20ª CineOP: filmes com Dercy Gonçalves e Helena Ignez são exibidos em cópias restauradas

por: Cinevitor
Helena Ignez apresentou A Mulher de Todos, de Rogério Sganzerla

A mostra Preservação, sempre em consonância com a temática central, é um dos destaques da 20ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto e busca estimular a reflexão sobre a relação entre arquivos audiovisuais e criação de memória, entendendo a memória enquanto patrimônio vivo e dinâmico.

No sábado, 28/06, uma sessão especial foi realizada no Cine-Museu, localizado no anexo do Museu da Inconfidência, com filmes que passaram recentemente por processos de restauração: um marco do cinema tropicalista brasileiro, o longa A Mulher de Todos (1969), de Rogério Sganzerla, se inspira na chanchada e nos filmes de comédia pastelão americanos. Completando a sessão, um registro único da atriz Dercy Gonçalves em um curta-metragem de 1981 restaurado pelo MIS-SP

Para apresentar as exibições, os curadores José Quental e Vivian Malusá convidaram nomes relacionados aos filmes, entre eles, José Maria Lopes, restaurador do projeto do MIS-SP, Museu da Imagem e do Som, das obras de Abrão Berman e especialista em restauração de cinema e TV. Sobre o curta Dercy Gonçalves, dirigido por Abrão Berman e Rosina Leser Schwarz (Ro Black), falou: “O filme que restauramos, com apoio da Cinecolor, é sobre os 50 anos de vida dela. Eu tive o privilégio de conviver com Dercy em alguns momentos na TV Tupi e na TV Cultura, em São Paulo. É um filme em Super 8 com banda magnésia e som direto. Conseguimos fazer um trabalho bacana”. O curta é um documentário íntimo sobre Dercy Gonçalves na época em que comemorava 50 anos de carreira.

Abrão Berman, nascido em 1941, possui o título de pai do Super 8 no Brasil. Berman tinha enorme capacidade de aglutinar pessoas e interesses e assim criou, na época, um dos eventos mais importantes na área cinematográfica do país: os Super Festivais Nacionais do Filme Super8. Ele se formou em cinema na França, no final dos anos 1960, e retornou ao Brasil com o intuito de começar uma carreira como realizador. Por conta dos custos e das dificuldades do meio, acabou encontrando no formato Super 8 a possibilidade de se tornar cineasta; um formato considerado amador e que sofria resistência de profissionais da área. Assim, em plena ditadura brasileira, criou em 1972, junto de sua sócia, Malu Alencar, a empresa GRIFE, Grupo dos Realizadores Independentes de Filmes Experimentais, para trabalhar profissionalmente com Super 8

Cena do curta-metragem Dercy Gonçalves

Sobre A Mulher de Todos, dirigido por Rogério Sganzerla, a atriz e diretora Helena Ignez, referência na história do cinema brasileiro, marcou presença na Mostra de Cinema de Ouro Preto e fez um discurso empolgante antes da exibição: “É, coisa linda, viu? Muito amor e agradecimento à Débora Butruce pelo trabalho belíssimo trazendo de novo A Mulher de Todos como Rogério fez. Nas tiragens é absolutamente magnífico. É um momento lindo para o cinema brasileiro e para nós do cinema experimental, que estamos sendo descobertos pelo mundo. Esse filme é lindo! Vale a pena vocês estarem aqui. É uma obra-prima. Um grande beijo e amor!”.

A sinopse diz: Ângela Carne e Osso é uma ninfômana insaciável, casada com Dr. Plirtz, interpretado por Jô Soares, ex-carrasco nazista e dono do truste das histórias em quadrinhos no Brasil. Entediada com sua vida doméstica, passa seu tempo colecionando homens no retiro idílico da Ilha dos Prazeres. O elenco conta também com Stenio Garcia, Paulo Villaça, Antonio Pitanga, Abrahão Farc, Thelma Reston, Silvio de Campos Filho, José Carlos Cardoso, Antonio Moreira e José Agrippino de Paula

Vencedor do Candango de melhor atriz para Helena Ignez e melhor montagem para Franklin Pereira e Rogério Sganzerla no Festival de Brasília, em 1969, A Mulher de Todos, eleito um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos pela Abraccine, Associação Brasileira de Críticos de Cinema, conta com fotografia de Peter Overbeck e som assinado por Julio Perez Caballar. O roteiro é de Sganzerla, que também assina a produção ao lado de Alfredo Palácios

Débora Butruce, preservadora audiovisual e restauradora de filmes, foi a responsável técnica pelo restauro de A Mulher de Todos. Antes da exibição, falou com o público presente: “Estou muito feliz de estar exibindo essa restauração aqui na CineOP, evento que eu participo há tantos e tantos anos. Essa versão digital restaurada em 4K partiu do interpositivo combinado, que saiu diretamente dos negativos originais. O filme foi rodado em 35 mm e partimos desse material porque os negativos já estavam no estágio avançado de deterioração”

Curadoria e equipe dos filmes na CineOP 2025

E continuou: “A finalidade desse restauro foi restituir essa versão colorizada de como foi idealmente concebida pelo Rogério Sganzerla. Então, vocês vão ver essa explosão de cores na tela. E queria ressaltar esse trabalho em parceria com a Mapa Filmes e com a Link Digital, aqui com a Denise Miller e com o João Paulo Reis que foi o colorista. Foi um desafio voltar com as cores feitas, mas acredito que o resultado está belíssimo. Ficamos felizes com o que conseguimos alcançar”

Rogério Sganzerla iniciou sua carreira como crítico de cinema em 1964, em São Paulo. Aos 20 anos, fez seu primeiro filme, Documentário, premiado com uma viagem ao Festival de Cannes. Em 1968, dirigiu O Bandido da Luz Vermelha, considerado Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO. Em 1970, fundou a produtora Belair com Helena Ignez e Júlio Bressane, onde dirigiu Copacabana Mon Amour e Sem essa, Aranha. Após sua morte, em 2004, sua obra continua sendo celebrada mundialmente.

Neste ano, a mostra Preservação se organiza em algumas frentes distintas que sublinham a importância de uma memória viva e o trabalho de criação de novas memórias do cinema. Há uma seleção de obras brasileiras que foram recentemente digitalizadas ou restauradas, inscritas a partir da chamada da CineOP. Com isso, observa-se o aumento quantitativo e a diversidade dos trabalhos de restauração apresentados, que parecem representar uma transformação do cenário no Brasil. Vale destacar que ações como a Lei Paulo Gustavo, por exemplo, impulsionaram a realização de alguns dos projetos aqui apresentados.

*O CINEVITOR está em Ouro Preto e você acompanha a cobertura do evento por aqui, pelo canal do YouTube e pelas redes sociais: Twitter, Facebook e Instagram.

Fotos: Ane Souz/Universo Produção.

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