
Depois de seis dias de programação intensa, a 20ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto reafirmou sua relevância no calendário cultural nacional ao reunir mais de 20 mil pessoas na cidade mineira, que é Patrimônio Histórico da Humanidade.
O evento comemorativo de duas décadas consolidou Ouro Preto como polo do cinema brasileiro dedicado à preservação, história e educação, impulsionando a economia local e fortalecendo a articulação entre memória audiovisual, formação, políticas públicas e inovação.
A programação exibiu 143 filmes de seis países e 17 estados brasileiros, distribuídos em 12 mostras temáticas, incluindo estreias e sessões especiais como a nova Mostra Competitiva Contemporânea, chamada de Arquivos em Questão, e a Mostra Construindo Memórias, ambas voltadas à reflexão sobre a memória e a montagem no cinema contemporâneo.
Antes do encerramento, na segunda-feira, 30/06, Raquel Hallak, CEO da Universo Produção e coordenadora geral da Mostra, conversou com a imprensa no Centro de Artes e Convenções da UFOP e, como de costume, fez um balanço geral da edição: “Toda vez que começa um evento e eu olho a plateia, eu penso: nossa, conseguimos! Essa é a primeira sensação. De conseguir realizar uma edição. Porque não é fácil em um país que a gente não tem uma política pública dos festivais e mostras de cinema, principalmente, em que nós somos grandes responsáveis; e aqui englobo todos os meus colegas que realizam festivais de cinema. Somos muitos, diversos e necessários. Somos formação e difusão. O cinema brasileiro precisa da gente em todos os sentidos”.
E continuou na coletiva de imprensa: “Quando subo ao palco, me dá uma emoção imensa. Primeiro essa sensação de conseguir e aí eu falo de toda uma equipe que acredita junto comigo nos nossos sonhos e propósitos nessa CineOP. E quando tem uma data redonda como essa, é inevitável uma revisita: a gente vai lembrando de cada ano. O que evoluiu e quais foram os marcos históricos de cada um? Construímos uma linha do tempo”.
Entre os destaques desta edição, a Mostra lançou o Prêmio Preservação, homenageando o professor João Luiz Vieira, e o Prêmio Cinema e Educação, concedido à educadora Maria Angélica dos Santos. A CineOP prestou ainda uma homenagem à atriz Marisa Orth (clique aqui e acompanhe os melhores momentos) em reconhecimento à sua trajetória artística marcada pela versatilidade e contribuição ao humor no cinema brasileiro, reforçando o papel das mulheres na história do audiovisual nacional.
Raquel Hallak e a imprensa na 20ª CineOP
Sobre Marisa, Raquel Hallak comentou, em entrevista exclusiva ao CINEVITOR: “Escolher Marisa Orth para ser homenageada, representando todas as mulheres do humor e do cinema brasileiro, foi extremamente assertivo porque além dela ter uma carreira ímpar, ela tem um humor muito transgressor como um ato político, na sua inteligência, e também desperta aquilo que sai do óbvio. Ela foi chamada não só pelo pelo teatro, pela televisão, mas principalmente pelo cinema que muita gente desconhece. Então, a proposta da homenagem na CineOP é trazer também um cinema que as pessoas desconhecem, mas que faz parte da nossa história audiovisual brasileira”.
Para o CINEVITOR, Raquel Hallak também refletiu sobre esta edição comemorativa da Mostra de Cinema de Ouro Preto: “Eu acho que essa edição, principalmente, é um balanço que reúne mulheres no nosso cinema. Foi uma edição histórica com filmes históricos em que as mulheres estiveram à frente e atrás das câmeras na temática do humor das mulheres no cinema brasileiro. Vimos por aqui encontros de cineastas, roteiristas, produtoras; mulheres que estão fazendo cinema. E, mais do que nunca, mostrando que nossos filmes continuam vivos e que a CineOP é necessária também como um ambiente de formulação de políticas públicas, de formulação coletiva de documentos e de registros fundamentais que apontam a necessidade de políticas públicas para o audiovisual”.
E finalizou: “Celebramos 20 anos do único evento dedicado à preservação, história e educação com uma programação muito intensa e diferenciada em que o público percebeu a importância que a preservação tem. Não só no sentido de preservar os filmes, mas também de dar acesso às escolas como os lugares de memória, a necessidade da pesquisa, do acesso aos filmes. Foi um encontro pela memória, pela salvaguarda do nosso imenso patrimônio audiovisual brasileiro”.
Com a Temática Histórica: O Humor das Mulheres no Cinema Brasileiro, a 20ª CineOP trouxe uma reflexão sobre o papel do humor no cinema brasileiro a partir da perspectiva das mulheres, destacando suas trajetórias tanto na atuação quanto nos bastidores das produções. Sobre a programação, Juliana Gusman, uma das curadoras desta edição e que também estava presente na coletiva de imprensa com Raquel Hallak, comentou: “O que foi interessante nesse percurso de pesquisa curatorial, além de entender o lugar das mulheres numa história de um cinema de humor brasileiro, foi entender que: uma história que já tem sido escrita por várias pesquisadoras que pensam e estudam cinemas feitos por mulheres no Brasil, é que este cinema que a gente sempre reivindicou na chave do feminismo, de um cinema militante, sempre foi muito bem humorado”.
