.
Fotos: Leo Lara/Universo Produção/Divulgação.