Durante a CineOP 2025, anúncios importantes foram feitos: Frederick Magalhães, do Instituto de Filosofia, Artes e Cultura da UFOP, Universidade Federal de Ouro Preto, revelou o planejamento avançado de um novo curso de bacharelado em Cinema e Audiovisual com ênfase em preservação, aproveitando o patrimônio cultural da cidade. Além disso, o diretor do Museu da Inconfidência, Alex Calheiros, anunciou a criação de uma nova sala de cinema no antigo auditório do museu, que será nomeada em homenagem ao cineasta Joaquim Pedro de Andrade. O espaço, já integrado à programação da CineOP, será adaptado para exibir filmes regularmente com qualidade técnica adequada, reforçando o vínculo entre o cinema e Ouro Preto.
E mais: sobre as obras de revitalização do Cine Vila Rica, o prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo, afirmou que serão aceleradas em movimento que se soma ao vindouro curso de cinema a ser oferecido pela UFOP. Na coletiva de imprensa, Hallak destacou: “Agora vai sair! Os projetos estão sendo licitados para começar a reforma. Só não sei se vai ter recurso suficiente para equipá-lo com tecnologia de última geração”.
Joelma Gonzaga, Secretária do Audiovisual do MinC, e Raquel Hallak
Esta edição teve presença marcante do MinC, Ministério da Cultura, com o lançamento oficial do Programa de Preservação do Audiovisual Brasileiro, iniciativa da Pasta que estrutura uma política nacional de preservação e cria a Rede Nacional de Arquivos Audiovisuais. E mais: no Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, o MinC lançou, durante o evento, a 65ª edição da revista Filme Cultura, com o tema Cinema Mais: o audiovisual LGBTQIA+, que homenageia a pluralidade de identidades e expressões da comunidade, reforçando o compromisso da política cultural com a inclusão.
No programa de formação, foram oferecidas 405 vagas em seis oficinas, seis masterclasses internacionais e um workshop, possibilitando capacitação teórica e prática para estudantes e profissionais do audiovisual. O Programa Cine-Expressão promoveu sete sessões de cinema seguidas de debates beneficiando 3.450 alunos de 19 escolas da rede pública de ensino, reforçando o compromisso da CineOP com a educação e a formação de público.
Além disso, os Encontros de Educação e de Arquivos da 20ª CineOP apresentaram os resultados consolidados de suas discussões e reflexões. Na segunda-feira, 30/06, foram realizadas as leituras e apresentações oficiais das Cartas de Ouro Preto 2025, documentos que expressam os principais encaminhamentos, propostas e diretrizes construídos coletivamente ao longo dos encontros. As cartas reafirmam o papel estratégico da CineOP como espaço de articulação, escuta e construção coletiva de políticas públicas para o setor audiovisual nas frentes da educação e da preservação.
O cinema em conexão com as outras artes na 20ª CineOP foi um dos destaques da programação, que contou com 33 atrações artísticas: shows como o de Ana Cañas, exposição, lançamento de 34 livros, performance audiovisual e Cortejo da Arte. A já tradicional Festa Junina da CineOP beneficiou quatro instituições sociais de Ouro Preto, mostrando o compromisso do evento com a comunidade local.
A 20ª CineOP contou também com uma equipe de trabalho de 126 pessoas, contratou 230 empresas prestadoras de serviços, 22 estabelecimentos comerciais de Ouro Preto, entre hotéis, pousadas e restaurantes, impulsionando o setor de turismo e a economia criativa da cidade e gerou mais de 1.500 empregos diretos e indiretos.
No digital, a Mostra alcançou mais de 100 mil acessos on-line a partir de mais de 60 países e alcançou mais de 2,5 milhões de visualizações em suas redes sociais, ampliando o alcance internacional do evento. A cobertura jornalística foi realizada por mais de 400 veículos de imprensa e presencialmente reuniu 72 profissionais da imprensa de diferentes regiões do país.
Com uma programação que aliou tradição e inovação, a 20ª CineOP reforçou seu papel como espaço fundamental para a preservação da memória do cinema brasileiro e para o debate sobre o audiovisual como patrimônio cultural. O evento beneficiou mais de 20 mil pessoas, impulsionou a economia local, homenageou trajetórias marcantes e lançou iniciativas que fortalecem a memória e a formação no setor audiovisual brasileiro.
*O CINEVITOR está em Ouro Preto e você acompanha a cobertura do evento por aqui, pelo canal do YouTube e pelas redes sociais: Twitter, Facebook e Instagram.
Fotos: Leo Lara e Leo Fontes/Universo Produção.